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Joe Berardo: de quinto português mais rico a dono de uma mera garagem

Numa entrevista que deu à CARAS em 2011, Berardo confidenciou que em jovem tinha “miúdas que o adoravam”. Uma delas terá sido Carolina, com quem está casado há 50 anos. Pais de Renato e Cláudia, José e Carolina são avós de Allegra, Valentino e Rocco.

Ana Paula Homem
31 de maio de 2019, 09:24

Em 2007, segundo a revista Exame, José Manuel Rodrigues Berardo ocupava o quinto lugar na lista dos dez portugueses mais ricos, com uma fortuna avaliada em 890 milhões de euros. Em 2010 tinha descido para o nono lugar e no ano seguinte já não constava dessa lista. Ainda assim, continuava a ser muitíssimo rico e não o escondia. Em 2011, numa entrevista que deu à CARAS, o empresário, nascido no Funchal a 4 de julho de 1944 e emigrado aos 19 anos para a África do Sul, onde começou a construir a seu imenso património, não se coibiu de dizer que mantinha “uma extraordinária casa, com jardins fenomenais, em Joanesburgo”.
Hoje, tal como afirmou no passado dia 10 perante a Comissão de Inquérito Parlamentar à Caixa Geral de Depósitos – à qual deve cerca de 266 milhões de euros –, tem em seu nome apenas uma garagem no Funchal, e não só garantiu que o luxuoso apartamento T5 onde vive, na Avenida Infante Santo, em Lisboa, não é seu como disse nem saber quanto paga de renda.
No entanto, ainda em 2017 foi como óbvio dono da casa que recebeu a imprensa na grande festa das vindimas que organiza anualmente em Azeitão, na Quinta da Bacalhôa, propriedade onde produz vinhos e que alberga um palácio que no século XVI pertenceu à família real e é considerado o expoente máximo da arquitetura civil renascentista portuguesa. Berardo adquiriu a Quinta da Bacalhôa (que dá nome à grande empresa vinícola que o multifacetado empresário criou e que possui quintas um pouco por todo o país) em 2000, por cerca de sete milhões e meio de euros. Também esta não está em seu nome.
Ao longo das cinco horas que durou o inquérito, Berardo teve várias tiradas de mau gosto, mas uma coisa é certa: falou verdade quando disse que não tem nada, pois soube salvaguardar todos os seus bens, pondo-os em nome da Fundação Berardo, Instituição Particular de Solidariedade Social. Isenta de impostos e sem fins lucrativos, a fundação não deveria fazer investimentos de risco associados à compra de ações. Mas fez.
Igualmente verdade é que o duplamente comendador – em 1985 foi agraciado por Ramalho Eanes com a comenda da Ordem do Infante D. Henrique e em 2004 Jorge Sampaio deu-lhe a Grã-Cruz da mesma ordem de mérito (honras que agora se arrisca a perder) – tem uma dívida de quase mil milhões de euros a três bancos: a Caixa Geral de Depósitos, o BCP e o Novo Banco.
No entanto, perante os deputados que o inquiriram, e que tratou com “desplante”, como catalogou o primeiro-ministro, António Costa, e numa atitude que a ministra da Cultura, Graça Fonseca, considerou “lamentável e inqualificável”, Joe Berardo não teve o menor pudor em afirmar: “Eu, pessoalmente, não devo nada.” E, de facto, não deve. Porque a maior parte das dívidas foram contraídas não pelo cidadão José Berardo, mas pela Fundação José Berardo, entidade através da qual pediu uma boa parte dos 864 milhões de empréstimos que contraiu em 2007, para, nomeadamente, comprar ações no BCP, apoiando Paulo Teixeira Pinto na disputa com Jorge Jardim Gonçalves pelo poder naquele banco. Desses 864 milhões que os bancos lhe emprestaram sem assegurar as devidas garantias, Berardo só pagou 2,2 milhões, entre 2012 e 2019. Desses, nem um euro foi destinado ao banco público.
E é precisamente o facto de ser a fundação a grande devedora que permite a Berardo sentir-se impune ao ponto de se rir na cara dos deputados. Uma atitude provocatória que levou o seu advogado de longa data, André Luís Gomes, a pedir-lhe contenção por diversas vezes. Quanto às respostas evasivas, aos “esquecimentos” e ao discurso atabalhoado e com muitas palavras em inglês, a dada altura justificou-os com o facto de ser disléxico. O que não deixa de ser irónico, tendo em conta que na mesma entrevista que deu à CARAS em 2011 defendeu: “Na minha maneira de ver, e na de Bill Gates ou de diversos Presidentes da América, a dislexia faz-nos ver as coisas de uma maneira diferente. Eu não considero a dislexia uma deficiência, mas sim uma qualidade da pessoa, que vê aquilo que os outros não veem.”
Essa visão teve-a desde cedo. Como se pode ler no site do Museu Coleção Berardo, “chegado a Joanesburgo, começa por trabalhar numa loja de produtos agrícolas, da qual viria a ser sócio. O negócio permitiu o contacto com o setor mineiro; antecipando a subida do preço do ouro, Berardo dedica-se à reciclagem dos desperdícios, reiniciando a exploração das minas desativadas que entretanto havia adquirido. Rapidamente se torna proprietário de várias refinarias em minas de ouro e de diamantes, alargando os seus negócios ao mercado bancário e ao mercado bolsista”. Pouco a pouco, Berardo continua “a prosperar e a diversificar os seus negócios. Entra no ramo do mármore e dos granitos, chega ao petróleo, às telecomunicações, ao material informático, ao papel e até ao cinema. Com maior poder financeiro, decide iniciar a sua primeira coleção de arte”, relata ainda o site do museu.
Na década de 80 Joe é nomeado presidente do Bank of Lisbon e pouco tempo depois integra o Conselho Consultivo do Presidente da República da África do Sul. Já na segunda metade dos anos 80 expande os seus negócios para o Canadá, Portugal e Austrália. Em Portugal, para onde regressa em 1986, rapidamente ganha relevo na banca, na hotelaria, na indústria tabaqueira, no imobiliário, nos media, na cortiça, nos vinhos, na moda, entre muitos outros.
Nos anos 90 lança a Coleção Berardo. Considerada uma das melhores coleções privadas de arte moderna e contemporânea do mundo, está, desde 2007, patente ao público no Museu Coleção Berardo, no CCB, em Lisboa, através de um protocolo de comodato com o Estado português. Uma coleção que o Estado vai agora tentar que sirva para pagar uma parte das dívidas contraídas pelo comendador.
A nível pessoal, em 1969 Joe casa-se com Carolina Gonçalves, a mais velha de 12 filhos de um casal de portugueses também eles emigrados na África do Sul. À CARAS, em outubro de 2006, lembrou como se desenrolou o romance: “Na altura eu era um homem da noite, mas quando acordava ao lado de mulheres das quais nem o nome sabia sentia um enorme vazio. Uma noite fui a um baile, e quando vi a Carolina... foi uma química que não consigo explicar. Não a conhecia e nunca a tinha visto. Naquela noite olhei para ela e disse-lhe: ‘Tu vais ser a minha mulher.’ [Risos.] O mais complicado foi convencer o meu sogro das minhas boas intenções, uma vez que a minha fama não era das melhores e, ao contrário de hoje, não tinha muito dinheiro.”
Na mesma entrevista contou qual o segredo de um casamento que à data já festejara 37 anos. “Não sou nenhum santo, mas tenho a noção de que quando uma pessoa se casa e se obriga a mudar a sua personalidade o casamento acaba sempre mal ou, melhor, não começa bem e é uma chatice! Não sou nenhum anjo e tenho os meus caprichos, que não são fáceis. No entanto, sempre coloquei a minha família no topo das prioridades.”
José e Carolina tiveram dois filhos, Renato, em 1971, e Cláudia, em 1972, que lhe deram três netos, Allegra, Valentino e Rocco. E estes foram, disse-nos, o melhor que lhe “aconteceu na vida no que diz respeito à sensibilidade humana. O seu nascimento modificou a minha forma de ver a vida e eu ainda não percebi muito bem porquê... Mas que me dão uma alegria excecional, lá isso dão”.
Anos depois, numa nova conversa com a nossa revista, garantiu: “Tenho uma relação maravilhosa com a minha família e sinto-me privilegiado pelo apoio familiar. Nós somos uma autêntica equipa e trabalhamos como tal. (...) Tenho muita sorte, porque todos eles, filhos, nora, genro, a minha mulher e até os meus netos, se interessam pela arte e têm gosto em participar em todas as atividades que desenvolvemos.”
Resta agora saber se com a queda de Joe a família não será levada por arrasto na enxurrada. .

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