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Tiago Caramujo

Bruno Castro, conhecido como DJ Overule, partilha as suas inspirações

Longe das discotecas e dos grandes palcos, o músico é um homem discreto e dedicado à família.

Marta Mesquita
20 de maio de 2018, 12:34

O encontro estava marcado na Officina Moto, em Marvila. Apesar de não ser um motoqueiro, Bruno Castro, conhecido como DJ Overule, gostou da ideia, até porque encontra muitas semelhanças entre o seu estilo de vida e o dos motards. Tal como eles, o DJ “faz-se à estrada” para poder tocar nas discotecas e clubes mais emblemáticos do país. Se um motoqueiro, quando põe o capacete e se faz ao asfalto, começa uma viagem muito particular, também o músico, quando está com os auscultadores e vai para a sua mesa de mistura, parece esquecer-se de tudo, entrando numa realidade onde só ele e a música têm lugar. Contudo, quando o sol nasce, a vida acontece a um outro ritmo. O DJ arruma os discos e dá lugar a Bruno, marido de Laura e pai de Mafalda, de um ano e meio, e de Inês, de dois meses. E é neste convívio harmonioso entre o homem de família e o músico que não gosta de seguir as regras que este DJ, de 36 anos, se encontra e realiza.
– Como é que a música entrou na sua vida?
Bruno Castro – Entrou cedo. Habituei-me a ouvir música com o meu pai, no carro. Mais tarde, já na adolescência, comecei a explorar este mundo do DJing. Para mim, o que os DJ faziam com os discos era malabarismo e queria conseguir fazer o mesmo. Já toco há uns 20 anos, mas foi há 13 que comecei o meu percurso profissional.
– Foi difícil decidir fazer desta paixão a sua profissão?
– Sim, foi das decisões mais difíceis que tomei até hoje. É uma área muito instável, não sei se daqui a um ano ainda estarei a fazer a mesma coisa. Os meus pais também se mostraram muito reticentes em relação a esta escolha. E hoje, que também sou pai, percebo perfeitamente o receio deles. Eles sempre quiseram que tivesse um curso superior para o caso de não ser bem sucedido.
– E tem esse “plano B”?
– Comecei a tirar o curso de Contabilidade, mas não terminei. Um dia, o meu pai perguntou-me se conhecia algum contabilista no desemprego. E, de facto, não conhecia. Foi isso que me levou a optar pelo curso. Contudo, quando decidi ser DJ profissional, apoiaram-me. Hoje têm a noção de que sou bom naquilo que faço, mas continuam a alertar-me. Por isso é que decidi fazer outras coisas dentro da área da música. Sou produtor, dedico-me ao trabalho em estúdio para poder um dia mais tarde deixar a parte da noite.

Nos anos 90, Paulo Bragança era um nome incontornável da música em Portugal e reconhecido além-fronteiras, em especial na sequência do álbum Amai, de 1994, editado pelo músico David Byrne, nos EUA. Conhecido por cantar descalço e pelo aspeto vanguardista e um pouco gótico, uma atitude rebelde que se destacava no meio tradicional do fado, vivia o sucesso que se pensa ser o sonho de qualquer músico. Mas cansou-se da indústria, dos lobbies, como diz, e quando esse desencanto se associou a uma fase de problemas pessoais e familiares decidiu sair do país. Durante 11 anos viveu no anonimato musical em Dublin e passou também uma temporada em Londres e outra na Roménia, onde conviveu três meses com uma comunidade cigana. Agora está de volta a Portugal e prepara-se para lançar um álbum. E sente que não foi esquecido.
– Porquê estes 11 anos de intervalo na música?
Paulo Bragança – Nunca pensei nem planeei estar tanto tempo afastado, e confesso que quando me apercebi até me assustei.
– E porque decidiu voltar?
– Estive seis anos sem vir a Portugal, de 2006 a 2012, e assim que cheguei fui ter com o [músico e produtor] Carlos Maria Trindade, que me propôs fazer um álbum sem grandes pressões e que temos vindo a gravar desde então. Em 2017, o Fernando Ribeiro, dos Moonspell, convidou-me para fazer um teledisco e de certa forma foi ele que me impulsionou a regressar à música com empenho. Percebi que o tempo é efémero e que o meu regresso seria agora ou nunca... A voz é um instrumento orgânico, não sei o que o amanhã me trará, até a nível físico, e o melhor era arriscar, até para mais tarde não haver a possibilidade de me arrepender por não o ter feito.
– Nestes 11 anos de ‘retiro’ começou por Londres e terminou em Dublin. Mas o objetivo inicial nunca foi mostrar a sua música. Foi em busca de inspiração para compor?
– Fui sem saber o que fazer ou até sem emprego. Andei “bizarrado” e a deambular, mas nunca disse a ninguém o que tinha feito ou não. Estive sempre remetido ao silêncio. Comecei por Londres e depois, como sempre tive um fascínio pelos romenos e pela sua música, decidi ir para a Roménia. Comecei a aproximar-me da comunidade cigana, mas eles não me queriam receber. Corriam-me literalmente à pedrada. Só no dia em que comecei a cantar um tema romeno que aprendi é que me começaram a deixar entrar devagarinho e acabei por viver um tempo com eles. Depois daquela experiência voltei a Londres, que era a minha base, e a Irlanda surge num dia em que estou a ler um artigo sobre aquele país e decido comprar o bilhete. Quando cheguei a Dublin, fiquei um pouco desapontado, mas a música fez-me ficar. É algo natural neles... e depois fiquei encantado com os escritores deles, a língua deles.

Leia esta entrevista na íntegra na edição 1182 da revista CARAS.
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