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João Lima

Dalila Carmo admite: “Não sou uma pessoa da tribo e odeio andar em rebanho”

Numa conversa sem filtros, a atriz assume ser uma mulher livre, que sabe bem o caminho a seguir.

Marta Mesquita
25 de agosto de 2018, 10:01

Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.” Esta citação é de Clarice Lispector, mas poderia muito bem ter sido escrita, ou dita, por Dalila Carmo. Aos 43 anos, a atriz fez do mundo o seu palco, ao qual sobe sem máscaras e falsos moralismos. Nunca gostou de ser igual aos outros, não para ser diferente, mas para ser fiel a si própria, ao seu sentir e às suas aspirações. Há muito que Dalila fez da liberdade o seu estilo de vida: vai para onde quer, priva com quem escolhe e não se deixa ficar onde não é feliz.
Quando não está a conhecer os cantos do planeta, a atriz trabalha. Mais do que uma profissão, representar é a sua forma de extravasar a “urgência de expressão” que sente desde que é gente. Irrequieta, curiosa, solitária e sempre à procura do equilíbrio, Dalila é uma mulher que se sente bem na sua pele e que não precisa de um coprotagonista para escrever o guião que leva à cena todos os dias, como partilhou numa conversa intimista.
– Nesta produção no Museu Coleção Berardo esteve no seu habitat natural, uma vez que há arte por todo o lado...
Dalila Carmo – É verdade. Não consigo dissociar as artes plásticas da literatura ou da música. Acho que tudo isto faz parte da mesma urgência de expressão e de comunicação. Sou uma pessoa curiosa, por isso, quando não estou a trabalhar, sou muito espectadora de todo este mundo criativo.
– Esse impulso criativo e essa curiosidade sempre foram traços que reconheceu em si?
– Sim, sempre. A minha mãe pôs-me na música e no ballet muito cedo. Tive as ferramentas certas para me tornar uma pessoa curiosa e com sentido crítico. Mas estamos a falar de uma outra época. Hoje, as carreiras estão muito mais centradas nas redes sociais do que no verdadeiro conteúdo que deve acompanhar o trabalho criativo.
– Encaixa-se nesta nova forma de comunicar e de chegar aos outros?
– É o capitalismo cultural, tudo é uma marca. Hoje, as pessoas estão a viver de fora para dentro, e isso é perigoso. O centro do meu trabalho é precisamente de dentro para fora, o que cria um conflito interior enorme, porque cada vez mais vejo esta profissão ser sustentada pela vaidade, pelo superficial e pela ostentação. A imagem é privilegiada em detrimento do conteúdo real, e isso é precisamente o oposto da forma como me construí. Também gosto de estar bonita e de ficar bem numa fotografia, mas isso não pode ser o motor. Uma das coisas que sempre valorizei foi o mistério que há à volta do artista e do seu processo de trabalho. E quando se mostra tudo perde-se a magia.
– E como é que alguém contracorrente se tornou uma das atrizes mais populares da ficção nacional?
– Acho que isto é tudo muito efémero. Espero que os atores a partir dos 50 anos continuem a ter papéis, porque há cada vez mais o culto da juventude. Quantos mais riscos tivermos na cara, mais humanidade passamos para os outros. Quero acreditar que as pessoas gostam do meu trabalho. Nunca simplifiquei o meu desempenho só por já ter feito isto ou aquilo. Continuo a complicar e a procurar novas texturas. Talvez a minha inquietação tenha algo de comercial. Tenho o mesmo sentimento de precariedade que tinha aos 20 anos.
– Há seis anos tinha uma vida completamente diferente. Estava casada e tinha uma rotina familiar. Alguma vez pensa: “E se tudo tivesse continuado na mesma?”
– Mesmo dentro da estrutura do casamento nunca seguimos as convenções. Há uma coerência no meu percurso. Não sei lidar com a rotina, nunca soube. Mas também preciso de uma grande tranquilidade. Tenho alguma dificuldade em lidar com questões mais práticas. Vivo melhor num espaço lúdico. Sou muito disfuncional. Habituei-me a viver em cima da linha de um trapézio. Estou constantemente em equilíbrio e desequilíbrio.
– No meio dessas oscilações, também deve precisar de alguma estabilidade…
– Sim. Gosto muito de estar em casa. Também gosto das minhas pessoas. Os amigos são a família que escolhi. Sou solitária, mas o facto de saber que tenho as minhas pessoas lá é muito importante. Por isso nunca me sinto totalmente sozinha ou desestruturada. Agora não sou uma pessoa da tribo e odeio andar em rebanho.

Leia esta entrevista na íntegra na edição 1200 da revista CARAS.
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