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João Guedes e Pedro Lima

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D.R.

Pedro Lima: "O surf dá-nos coragem para enfrentar tudo o que nos mete medo"

Depois de Ricardo Trêpa, Manel Sá Pessoa e Francisco Mendes, chegou a vez de Pedro Lima ser entrevistado pelo surfista do Norte e ex-campeão nacional, João Guedes, a fechar um ciclo de conversas em que o surf foi o denominador comum. Nesta última peça, Pedro fala-nos sobre o seu percurso na natação de alta competição, a forma como o surf o ajuda a superar os seus medos e o desejo de transmitir a sua paixão pelas ondas aos filhos.

Divulgação
7 de fevereiro de 2014, 16:24

João Guedes – Como é que o surf surgiu na tua vida?
Pedro Lima –
Comecei a fazer natação aos 8 anos e aos 10 conheci o Tiago Oliveira [reputado surfista da Ericeira], que era meu colega na natação e já fazia surf de competição. Um outro colega chamado José Falcão, que infelizmente já não está connosco, também era praticante e foi com ele que comecei a surfar, na Costa da Caparica. Depois, quando passei para a escola preparatória tornei-me colega do Bruno Charneca [ex-campeão nacional], ou seja, fui colega de dois grandes nomes do surf nacional. Na altura, eu era nadador de competição e durante muitos anos só pude fazer surf no Verão. Só mais tarde, depois de desistir da natação por volta dos 21 anos, é que comecei a praticar surf também no Inverno, que é a época alta do surf em Portugal.
– Como foi o teu percurso na natação?
– Com 10 anos já era campeão nacional em todas as categorias em que participava, exceto bruços. Participei em campeonatos da Europa e fui aos Jogos Olímpicos duas vezes. Encarava a natação seriamente e participava nas principais competições.
– Qual a importância que o surf tem na tua vida?
– O surf é um desporto mas toda a gente sabe que transcende muito essa definição. Há uma dimensão espiritual muito grande, de convivência e respeito pela natureza e de conservação daquilo que ela tem para nos oferecer. Há também uma dimensão psicológica que tem a ver com a nossa necessidade de lidarmos com o medo. Muitas vezes desafiamo-nos a entrar no mar em condições em que corremos risco de vida, o que nos oferece uma lição que pode ser transposta para a própria vida e que tem a ver com o facto de, apesar de sentirmos medo, avançarmos e aceitarmos o desafio. No fim percebemos que, por mais tempo que permaneçamos debaixo de água sem respirar ou por mais duramente que batamos no fundo, não morremos. Resistimos e continuamos. O surf mostra-nos que devemos ter a coragem de enfrentar tudo o que nos mete medo, independentemente do resultado que possamos ter nesse ato de coragem.
– É fácil conciliar o surf com a tua profissão?
– Eu tenho um problema: a minha referência no surf são sempre os melhores [surfistas]. Eu quero sempre surfar como os melhores. Ainda que na prática não esteja próximo deles, gosto de sentir que pelo menos faço esse esforço. Gostava de ter disponibilidade para praticar regularmente mas às vezes é frustrante porque a minha vida, tanto familiar como profissional, não me deixa muito tempo livre para praticar surf tanto quanto gostaria. E depois o surf também deixa um cansaço muito grande, consome muita energia que é necessária para outras atividades da vida. Muitas vezes não consigo praticar surf com a intensidade e duração que gostaria, mas é sempre possível. Claro que há fases em que é menos possível do que noutras, e agora estou numa fase mais difícil.
– Tens algumas restrições por seres ator?
– As cláusulas dos contratos com os atores normalmente obrigam-nos, pelo menos durante o período em que estão a gravar uma novela ou a fazer uma peça, a não praticar desportos de risco. Mas o surf é um desporto que me acompanha há tantos anos que peço sempre para haver uma exceção em relação ao surf, e até agora essa exceção tem-me sido concedida. À partida, o surf é um desporto não recomendado a pessoas com responsabilidades em representação. A questão do sol também é importante, mas tento sempre proteger-me ao máximo com os cosméticos disponíveis no mercado.
– Tenho-te visto com bastante regularidade em alguns dos melhores spots de surf do país em dias de muita ondulação. Quando é que decidiste que era esse tipo de ondas que querias surfar e não aquelas condições mais confortáveis?
– Tem a ver com a minha inclinação para os tubos. Eu acho que todos os surfistas, com a idade, começam a procurar fundamentalmente ondas tubulares porque o surf progressivo é mais violento para o corpo, enquanto o surf de tubos envolve essencialmente timing e a experiência do surfista. Este tipo de surf está mais ao alcance de surfistas com mais idade, que não têm uma pujança física tão evidente – exceção feita, claro, ao Kelly Slater, que é um extra-terrestre!
– Imaginas-te a surfar para sempre e a transmitir essa paixão aos teus filhos?
– O que nós passamos à nossa descendência fazemo-lo através do exemplo, e têm de ser eles a manifestar esse desejo. Tentei induzir o meu filho mais velho a praticar e ele rejeitou completamente, foi um erro da minha parte. Agora, na adolescência, já pediu uma prancha e começa a acompanhar-me de novo. Em relação aos outros, todos eles já têm prancha e fato, e poderão surfar em função daquilo que lhes apetecer e das oportunidades que houver. Eles sabem que têm um exemplo em casa de um pai que já tem uma certa idade e que continua a praticar. Se vou praticar até ao fim da minha vida, não sei… Não sei até que ponto o surf mais suave me irá satisfazer. Quando faço manobras, ainda tento fazer coisas (que muitas vezes não consigo fazer) que exigem uma performance física que só é possível enquanto se tem alguma juventude. A partir de determinada altura, é natural que o surf comece a ser mais frustrante, mas também gosto de acreditar que ainda estou longe de chegar a esse ponto. Como motivação, servem-me os exemplos que tenho de viagens que tenho feito em que tenho visto gente a surfar até bastante tarde – com 55, 60 anos – e em ondas com um certo nível de agressividade, por isso ainda tenho alguns anos pela frente sem estar preocupado se devo ou não desistir.

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