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Patrícia Motta Veiga: “Aprendi a ser-me fiel e a não ter medo dos julgamentos”

A solidariedade e a escrita têm dado visibilidade a Patrícia Motta Veiga, que Rita Ferro entrevistou em casa.

Rita Ferro
7 de outubro de 2017, 13:00

É a mulher de quem se fala: tornou a liberdade das mulheres uma das causas da sua vida e escreve verdades como punhos, que incomodam, escandalizam e a segregam em certos meios. Na verdade, está a defender os direitos até de quem a critica, mas a ignorância nesta matéria continua militante. Licenciada em Comunicação Empresarial pela Universidade de Amesterdão (UVA) – Faculty of Economics and Business, Patrícia Motta Veiga, 41 anos, é casada e mãe de quatro filhos, Afonso, de 21 anos, Matilde, de 13, António, de sete, e Caetano, de três, este último em comum com o marido, João Torres Pereira Neto, 62 anos, engenheiro alimentar e criador de alguns dos maiores êxitos da Nestlé, onde trabalhou 38 anos, com três filhos e um neto do anterior casamento. Uma síntese ainda assim redutora para as inúmeras actividades em que se reparte: casa, família, solidariedade, escrita. É sobrinha-neta de António Jorge da Motta Veiga – juiz-conselheiro e ministro de Salazar e pai de Cristina Motta Veiga, ex-mulher do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa – e filha do poeta David Mestre, pseudónimo de Luís Felipe Guimarães da Motta Veiga, acérrimo oponente do Estado Novo, de talento reconhecido internacionalmente, com quem viveu em Angola de 1991 a 1994, entre os 15 e os 18 anos, nos anos sangrentos das eleições e da guerra civil, e de quem herdou o dom e a linhagem da palavra escrita. É ainda colaboradora da Capazes, revista online de referência fundada por Rita Ferro Rodrigues, Iva Lima e Vera Sacramento, tribuna vigorosa da associação homónima consagrada à condição feminina, que observa e promove a ocupação igualitária das mulheres no espaço público. Em mãos e a publicar brevemente, um ensaio sobre feminismo em moldes inéditos, que dará seguramente que falar pelo estilo cru, directo e implacável que já conhece inúmeros seguidores. Recebeu-nos na sua casa de Benfica, com a família, cuja união e alegria inspirou toda a equipa da CARAS.
– Dir-se-ia que os poucos anos que viveu em África determinaram o seu presente. Trouxe de lá um fogo qualquer, não trouxe?
Patrícia Motta Veiga – A Luanda dos anos 90 é irre­petível, já que congregou muitos acontecimentos sociais, políticos e económicos num espaço temporal curto, e eu tive o privilégio, na altura, de assistir, de estar dentro de muitas coisas. Os nossos pais deixavam-nos observar as suas tertúlias, até nos estimulavam a participar. Víamos nascer muitos poemas, canções, projectos culturais e movimentos, ideias lindas e enormes nas longas noites em que se reuniam o meu pai, o João de Melo, o Agualusa, o Manel Ruy, o Viteix, o Ruy Duarte, o Pepetela, tantos… Não é comum ver homens e mulheres adultos, na casa dos 40 ou 50, a iniciar algo ou a ter sonhos e lutas comuns, porque muito já está feito e ali estava tudo por fazer. Um país destruído que era preciso criar, sonhar e, sem meios, oferecer o que faltava: grupos de teatro, movimentos políticos ou sociais, jornais e livros, reformas na cultura. Ver isto acontecer traz uma perspectiva diferente relativamente ao conformismo e ao possível. Muitas daquelas pessoas já tinham sido presas ou exiladas durante o colonialismo, graças às suas ideias ou à sua arte. Tinham uma atitude perante a adversidade necessariamente diferente, e eu gosto de acreditar que trouxe isso comigo.
Leia esta entrevista na íntegra na edição 1156 da revista CARAS.
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