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Dois séculos de casamentos reais em Inglaterra: Da conveniência ao amor

Já nos idos de 1800 a rainha Victoria recusou vários pretendentes porque queria ser feliz.

Ana Paula Homem
4 de dezembro de 2018, 12:43

A preservação da linhagem dinástica é intrínseca ao conceito de monarquia, que, por isso mesmo, tem como regra a necessidade de casamentos e de descendência. Além disso, ao longo dos séculos os casamentos reais serviram para selar alianças diplomáticas – ou até para estabelecer tréguas – entre países. Como tal, na maioria dos casos, reis e príncipes herdeiros de outros tempos uniam-se com membros de outras famílias reais em casamentos de conveniência, em que o amor não tinha, por princípio, qualquer palavra a dizer. Mas quando, a 29 de abril de 2011, o recém-casado príncipe William de Inglaterra beijou a boca da sua mulher plebeia, Kate, na varanda do Palácio de Buckingham, perante a multidão que se aglomerava no exterior, não restaram dúvidas de que este foi um casamento desejado. Um sinal de que os tempos mudaram, e muito, desde que, 30 anos antes, a 29 de julho de 1981, o seu pai, o príncipe Carlos, e Diana, oriunda de uma respeitada família da pequena mas respeitada nobreza inglesa, apareceram na mesma varanda. Carlos, que continuava preso à sua velha paixão por Camilla Parker-Bowles, limitou-se a um respeitador beijo na mão da sua jovem noiva.

Essa atitude cerimoniosa não foi mais do que a expressão do sacrifício que o príncipe estava a fazer por não ter ousado enfrentar a rigidez das regras reais e o status quo, tentando que Camilla se divorciasse de Andrew Parker-Bowles para se casar com ele. Afinal, na sua família ainda estava bem presente o escândalo da abdicação do rei Eduardo VIII, tio-avô de Carlos, em 1936, para se casar com Wallis Simpson, uma americana plebeia duas vezes divorciada. Além do mais, o príncipe sabia que Isabel II nunca aprovaria Camilla, então com 34 anos, para mãe de um futuro herdeiro do trono. E aos 33 anos Carlos estava mais do que na idade de garantir a sucessão, acabando por escolher Diana – por ser jovem, bonita, bem educada e virgem –
entre as várias hipóteses que a mãe lhe sugeriu.

Um mau começo que, como se provou, acabou da pior maneira: um e outro foram profundamente infelizes, pois Carlos nunca cortou de vez com Camilla e Diana pagou-lhe na mesma moe­da, envolvendo-se em algumas relações extraconjugais. O casamento foi sempre de fachada, e só não perdurou até que a morte os separasse porque Diana bateu o pé e enfrentou a conservadora família real, sendo o divórcio assinado em 1996, um ano antes da morte da princesa de Gales num acidente em Paris.

Essa morte trágica acabou por permitir que, passado o choque inicial, Carlos pudesse finalmente assumir ofi­cialmente o seu amor por Camilla, casando-se com ela a 9 de abril de 2005. Doze anos depois, os dois continuam a parecer apreciar a companhia mútua, a rir-se das mesmas piadas e a exibir gestos e sorrisos de evidente harmonia.
Não se pense, porém, que a união de Carlos e Camilla foi a primeira motivada pelos sentimentos e não pela conveniência. A própria Isabel II conseguiu casar-se com o seu primo Filipe Mountbatten, pelo qual desenvolveu uma paixoneta quando tinha apenas 13 anos, começando a corresponder-se com ele. Em encontros posteriores, Filipe também se terá encantado pela então princesa herdeira, mas só oito anos depois, já Isabel era maior de idade, foi anunciado o noivado. E foi facilmente aprovado, pois Filipe tinha sangue real: não só era descendente dos reis da Dinamarca e da Grécia mas também, como Isabel, trineto da rainha Victoria.
Filipe era oficial da Royal Navy e pouco depois do casamento, celebrado em novembro de 1947, foi enviado para a base naval de Malta, onde ele e Isabel puderam viver como um casal quase anónimo durante três anos. E terão sido tão felizes que a então princesa herdeira se propunha pedir ao pai, Jorge VI, que recolocasse Filipe em Malta, mas o rei morreu entretanto e ela tornou-se rainha aos 27 anos. Desde então, apesar de ter sofrido humilhações como ver os filhos e a mulher perderem o seu apelido, Mountbatten, para darem pelo da família real, Windsor, Filipe tem sido um parceiro dedicado, que em 70 anos de casamento partilhou, sempre um passo atrás, a exigente tarefa da mulher, com a qual parece continuar a divertir-se, como o atestam as gargalhadas que frequentemente dão em público.

Para que Isabel II não abdicasse da sua felicidade pessoal, mesmo sabendo que tinha o trono à sua espera, em muito terá contribuído o facto de o seu próprio pai ter podido casar-se com quem queria, pela simples razão de que não era ele quem estava destinado ao trono. A abdicação do irmão, Eduardo VIII, acabou por levar Albert ao trono em 1936, com o nome de Jorge VI, mas nessa altura já ele estava casado há 13 anos com a mulher que escolhera, Elizabeth Bowes-Lyon, filha do conde de Strathmore e a futura e popular rainha-mãe.

Da união do avô da atual rainha, Jorge V, com a belíssima princesa Mary de Teck, celebrada em 1893, chegam-nos menos ecos, pois a contenção era a palavra chave da família real nesses anos e o que se passava em Buckingham ficava em Buckingham. Mas sabe-se que Mary era uma mulher inteligente, com uma firmeza de betão e capaz de dizer exatamente aquilo que pensava sem deixar de ser diplomática. E que terá sido um apoio importante para o marido, cuja saúde era frágil, nos anos negros da I Guerra Mundial.

Quanto ao casamento do mulherengo Eduardo VII com a princesa Alexandra da Dinamarca, abençoado em março de 1863, foi inequivocamente uma união de conveniência, que nunca terá sido feliz, pois o rei acumulou uma longa lista de amantes – entre elas a famosa atriz Sarah Bernardt –, que, como se esperava na época, Alexandra aceitou sem protestar. Ainda assim, o casal terá mantido uma relação amigável, de tal forma que quando Eduardo VII estava no seu leito de morte a rainha convocou a última amante do marido, Alice Keppel (bisavó de Camilla Parker-Bowles), para que se pudesse despedir do rei. Depois da morte deste, no entanto, Alexandra terá dito: “Agora, finalmente, sei onde é que ele está.”

Já o amor quase obsessivo entre a rainha Victoria e o seu primo direito Alberto de Saxe-Coburgo-Gotha, príncipe da casa real alemã, foi, no mínimo, inesperado e quase indecoroso, numa era em que Inglaterra estava mergulhada num puritanismo exacerbado. Victoria, que subiu ao trono com apenas 18 anos e durante os primeiros tempos de reinado manifestou não pretender casar-se, foi forçada pela corte a aceitar um marido. Rejeitou vá­rias propostas e nada fazia prever que quando reencontrou Alberto, que conhecera na infância e com o qual não simpatizara especialmente, se apaixonasse quase à primeira vista, pedindo-o em casamento cinco dias depois.

A união celebrou-se a 10 de fevereiro de 1840 e, apesar de estar com uma forte dor de cabeça, a rainha, que sempre manteve um diário, escreveu na manhã a seguir à noite de núpcias: “NUNCA, NUNCA passei uma noite assim! O MEU QUERIDO, QUERIDO, QUERIDO Alberto (...) o seu grande amor e afeto fizeram-me sentir num paraíso de amor e felicidade que nunca pensei alguma vez sentir! Segurou-me nos seus braços e beijámo-nos uma e outra e outra vez! A sua beleza, a sua doçura e gentileza – como posso agradecer vezes suficientes ter um marido assim! (...) ser chamada por nomes ternurentos, que nunca me chamaram antes, foi uma bênção inacreditável! Oh, este foi o dia mais feliz da minha vida!”

Este casamento, do qual nasceram nove filhos, terminou precocemente com a morte de Alberto, com apenas 42 anos. Victoria, que lhe sobreviveu 39 anos, mergulhou numa profunda depressão, nunca tirando o luto – ficando por isso conhecida como a “viúva de Windsor” –, mas nem assim abdicou do trono.

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