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Úrsula Corona: “A vida é feita de desafios, não nos podemos vitimizar”

A atriz brasileira, de 34 anos, conta o que mudou na sua vida desde que lhe foi diagnosticado um tumor na hipófise.

Cláudia Alegria
4 de março de 2017, 12:00

Apaixonou-se por Portugal em 2011, quando cá esteve a promover a novela O Astro. Nessa altura acabou por ser convidada para integrar o elenco de Sol de Inverno, onde deu vida a Thaís, e a sua ligação ao nosso país foi-se tornando cada vez mais forte.
Filha de um jornalista e de uma bailarina, Úrsula Corona diz que sempre foi uma pessoa inquieta artisticamente, e a sua estreia no mundo das artes e da representação acabou por acontecer muito cedo, aos sete anos. Orgulhosa tanto do seu percurso profissional como pessoal, a atriz brasileira, de 34 anos, marcou encontro com a CARAS numa altura em que volta a surgir nos ecrãs portugueses, dando vida à fisioterapeuta Valéria, na novela Ouro Verde, da TVI. Divertida, sorridente e doce, Úrsula falou-nos dos projetos sociais em que está envolvida, das três crianças que estão sob a sua responsabilidade e que trata como filhos, e ainda de como a sua vida mudou há dois anos, quando lhe foi diagnosticado um tumor na hipófise, uma das glândulas mais importantes do corpo humano, situada na base do cérebro e responsável por regular processos fisiológicos e controlar a atividade de outras glândulas.
– Paralelamente ao seu trabalho de atriz, está envolvida numa série de projetos. É apresentadora, sócia de uma produtora, madrinha de associações de solidariedade social... Ser organizada é o seu segredo?
Úrsula Corona
– Não posso dizer que sempre fui muito organizada, aprendi a sê-lo. Profissionalmente, sempre fui muito responsável. Ajudou o facto de ter assinado o meu primeiro contrato aos oito anos.
– Foi difícil assumir compromissos e horários quando era apenas uma criança?
Não. Foi mais difícil convencer os meus pais que eu era feliz a trabalhar. Eles evitavam que isso acontecesse. Eu compreendo e agradeço essa preocupação, queriam que eu fosse criança porque a infância não volta, mas ali tive a certeza de que era aquilo que queria para o resto da minha vida. Fui parar à representação porque cantava num grupo musical infantil e a Globo procurava alguém para gravar um disco. Foi a música que me levou para a representação e nunca deixou de estar presente na minha vida.
– E de onde vem essa sensibilidade para a música e o prazer de cantar?
Eu passava temporadas numa fazenda de família, no Sul de Minas, onde o meu pai gostava de fazer serenatas, tocava violão e cantávamos juntos. Em criança ouvi não só músicas infantis mas também Ney Matogrosso, Beatles, Vinicius de Moraes, Tom Jobim... Isto estimula não só a cabeça mas a formação em sentimentos. A música leva-nos para algum lugar, mexe com as emoções. Toco violoncelo como hobby e é quase como o meu templo. Quando chego a casa, consigo pôr as emoções no lugar certo com a música, seja a ouvir, a tocar ou a cantar. Faço-o todos os dias. É como que um reset que faço.
– Parece ser muito atenta às coisas que a rodeiam. Foi esse estado de espírito que a ajudou a compreender a mensagem da medium russa com quem se cruzou na Amazónia e que lhe falou do tumor no cérebro?
Estive um período sem menstruação, estava a fazer exames e tinha acabado de descobrir o que tinha. Fui a nove médicos e já estava a fazer um tratamento com medicamentos. Diagnosticaram-me um adenoma na hipófise. Cada médico disse uma coisa diferente, o que não projeta credibilidade nem nos dá confiança para acreditar que tudo vai dar certo. Entretanto, passei um mês na Amazónia a gravar uma série para o Canal Brasil e conheci a Alessandra, uma medium russa, que quis mostrar-me como funciona a cura das mãos. Quando ela chegou à zona da cabeça, viu um ‘entupimento’ e disse que eu tinha um enorme problema ali. Aquilo assustou-me um pouco, mas eu já sabia o que era. E o assunto acabou por se tornar público quando, numa entrevista em direto no Brasil, abordaram o assunto e eu não fugi dele. O que gosto de frisar é que a vida é feita de desafios, não nos podemos vitimizar. Ninguém é filho único com os problemas, com as dificuldades, com a doença. Se olhar para o lado, vejo que o meu problema não é nada. E não é. Eu tive um caroço na hipófise. Tive sorte, fui muito abençoada, estava no momento certo com a pessoa certa. Na altura estava muito longe da espiritualidade e da fé, muito descrente, a perguntar sempre porquê quando tinha é que perguntar: para quê? E aí comecei a perceber que tinha que me fortalecer, estar mais atenta, aprender a dizer não, a ter mais prazer nas minhas escolhas e pôr-me sempre em primeiro lugar. Isto não é ser egoísta. É entender que a vida é uma só para todos, e que tudo é passageiro. E perguntei a mim própria: estou feliz? Estou no trabalho certo? Tenho os amigos que gosto? Tenho o casamento que quero?
– Questionou tudo?
Tudo. Temos que procurar essa realização aliada à simplicidade. O ser humano está a querer muitas coisas que nem sabe porque quer. Temos que parar de querer coisas. Conheci aqui a Sofia Ribeiro, que passou por algo semelhante, e ela diz que passar por incertezas lhe deu uma força, uma vida, uma garra, e isso ninguém nos tira.
– Está ligada a causas sociais. De onde vem essa preocupação para com os outros?
O meu pai foi adotado e desde pequena que aprendi a dividir as coisas, a dar a roupa e brinquedos que já não precisava. No Brasil há famílias inteiras a viver na rua... O princípio básico é tomar banho e comer. Muita gente no Brasil não o tem. Por isso, existe a Estrela Sports, uma associação que cuida de crianças com cancro, onde estou há mais de 13 anos. Começámos com 33 crianças e hoje somos 357.
– É também madrinha de outras três crianças.
Conheci-as na comunidade, todos com uma situação familiar muito difícil. Sou madrinha delas no sentido de me responsabilizar pela educação, saúde e alimentação. Quando assumi este compromisso, estava num momento profissional maravilhoso, mas não tinha ideia do que era ter essa responsabilidade. Tudo no Brasil é muito caro. Por exemplo, a escola para uma criança de 13 anos pode custar quase mil euros por mês. Na altura, resolvi fazer uma exposição na Holanda e fundar a minha companhia de teatro na Alemanha. Quando estou a trabalhar, tenho um salário completo, quando não gravo, recebo apenas 40% do salário. Resumindo, em seis meses, por três crianças, fiquei com uma dívida à escola de mais de 20 mil euros e assustei-me. Mas um dia recebo um telefonema do diretor da escola a dizer que a Carol [uma das afilhadas] o tinha questionado acerca da responsabilidade social da escola. Eram quase 40 alunos por sala, a mensalidade é X, as suas notas eram Y e propôs-lhe uma bolsa, comprometendo-se a corresponder às expectativas da escola, caso contrário, perderia a bolsa. Isto tudo sem eu saber, e ela tinha apenas 14 anos. O pai da Carol está preso, era traficante de droga, a mãe é ex-drogada e ex-prostituta, e o sonho dela é ser advogada e juíza para poder ajudar e orientar as pessoas que não querem voltar a errar. Quando vejo um ser humano destes, tudo vale a pena. São seres especiais.
– Mas é, de facto, uma responsabilidade muito grande...
Pôr um filho no mundo é sempre uma responsabilidade muito grande. Quando tentamos contribuir para um filho que não pusemos no mundo mas que tem os vícios da sobrevivência num país subdesenvolvido, é um desafio. O pior já passou, já me reorganizei, mas durante este período vivi emoções que me deram maturidade para fazer personagens que talvez antes não estivesse preparada para fazer. Tudo isto foi uma aprendizagem. Temos que ver a vida do lado positivo, caso contrários estamos ‘ferrados’.
AGRADECIMENTOS - Produção: Rita Vilhena; Maquilhagem e cabelos: Carla Pinho com produtos Guerlain.

'Making of' da sessão fotográfica:

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