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Helena e Gonçalo Marques puseram um pé no monte na Costa Alentejana

Gonçalo e Helena Marques viram numa ruína alentejana o local perfeito para, um dia mais tarde, começar uma vida perto da Natureza. E foi assim que, há três anos, nasceu o projeto turístico Pé no Monte.

André Barata
19 de setembro de 2017, 10:30

Conheceram-se em colónias de férias, pois ambos gostavam do contacto com a Natureza, e foi por isso que há 16 anos Gonçalo Marques, de 40 anos, e a mulher, Helena, de 41, decidiram investir numa ruína no Alentejo, transformando-a, há três anos, no Pé no Monte, um empreendimento de turismo rural em São Teotónio, próximo das praias da Costa Vicentina.
Depois de sete anos no estrangeiro, a trabalhar na Agência Reuters, Gonçalo planeou e concretizou, em conjunto com Helena, o sonho que hoje partilham com os três filhos, Tiago, de dez anos, Miguel, de nove, e Diogo, de sete.
– Como é que tudo isto aconteceu nas vossas vidas?
Gonçalo – Éramos uns miúdos, ainda namorávamos, mas enquanto os nossos amigos compravam casa em Lisboa, nós comprámos uma ruína no Alentejo. Éramos muito novos para avançar fosse com o que fosse, e cá ficou o monte... Depois, vivemos três anos e meio em Madrid e outros tantos em Genebra, mas sempre com o regresso na cabeça. A nossa ideia nunca foi ficar no estrangeiro, e quando decidimos voltar não fazia sentido ficarmos em Lisboa. E foi assim que nasceu o Pé no Monte.
– Sendo ambos apaixonados por turismo, por que razão não seguiram essa área de estudos?
– Nós estudámos muito turismo, mas sempre na perspetiva do utilizador. [Risos.] Fartamo-nos de viajar, todos os anos fazemos quatro ou cinco viagens. Umas a dois, outras a cinco. Nessas viagens aprendemos muito, vimos muito e, ao mesmo tempo, fomos absorvendo coisas para implementar aqui. O resto é bom senso e vontade de pôr as coisas a andar para a frente. Não há uma ciência.
– A ideia inicial era cons­t­ruírem uma casa para a família ou criarem um negócio?
Helena –
As duas coisas.
Gonçalo – Sempre fomos clientes de turismo rural e percebemos o quão felizes estavam os miúdos por lá à solta. E começámos a pensar que isto podia ser giro, criar a nossa família no campo!
– O que mudou desde que abriram ao turismo?
– Quando começou, tínhamos seis quartos e um apartamento. Fomos tendo feedback dos nossos clientes e decidimos ampliar para mais oito quartos. Essa parte nova só tem duas semanas!
– Têm mais clientes portugueses ou estrangeiros?
– A percentagem de clientes estrangeiros tem vindo a crescer. Estamos a dormir e, de repente, há um australiano a fazer uma reserva online, o que é espetacular. Os estrangeiros reservam com bastante antecedência. Chegamos a janeiro e já temos metade do verão preenchido só com eles. Já os portugueses marcam mais em cima da hora.
– E estes dois tipos de clientes procuram coisas diferentes?
– Os estrangeiros vêm para o turismo de Natureza, têm um perfil diferente, às vezes são até pessoas com alguma idade, mas muito ativas, vêm para fazer os trilhos pedestres da Rota Vicentina. No verão, temos muitas famílias, e de outubro a março recebemos portugueses aos fins de semana.
– Quais são os maiores desafios que têm diariamente com este projeto?
– Em menos de três anos ampliámos para o dobro. Sentimos necessidade de ganhar um pouco de escala, sem transformar o Pé no Monte num hotel impessoal. Acho que agora temos a dimensão perfeita. Este crescimento é a resposta clara aos pedidos que nos fazem. Como temos muita gente durante os meses quentes, a nível financeiro acaba por dar uma almofada importante para o resto do ano.
– Se estão abertos o ano inteiro, como arranjam tempo para as vossas viagens?
– Conhecemos muitos colegas que têm estes negócios e nos dizem que não tiram férias há não sei quantos anos. Para nós, isso seria impensável. É fácil que um projeto deste género se torne uma prisão, porque é muito intenso, mas temos alguns truques. Contamos com a ajuda dos avós, dos primos e dos amigos. Temos uma equipa muito boa, que consegue fazer tudo sem nós estarmos cá. Agora até criámos um grupo fechado no Facebook com o nome de Hoteleiro por um dia, onde desafiamos amigos a virem para aqui tomar conta do negócio enquanto vamos de férias. Eles vêm e por cada dia de trabalho ganham dias de férias no Pé no Monte.
– Quando vão de férias, conseguem desligar completamente?
Helena –
Eu consigo. As funcionárias que temos cá são muito competentes, temos uma excelente equipa e isso deixa-nos muito à vontade.
Gonçalo – É um desligar que depende do sítio para onde vamos. Se estivermos em Marrocos, no meio do deserto, num sítio onde não há rede, as coisas vão ter de se resolver. Antes de ir, deixamos aqui todos os backups, contactos de pessoas importantes, caso alguma coisa de excecional aconteça.
– Os vossos filhos sempre gostaram deste estilo de vida?
Helena – Neste momento não consigo imaginá-los a viver numa cidade.
Gonçalo – Eles chegam da escola, que é aqui ao lado, em São Teotónio, e a primeira coisa que fazem é agarrar nas bicicletas e dar uma volta pelo campo. Eles gostam mesmo disto! Temos consciência de que hoje em dia a maioria dos miúdos prefere atividades indoor, que envolvam tecnologia, mas os nossos fazem um balanço equilibrado.
– A mudança para aqui foi um choque muito grande?
– Nos três anos e meio que vivemos na Suíça, morámos numa localidade perto de Genebra, no campo, naqueles chalés típicos. Não houve espaço para choques, já estavam todos habituados à vida no campo, o que para nós também foi ótimo.
– Não sentem saudades da vida na cidade?
Helena – De vez em quando também temos necessidade de um shot de civilização. [Risos.] Vamos até ao Algarve, ao cinema, às compras e ao McDonald’s. [Risos.]
Gonçalo – Vamos muitas vezes a Lisboa, temos lá a nossa família e muitos amigos. Sempre que o fazemos, organizamos um jantar e passamos um bom bocado. De vez em quando vêm eles ter connosco, como irá acontecer no Natal e na passagem de ano.
– Comprar este terreno foi a melhor decisão que poderiam ter tomado?
– Sem dúvida. É preciso alguma dose de loucura para fazer o que fizemos, porque há custos elevados, financiamentos gigantes, e, no final das contas, tem de render. Ouvimos muitos nãos, mas conseguimos.
Produção: Filipa Gonçalves

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