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Norman Parkinson: o excêntrico que fez da fotografia de moda arte

O Centro Cultural de Cascais tem em exposição, até 20 de janeiro, 80 obras de Norman Parkinson.

Ana Paula Homem
13 de janeiro de 2019, 10:40

“Pintar” com uma câmara
As lentes das máquinas fotográficas de Norman Parkinson tinham um poder sobrenatural. Ou, pelo menos, o olhar sensível deste britânico, que dedicou mais de 50 anos da sua vida à fotografia, captava, em cada cenário que escolhia para uma sessão de fotos, detalhes especiais que a maioria dos comuns mortais era incapaz de ver. Esse olhar sobredotado fez com que desde muito cedo Parkinson mostrasse que uma fotografia pode ser muito mais do que um instantâneo impresso em papel, mas, sim, uma verdadeira obra de arte.
Nascido em abril de 1913, Norman Parkinson começou a fotografar em 1931, como aprendiz, nos estúdios de Richard Speaight, famoso pelos seus retratos da alta sociedade e da realeza europeia. Em 1934 abriu um estúdio, em parceria com um colega, ganhando a vida a fotografar, sobretudo, debutantes e beldades da alta sociedade ao estilo de estrelas de Hollywood. Depressa, porém, percebeu que trabalhar em estúdio era um contrassenso. Isto porque defendia que a iluminação dos estúdios era uma tentativa de imitar a luz do sol e, como tal, nada como optar pelo original.
Assim, a partir de 1936 passa a fotografar no exterior, tanto em ambientes citadinos como bucólicos, e, mais tarde, exóticos. Será a imagem da modelo Pamela Minchin, em fato de banho e a saltar numa praia, feita em 1939 para a Harper’s Bazaar, que o fará perceber em definitivo que é por ali o seu caminho: “Quando retirei a foto do líquido revelador, confirmei que teria de ser fotógrafo para o resto da vida. Fiquei absolutamente maravilhado com a sua magia.”

Beleza e elegância
Numa entrevista que deu à Thames TV em 1977, Norman Parkinson disse que não se via como fotógrafo de moda, mas “simplesmente como fotógrafo”. Mas afirmava também que “um fotógrafo sem uma revista por detrás é como um agricultor sem uma quinta”. E foram, na verdade, as revistas de moda que o “descobriram” e o tornaram indispensável, tendo feito inúmeros e inspirados editoriais de moda para títulos como a Harper’s Bazaar ou a Vogue. Por isso, definitivamente, era um fotógrafo de moda. E dos melhores. Porque, se tinha a consciência de que “uma câmara pode ser a arma mais mortal inventada desde as armas de fogo”, também sabia que “pode ser uma loção para o coração”. E a sua aposta foi sempre pelo lado da loção. Ou seja, pela beleza, pela valorização de quem para ele posava.
Desde os anos 30 até 1990, ano em que morreu, em Singapura, onde se encontrava a trabalhar, Parkinson soube atualizar-se sempre, fazendo história com as suas fotografias, tanto retratando o glamour dos anos 30 na Grã-Bretanha como a austeridade da moda na II Guerra Mundial, o elegante new look parisiense dos anos 50, o london swinging dos anos 60 e o glitter das décadas de 70 e 80.
Este inglês educado, irreverente, criativo, apreciador dos bons prazeres da vida e com um sentido de humor tipicamente britânico – que cultivava a excentricidade na forma de estar e até na forma de vestir – tinha uma máxima que não transgredia: “Quando fotografo uma modelo, quero que pareça ser ela a dona da roupa que veste. A maioria das raparigas que vemos por aí, se lhe pomos um casaco de vison, começamos a pensar como é que o terá conseguido. Terá sido na vertical ou na horizontal? Mas as minhas modelos são das que os conseguiram na vertical.” E, com efeito, nunca uma foto sua resvalava para o vulgar. Em todas elas, mesmo nas mais sensuais, as suas modelos são retratadas como senhoras. Porque Parkinson era, também ele, um senhor.
E quem lidou de perto com ele confirma-o. A belíssima modelo Carmen delle Orefice, que foi uma das primeiras divas de Norman e, aos 87 anos, continua a fazer trabalhos pontuais como modelo, disse num documentário da BBC sobre Parkinson: “Ele amava as mulheres e a beleza. E era charmoso. Aquele homem era o charme total!”

Um homem de musas
Norman Parkinson dizia que, tal como Roma, a “beleza das mulheres é eterna”. E se houve alguém que conviveu sempre com mulheres belíssimas, esse alguém foi ele. Nomeadamente a distinta atriz Wenda Rodgerson (sua terceira mulher, com quem esteve casado de 1947 a 1987, ano da morte dela), que foi, sem dúvida, a sua grande musa e uma das que mais fotografou.
Wenda, que acompanhava o marido para todos os locais onde ele ia em trabalho, primeiro como modelo, mais tarde como assistente, era realmente a personificação da mulher sofisticada, e Norman soube explorar magnificamente o contraste da sua figura estilizada e impecavelmente vestida com o último grito da moda com peças de grandes costureiros, como Dior, Chanel ou Norman Hartnell, em cenários inesperados, como um talho, uma antiga estação de metro, uma estrada rural coberta de neve, mas também um palácio barroco, de pé numa canoa no meio de um rio na Índia ou sentada numa avestruz numa savana.
Apesar de também ter feito produções fotográficas de promoção de trabalhos de figuras da música, como os Beatles ou David Bowie, e até retratos da família real inglesa, a magnificência do seu trabalho destacava-se realmente quando fotografava modelos femininos, várias das quais lançou para o estrelato.
Texto: ana paula homem fotos: getty images e Norman Parkinson Archive_Iconic Images (cedidas pelo Centro Cultural de Cascais)

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