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Em dez anos, duquesa da Cornualha ‘eclipsou’ Camilla Parker Bowles

Camilla, que Diana tratava por “Rotweiller”, travou uma longa mas discreta batalha para conseguir a aceitação de Isabel II, dos filhos de Carlos e dos ingleses. A coragem com que o fez acabou por lhe dar a vitória.

Ana Paula Homem
9 de maio de 2015, 10:00

Em 1992, quando alguns tabloides britânicos publicaram a transcrição da gravação de uma conversa íntima de conteúdo mais do que explícito entre o príncipe Carlos e a sua amante, Camilla Parker Bowles (escândalo que ficaria conhecido como Camillagate e que foi, sem dúvida, o clímax de uma longa e escabrosa novela de traições mútuas e lava­gem de roupa suja em público), provavelmente nove em cada dez ingleses tinham a pior das opiniões sobre Camilla. Afinal, esta mulher madura (tinha então 45 anos), casada e mãe de filhos, pouco dotada de atributos de beleza e precocemente envelhecida, descuidada com a aparência ao ponto de parecer sempre algo amarrotada, desgrenhada e desengonçada – tudo a contribuir na perfeição para a imagem da megera –, era a típica destruidora de casamentos. Pior ainda, era a grande culpada de todo o sofrimento (em última instância, até da morte) da tímida, delicada, simpática, bonita, elegante, cuidada, enfim, perfeita Diana.
Catorze anos mais nova do que Camilla, a princesa de Gales sempre foi vista como a vítima, o vértice indesejado de um triângulo amoroso que nunca se soube bem quanto tempo durou. Uns dizem que Carlos só terá retomado o romance que tivera com Camilla na juventude depois do nascimento do filho mais novo, Harry, quando o casamento com Diana já tinha fracassado; outros garantem que o caso recomeçara muito antes do início do namoro do príncipe com a filha do conde Spencer. Por isso, e apesar de ela própria ter assumido que também mantivera relações extraconjugais, quando se separou de Carlos, em dezembro de 1992, Diana tinha índices de popularidade brutais. Só superados em agosto de 1997, quando morreu, demasiado jovem, no acidente de automóvel que a transformou num mito: a Princesa do Povo.
Quase duas décadas se passaram entretan­to, durante as quais a ex-mulher de Andrew Parker Bowles, transformada pelo casamento com o herdeiro do trono britânico, a 9 de abril de 2005, em duquesa da Cornualha (o que lhe valeu o estatuto de segunda figura feminina na ordem de precedências do protoco­lo do Reino Unido, logo a seguir a Isabel II), não conseguiu propriamente tornar-se tão querida dos súbditos britânicos como a sua antecessora, mas soube, diplomática e gradualmente, conquistar simpatias e admirações que eclipsaram a má imagem que teve durante anos. Esse lento mas consolidado “branqueamento” deve-se, em boa parte, à dedicação e profissionalismo com que tem desempenhado as tarefas oficiais que lhe foram atribuídas quando se tornou membro da família real, nomeadamente patrocinando inúmeras causas solidárias. Deve-se, em parte não menos significativa, à forma como se tem revelado uma companheira perfeita para o príncipe Carlos, que é hoje, aos 66 anos, um homem muito mais descontraído, de bem com ele próprio e com a vida do que nos anos de Diana (um facto que todos, inclusive os filhos da falecida, reconhecem). E, ironia das ironias, deve-se, sobretudo, ao facto de Camilla ser totalmente o oposto de Diana.
Se não, vejamos: quando, aos 20 anos, se casou com Carlos, Diana era o protótipo da menina frágil, tímida, insegura e virginal que apela ao paternalismo. E desde cedo se encaixou no papel de vítima – da frieza da família real, da rigidez do protocolo, do aparente desinteresse do marido – que pedia proteção com o seu olhar de animalzinho ferido. Já Camilla, certamente foi desde o berço absolutamente enérgica, espontânea, atrevida, arrojada, pragmática e nada vocacionada para o melodrama. Uma mulher que se aceita como é e não tenta meter-se numa forma que não é a dela; que não se leva demasiado a sério e é capaz de se rir dela própria quando se vê numa situação menos favorável; que não precisa do constante olhar de aprovação dos outros para ter a autoestima em alta. E que soube integrar-se na “Firma” (assim se refere Isabel II à sua família), aceitando de bom grado as mudanças que isso implicou, nomeadamente a escravatura da imagem, a que sempre se esquivara, sendo mil vezes mais elegante aos 67 anos do que era aos 27, quando vestia roupa barata e sem corte, se apresentava com um cabelo que parecia nunca ver pente e sapatos cambados.
Ora os ingleses em geral, e os das classes altas em particular (exceção feita para alguns escritores românticos, claro), sempre foram mais apreciadores de figuras femininas afoitas, extrovertidas, até um pouco viris, do que de naturezas frágeis, neurasténicas e melancólicas. Por isso, ultrapassado o choque que foi a confirmação da traição e, mais tarde, o luto pela morte de Diana, foram-se deixando cativar pela segunda mulher de Carlos.
Se dúvidas restassem sobre isso, as sondagens divulgadas este mês, por ocasião da celebração dos dez anos de casamento, no dia 9, dissipam-nas claramente: hoje, não só 50 por cento dos ingleses defendem que, à morte de Isabel II, deverá ser Carlos a subir ao trono (o que contraria os resultados de inúmeros inquéritos de opinião realizados no passado, que davam sempre William como o sucessor preferido), como acham, também, que quando esse dia chegar Camilla deverá adquirir o estatuto de  rainha (recorde-se que por ocasião do casamento ficou assente que Camilla seria apenas consorte do rei e daria sempre por duquesa da Cornualha).
Após longos anos de turbulência, Carlos vê assim a bonança chegar à sua vida. E isso está-lhe estampado no rosto. Para trás ficou a criança que cresceu infeliz na solidão dourada das nurseries dos vastos palácios maternos, o adolescente demasiado magro para a altura, desengonçado e de gestos e feições pouco graciosos, o jovem adulto que se acobardou perante o peso da tradição e não lutou pelo direito ao amor, o marido desatento que não soube fazer a legítima mulher feliz porque guardou para a amante o que tinha de melhor. Na última década, ao lado de Camilla, companheira todo-o-terreno que nunca faz ar de frete e parece ter o dom de transformar o mais insípido dos chás de caridade, a mais aborrecida receção de Estado ou a mais cansativa visita oficial na melhor das ocasiões para se divertirem juntos – basta ver as constantes gargalhadas que soltam –, o príncipe retirou a capa ensimesmada e taciturna com que se tapou boa parte da vida e libertou a sua essência simpática, fleumática, bonacheirona e bem humorada. E dessa os ingleses gostam mesmo. De tal forma que se predispuseram a esquecer os pecadilhos do passado e a deixá-lo cumprir um dia o destino para o qual tem vindo a preparar-se arduamente desde que nasceu, já lá vão 66 anos.

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