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Giscard d'Estaing 'envolve' Diana num romance com um presidente francês

O novo livro do ex-presidente da República Francesa deixa a dúvida: é apenas ficção ou autobiográfico?

Melissa Tavanez
12 de fevereiro de 2010, 11:27

"A primeira vez que vi a princesa de Cardiff foi na antecâmara do Palácio de Buckingham, onde esperava para ser recebido pela rainha de Inglaterra (...) Era alta, esguia e vestia uma saia e casaco brancos (...) tinha visto, como toda a gente, dezenas de fotografias nas revistas, nomeadamente por ocasião do seu casamento com o príncipe herdeiro." Assim começa Valéry Giscard d'Estaing, ex-presidente da República Francesa, o segundo capítulo de A Princesa e o Presidente, que é lançado em Portugal a 8 de Fevereiro pela editora Guerra e Paz e cuja pré-publicação a CARAS teve em exclusivo para Portugal.

Neste romance, que diz ser uma ficção em locais e ambientes verídicos, Giscard d'Estaing, que os franceses tratam coloquialmente por VGE, relata a história de amor vivida, nos anos 80, por um presidente francês de meia-idade e viúvo, a que dá o nome de Jacques-Henri Lambertye, e Patrícia (Pat), princesa de Cardiff (localidade que o autor faz questão de explicar que se situa no País de Gales), nora da rainha Vitória II de Inglaterra."Deslumbrante", jovem, mediática e empenhada em diversas causas humanitárias, Patrícia, recém-saída de um casamento infeliz com o príncipe herdeiro britânico, vive no Palácio de Kensington, tem dois filhos, aos quais é extremamente dedicada, e passou por várias ligações sentimentais sem futuro. Ou seja, como qualquer leitor percebe ao fim de poucas páginas, esta princesa ficcional, loira e de olhos azuis, é construída à imagem e semelhança de uma que existiu mesmo: Diana de Gales.

Além de fisicamente clonada da falecida 'Princesa do Povo', Patrícia, que cativa com os seus "olhares oblíquos de cabeça baixa" -, é, tal como Diana foi, solitária e infeliz, pois a família real trata-a sem consideração e afastou-a dos filhos: "Eu não conto para eles, não existo. Não me pedem opinião para nada, mesmo quando me diz respeito (...) Acho que a família do meu marido, quero dizer, a família real, me detesta. É verdade que lhes pago da mesma moeda!", diz Pat a Henri, para mais tarde contar: "Quando o meu marido estava presente, ocupava-se muito pouco de mim, mas, enfim, sempre estava. Era uma solidão habitada! E depois houve as duas crianças, James e Mary. Temos uma ligação muito forte, tratei deles quando eram pequenos. Mas viviam rodeados por uma multidão de amas e de governantas. Agora estão num colégio interno (...)"

O ex-presidente da República Francesa
O ex-presidente da República Francesa
AFP

Giscard d'Estaing faz ainda alusão, pela boca de Patrícia, à existência de Camilla na vida do príncipe Carlos: "Uns dez dias antes do casamento, o meu futuro marido veio dizer-me que tinha uma amante, e que estava decidido a manter relações com ela depois de se casar comigo (...)" A princesa de Cardiff, por seu turno, também teve casos amorosos parecidos com os de Diana: "Atribuem-me muitos amantes, e é excessivo. Aliás, escolho-os mal. A princípio, procurava-os entre os meus amigos mais chegados, porque era a forma mais simples de romper a solidão (...) A seguir interessei-me por um ou dois homens que pertenciam a meios diferentes, desportivos, diria, e aos quais atribuí uma personalidade forte (...)"

E depois de relatar a Henri a sua vida solitária em Kensington, onde tem um mordomo chamado Paul (recorde-se que o mordomo de Diana se chamava Paul Burrel), Patrícia declara-se-lhe da seguinte forma: "Preciso de sentir a cada instante que sou amada, que a minha presença é procurada, que me desejam (...) Também preciso de viver grandes causas (...) Gostaria de conciliar a minha necessidade de ser amada com a minha paixão por servir estas causas (...) Queria dizer-lhe que desejava que me amasse (...)"

Como é fácil de perceber, A Princesa e o Presidente provocou celeuma aquando da sua publicação em França, em Outubro passado. Por deixar no ar a dúvida: tratar-se-á, realmente, de uma obra de ficção, em que d'Estaing - que sempre teve fama de mulherengo - quis apenas provar que um político de topo não é imune aos assuntos do coração? Ou terá o ex-presidente, hoje com 84 anos, sentido a necessidade, 12 anos após a morte de Diana, de deixar para a posteridade uma história de amor verdadeira? Porque, apesar de já não ser presidente (foi-o entre 74 e 81) quando conheceu Diana, a verdade é que teve oportunidade de privar com ela em algumas ocasiões, nomeadamente quando a princesa foi convidada de honra da 2.ª Nuit de L'Enfance, gala solidária a favor das crianças organizada no Palácio de Versalhes.

O casal Giscard dEstaing
O casal Giscard d’Estaing
Getty

À esquerda e à direita, mediáticas ou anónimas, em jornais, blogues e redes sociais, não faltaram vozes indignadas com este livro. Muitos, inclusivamente Jean-Pierre Corcelette, biógrafo de VGE, consideraram o romance patético, fruto da imaginação doentia de um velho desocupado, senil e com pouco respeito tanto pela memória de Diana como pela mulher com quem está casado há 57 anos, Anne-Aymone.Entre o coro dos desagradados não faltou quem defendesse que o uso "abusivo" da memória de Diana foi apenas uma manobra de marketing para que o livro fizesse sombra à publicação, dias depois deste, das memórias do arqui-rival de VGE (que entrou para a política há mais de 50 anos, tendo fundado um partido de centro-direita, a UDF), Jacques Chirac.

Depois, houve também quem se enternecesse com a faceta romântica que o ex-presidente revelou e lhe desculpasse - ou elogiasse mesmo - o facto de se ter inspirado numa figura tão popular como a 'Princesa do Povo' para criar a heroína de um livro com ingredientes q.b. para agradar aos leitores de histórias de amor com final, revelamos desde já, feliz. Finalmente, não faltaram aqueles que, influenciados por uma pergunta que Patrícia faz a Henri - "Pensa que duas pessoas como nós podem amar-se (...) ou é isso simplesmente ridículo?" -, tenham ficado a matutar na hipótese de VGE ter mesmo tido um romance com Diana e ter decidido, agora que está no ocaso da vida, inscrever a história na História. Esta será, provavelmente, uma questão que ficará sem resposta. Pelo menos enquanto Anne-Aymone Giscard d'Estaing for viva.

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