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Charles-Philippe d’Orléans recorda ‘Reis no Exílio’ em Portugal

Os condes de Paris, avós do duque de Anjou estiveram exilados em Portugal. A sua história e a de outras famílias reais está agora em livro.

Marta Mesquita
28 de outubro de 2011, 14:46

Todos gostamos de contar – e de ouvir –, histórias de família. E ainda mais quando a família é real. Foi precisamente esse mesmo interesse pelas memórias familiares que levou o príncipe Charles-Philippe d’Orléans a escrever Reis no Exílio –Portugal Refúgio Real. Neste livro, o duque de Anjou conta a história de várias famílias reais, incluindo a sua, que durante a Segunda Guerra Mundial ele­geram Portugal como “lar”. Os condes de Barcelona, os reis Humberto e Maria José de Itália e os condes de Paris, avós paternos de Charles-Philippe, foram apenas alguns dos membros da realeza que nessa época fizeram do Estoril, Cascais e Sintra o “triângulo dourado” onde, refere o autor, construíram verdadeiras “casas da felicidade”.
Foi na Quinta do Anjinho, antiga residência dos condes de Paris em Sintra e atual sede da Escola Nacional de Bombeiros (entidade responsável pela formação dos bombeiros portugueses), que a CARAS falou com o autor sobre esta aventura literária.
– O que é que o levou a escrever este livro?
Charles-Philippe d’Orléans
– Houve duas razões. A primeira está relacionada com o facto de ter ficado a viver em Portugal depois de me ter casado [com Diana de Cadaval]. Quando cheguei ao Estoril, comecei a ouvir falar da casa do rei de Itália, dos sítios onde o rei de Espanha ia... Havia muitas referências a reis que estiveram cá no exílio. E aí comecei à procura de livros que abordassem este tema. Encontrei várias obras que falavam de um ou de outro rei no exílio, mas nenhuma que falasse de todos eles. E comecei a pensar se não poderia ser eu a escrever esse livro. A segunda razão prende-se com o facto de ter ouvido sempre as histórias que a minha avó me contava sobre a Quinta do Anjinho e o tempo que cá viveram.
– Como foi a vida dessas pes­soas em Portugal?
– Durante a Segunda Guerra, Portugal tinha a maior concentração de figuras reais no mundo inteiro. Viviam numa espécie de bolha, um pouco desligados do que se passava no mundo, que nessa altura era a guerra. No exílio, todas as famílias reais eram muito unidas e viviam em casas de felicidade, porque as pessoas eram realmente felizes aqui. Os meus avós viveram cá de 46 a 51. Havia em Portugal um ambiente de família que não existia em outro sítio. A minha avó falava muito desta época, bem como o meu pai. E mesmo depois de se irem embora, os meus avós voltavam todos os verões, porque gostavam de cá estar.
– Diz que foram tempos felizes, mas a verdade é que foi um exílio forçado...
– Há aqui uma espécie de am­biguidade. Eram felizes, porque estavam juntos, mas as circunstâncias que levaram a esta reunião obrigou-os a saírem dos seus países, o que é muito triste. Diz-se que se vive muito bem no exílio, porque se deixa de ter a responsabilidade de reinar, mas eu acho que é uma situação muito triste. Há sempre a frustração de não se estar onde se deveria estar. As festas, os jantares, as reuniões que aconteciam cá eram uma espécie de cenário de teatro que escondia a realidade. Acho que essas famílias não eram realmente felizes, porque não estavam no mundo a que pertenciam.
– O exílio e as dificuldades acabaram por obrigar as famílias reais a viver de uma outra maneira...
– Este livro explica a intersecção entre um mundo que acabou e outro que começou. Tentei contar como as monarquias caíram e como esses reis transformaram a sua função de reinar num novo papel, que é o que têm hoje.
– E que papel é esse?
– É um papel de representação. Hoje, os reis ainda fazem sonhar, mas da mesma maneira que um ator. Queremos vê-los nas revistas, saber da sua vida. E este livro conta essa transformação de reis que reinavam para reis que deixaram de o fazer. Em Inglaterra todos sonharam com o casamento do príncipe William! O mundo parou para ver os noivos e as pessoas famosas. Foi encarado como um show.
– Pertence a uma dessas fa­mílias reais que não reinam. Teve dificuldade em perceber qual seria o seu papel no mundo de hoje?
– Foi muito complicado para os meus avós e para a geração dos meus pais, porque no tempo deles ainda havia muito dinheiro e o sonho de a monarquia ser restaurada. Para a minha geração já foi muito diferente. Eu e os meus primos já crescemos com a noção de que a monarquia não iria voltar a França. Fomos educados de uma maneira muito mais realista e concreta. Sempre soubemos que para ganharmos dinheiro tínhamos que trabalhar. Mas apesar de sermos príncipes numa república, continuamos a ter um nome com o peso da História. Não é difícil saber qual é o nosso papel. Temos é de viver consoante a realidade e não nos isolarmos numa bolha.
– Na dedicatória do livro fala da importância da família. Agora que vai ser pai [em fevereiro], sente-se mais responsável por transmitir os valores familiares em que acredita?
– Este livro é dedicado a duas pessoas que representam o meu conceito de família: a minha avó, que era um verdadeiro elo de ligação entre todos, e para quem o mais importante era a família e a fé; e o rei Juan Carlos de Espanha, que representa a outra família, que é a Nação. É fundamental nos dias de hoje preservarmos a família. E noto que a pouco e pouco isso se vai esbatendo. Não se nota tanto em Portugal, mas em França o conceito de família está perdido. As pessoas esquecem-se dos avós, que ficam sozinhos. E este livro fala, de facto, de famílias, das suas histórias, alegrias e tristezas. Pode acabar tudo no mundo, mas a família tem de permanecer.
– Que tipo de educação quer dar ao seu filho?
 
– O mais importante na educação do meu filho será a fé, o respeito pela família e pelo dever. Vivemos numa sociedade em que pensamos que temos muito direitos, mas isso implica muitos deveres. Religião, família e dever são os nossos pilares.
– Como é que estão a viver a gravidez da Diana?
– É uma fase muito importante para todos, para mim, para a Diana e para os nossos pais. Os meus pais já têm oito netos, mas a chegada de mais um é sempre importante. Está a ser um período ótimo.
– À semelhança dos seus avós, elegeu Portugal para viver. O que é que este país lhe tem dado?
– O que eles também receberam. Com a diferença que para os meus avós foi um exílio forçado e eu estou cá de todo o coração. Tenho sempre a impressão de que sou bem-vindo e os meus avós também sentiram isso. Os portugueses acolhem muito bem os estrangeiros.

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