Nas Bancas

Ricardo Ribeiro-1441.jpg

João Lima

Ricardo Ribeiro “Devo ao fado a vida que tenho e aquilo que sou”

Ricardo Ribeiro assume, sem rodeios, que tem uma identidade artística e que a respeita em cada novo trabalho. E admite: “Prefiro ter vida interior do que exterior. Não é o dinheiro que me faz feliz.”

Vanessa Bento
25 de agosto de 2019, 18:30

Foi o bairro da Ajuda que o viu nascer e crescer. Rodeado de música e de livros, foi lá que se fez fadista sem saber. Hoje, Ricardo Ribeiro é um nome incontornável do fado, mesmo que o seu último trabalho – Respeitosa Mente – seja um disco que não é de fados, como gosta de sublinhar. Mas é esse destino que lhe corre nas veias e lhe eleva a voz sempre que decide cantar a vida em forma de poesia. Para isso teve de encarar a sua e tudo o que já viveu. Marcado por uma infância exigente – foi-lhe difícil superar a separação dos pais –, passou por uma tentativa de suicídio na adolescência e por uma depressão em adulto, pelo que carrega consigo a luz e a sombra de quem tem lutado para fazer as pazes com o passado. Neste caminho, Ricardo Ribeiro soube olhar para dentro e transformar-se também por fora: depois de um combate contra o excesso de peso, perdeu 50 quilos e tem hoje um olhar diferente perante a vida. O que nunca muda é o amor. Aquele que vive e aquele que dá, na mesma medida, seja à namorada, seja à filha, Carolina, de 14 anos.

– Já fez muita coisa ao longo da vida, mas o fado claramente faz parte do seu destino. É nele que se cumpre?

Ricardo Ribeiro – Em traços gerais, sim, porque é ao fado que devo tudo. Devo a vida que tenho e devo, fundamentalmente, aquilo que sou ou que julgo que sou. O fado esteve sempre tão ligado a mim que é uma coisa quase sanguínea. Não há como dissociar esta expressão lisboeta da minha pessoa e, se calhar um dia destes, a minha pessoa desta expressão lisboeta.

– Sempre teve essa consciência?

– Não, porque há coisas que não têm a ver com consciência, têm a ver com a vida. E o fado é tão natural como a vida, é interior. Não preciso de ter consciência para cantar, só preciso de ter consciência da própria vida para lhe dar voz.

– Há um verso de António Ramos Rosa que diz: “Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.” Identifica-se?

– Sim, de alguma forma. Não sei a que ponto é que ele se refere ao vazio... O mar pode ser o vazio, um amor também pode ser o vazio. Claro que o amor preenche uma série de coisas, porque o amor salva, transforma. A nossa maior virtude é a boa vontade, e o amor o que é senão a boa vontade para comigo e para com os outros? Mas na minha vida vou tendo intermitências do vazio.

Comentários

ATENÇÃO: ESTE É UM ESPAÇO PÚBLICO E MODERADO. Não forneça os seus dados pessoais (como telefone ou morada) nem utilize linguagem imprópria.

Nas Bancas

Newsletters

Receba grátis no seu email as notícias, as últimas caras!

Caras Nas Redes

Mais na Caras