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Marta d’Orey assegura: “Não procuro que me vejam como uma supermulher”

A estudante, de 19 anos, sofre de insuficiência respiratória muito grave. Contudo, não se deixa derrotar pela doença, enfrentando os obstáculos com um sorriso.

Marta Mesquita
26 de fevereiro de 2017, 12:00

No corredor já ecoam as palavras e as gargalhadas que Marta d’Orey, de 19 anos, troca com a sua amiga Isabel Saldanha. À nossa frente aparece uma rapariga loira, com um ar cool, que nos oferece de imediato o seu melhor sorriso. Descontraída, feliz e sem sinais de preocupação: é assim que se apresenta a estudante de Marketing e Publicidade. Nada à primeira, ou à segunda vista, denuncia o seu estado de saúde, muito grave e preocupante. Em março de 2016, durante um ano sabático, contraiu gripe A, em Londres. O que poderia ser um episódio sem sequelas acabou por degenerar numa insuficiência respiratória muito grave, que a deixou com menos de 15 por cento da função respiratória. Entre os períodos que passa internada ou a fazer tratamentos, Marta continua a ser o “furacão” que sempre foi, fazendo “uma vida o mais normal possível”, como explica.
Personificação do carpe diem, a estudante trata por ‘tu’ a morte, uma presença pouco ou nada assustadora que a tem conduzido a uma vida ainda mais cheia. Também chora e fica triste, mas não são esses momentos que deixam rasto no seu caminho. Deixemo-nos de apresentações e passemos a palavra à protagonista desta história.
– Muitos descrevem-na como a “mulher furacão”. Revê-se nesta definição?
Marta d’Orey – [Risos] Tem graça, porque desde sempre que me chamam furacão. Estou sempre dentro de um turbilhão de emoções e nunca paro quieta. Tenho muita energia acumulada. E quando mando isso cá para fora, levanto ventos e marés.
– A sua doença limitou, de alguma maneira, essa forma tão intensa de viver?
– Quando um obstáculo se atravessa na nossa vida, tentamos que nos tire apenas aquilo que é estritamente necessário. No fundo, tento que a doença não me limite mais do que aquilo que tem de me limitar. Mas tudo isto tem de ser feito com bom senso e ponderação.
– Já admitiu que a doença mudou o seu olhar sobre a vida. O que é que mudou concretamente?
– A doença muda sempre o olhar, não só o meu, como o das pessoas que estão à minha volta. Há sempre muito pudor em falar-se destes temas. Não é uma situação comum e, por isso, acaba por se tornar tabu. A doença, além de me ter apresentado a vida, também me apresentou a morte sem qualquer cerimónia. Portanto, ao ter uma noção mais consciente da minha finitude, acabo por viver mais. Quando concebemos o fim, começamos o nosso início. Para mim, a morte deixou de ser um tabu e passou a ser uma janela que deixo aberta para entrar mais luz, o que me permite viver com mais intensidade. É uma forma de ser mais feliz e de realizar os meus objetivos.
– Mas não deve ser fácil aos 19 anos ser confrontada com a morte e com uma esperança média de vida muito reduzida...
Costumo dizer que não sou um número, sou um nome. Qualquer médico que olhe para o meu processo, dirá que estou na cama, sem me mexer. E quem me conhece sabe que até há bem pouco tempo fiz surf e fui às aulas. Continuo a acompanhar o ritmo de vida à minha volta. O mundo não para e eu também não o posso fazer. Claro que reconheço as minhas limitações e respeito-as. Cada caso é um caso e não nos podemos prender às estatísticas que nos são apresentadas. Em determinados momentos, também sinto frustração, fúria e raiva. Estar enfiada entre quatro paredes, num hospital, durante um mês e meio, acaba por ter impacto na nossa energia!
– E como é que lida com esses momentos menos bons? Exterioriza essas emoções ou guarda-as só para si?
– Exteriorizo essas emoções, sim. Chorar faz parte. Tal como as alegrias, as tristezas também têm de ser vividas, porque fazem parte de nós e acabam por nos tornar maiores. Tento viver tudo com muita verdade e clareza. Também não posso dizer que não tenho medo da morte, porque tenho! Mas é isso que me alerta e me faz levantar do sofá e viver. Já estive por um fio várias vezes e isso não é propriamente o dia-a-dia normal de uma miúda de 19 anos. Mas tenho a sorte de ter este ‘abre olhos’ constante que me faz acordar. Sou constantemente recordada disso, da melhor ou da pior maneira. Mas tento ter uma vida o mais normal possível.
– No meio deste processo de aceitação nunca se vitimizou? Nunca perguntou ‘porquê eu?’
– Desde que tudo começou, nunca me perguntei: “Porquê a mim?”. Perguntava antes: “Porque não a mim?”. A queixa não tem valor nenhum se não vier acompanhada de uma solução. Todos podemos ter a perceção das nossas dores e sofrimentos, mas temos de fazer frente à vida. A comiseração não nos leva a lado nenhum. Temos de dividir um problema grande em probleminhas.
– E como encara o seu futuro? A esperança de se curar alimenta-lhe os sonhos? Ou, dadas as suas circunstâncias, prefere viver um dia de cada vez?
– Sou uma mulher de fé e acredito que será como Deus quiser. Se tiver de me ir embora amanhã, irei, até porque acredito na vida eterna. Mas, enquanto cá estiver, vou tentar ser testemunho, dando-me aos outros, porque é para isso que somos feitos. A minha esperança reside nesta entrega desmedida que me faz sentir tranquila dentro da minha condição. O amanhã virá e cá estarei.
– Mas continua a ter sonhos?
– Neste momento, a minha vida é um grande ‘logo se vê.’ Não faço muitos planos, porque não sei o que vai ser o amanhã. Só sei o que é o agora.
– E hoje, com esta lucidez, é uma mulher mais feliz?
– Sim. Sou muito mais grata, porque tenho uma noção muito maior do dom que é a vida e de todas as maravilhas que isso traz. Também sou uma pessoa muito mais concretizada, porque esta urgência de viver impulsiona-me para perseguir aquilo que quero fazer, conhecer e viver. Sou uma pessoa que faz escolhas. Escolho acordar irritantemente bem disposta todos os dias. Escolho abrir os olhos e encarar a realidade, escolho agarrar nas minhas armas,
pôr a mochila às costas e lutar com o que
tenho para fazer disto um sítio melhor.
– Há pouco falou desta sua entrega aos outros e, desde que a sua história chegou aos meios de comunicação, passou a ser encarada como uma referência. Lida bem com a responsabilidade de ser vista como um exemplo?
– Aconteceu tudo muito depressa e ganhou uma dimensão que não esperava. Quando isto começou a acontecer foi um bocadinho assustador, porque passei a sentir o peso da responsabilidade de levar uma mensagem aos outros. Não me estou a autopromover nem procuro que me vejam como uma supermulher. Não quero ser a heroína de ninguém, nem gosto de protagonismo, mas quero transmitir esta mensagem, que se aplica a todos. Acho que este é um lema que podemos ter no nosso dia-a-dia e que se resume ao viver o agora sem uma certeza do amanhã. E o impacto que isto tem tido, além de grande, tem sido muito bom. Desde que isto seja para um bem maior, faz sentido.

'Making of' da sessão fotográfica:

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