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Catarina Furtado: “Espero que os meus filhos nunca tenham sentido que lhes faltei”

Um programa de televisão e uma peça marcam o início do ano para a atriz e apresentadora.

Vanessa Bento
12 de fevereiro de 2017, 10:00

Na Terra dos Sonhos, canta Jorge Palma, “se queres ver o mundo inteiro à tua altura, tens de olhar p’ra fora sem esquecer que dentro é que é o teu lugar”. É neste equilíbrio que Catarina Furtado vive os seus dias. Com uma vontade imensa de fazer a diferença, a apresentadora e atriz usa a sua voz para dar voz a quem não a tem. E é tremendamente feliz assim. “Gosto tanto da minha vida. Não mudava nada, a não ser mais tempo por dia e mais saúde para a minha mãe. Gosto mesmo de andar cá, de partilhar, de ajudar, de conhecer pessoas. Não quero ter mais, quero ser mais”, sublinha, com a força de quem sabe que pode mudar o mundo. Nesta missão, que abrange todas as dimensões da sua vida, assumem principal destaque o seu papel como embaixadora de Boa Vontade do Fundo das Nações Unidas para a População, e o programa Príncipes do Nada, que já vai na quarta edição. O teatro, outra paixão, surge como evasão das realidades que enfrenta dia­riamente. Por isso, é com um sorriso rasgado que fala da peça Os Dias Realistas, em cena no Casino Lisboa, onde contracena com o marido, João Reis: “Já tinha muitas saudades do palco e é muito fácil trabalhar com o João. Ele é muito construtivo.” Casados há 11 anos, têm dois filhos em comum, Maria Beatriz, de dez anos, e João Maria, de nove. João tem mais dois filhos, Maria, de 20 anos, e Francisco, de 15. “A Maria partiu há dias para a Grécia, onde vai passar um mês a fazer voluntariado para a ERCI [organização que apoia refugiados nos campos], conta Catarina, assumindo o orgulho.
– Começa o ano com um programa e uma peça?
Catarina Furtado – É incrível começar o ano com duas das minhas verdadeiras paixões. Príncipes do Nada é o programa da minha vida. Ainda há um mundo que tem que ser mostrado. E nós optamos por mostrar a ferida, sem carregar nela, e evidencian­do o que está a ser feito para a sarar. Mostrar apenas a ferida aberta é usar a dor dos outros. E podíamos ser nós a estar naquele lugar. Ninguém nasce pobre, não faz parte do nosso ADN, está-se pobre. Em Timor estive numa associação que acolhe meninas que são violadas, sendo que a maior parte delas ficam grávidas, e foi das coisas mais emocionantes que fiz na vida. Entrevistei meninas com a idade da minha filha com um bebé ao colo. Isto é muito forte. Foi muito doloroso, mas confio plenamente que depois vai ter repercussões. A reportagem, quando é bem enquadrada, é uma ferramenta de poder. E ser motor disso é fortíssimo.
– Como é que se lida com esses sentimentos e experiências?
– É muito duro. Quando chegamos ao terreno, há uma intensidade tão grande que tenho que saber gerir os momentos mais dolorosos de forma eficaz. Mas vou-me abaixo muitas vezes. É impossível não ir. Há coisas fortíssimas que me marcam muito. Mas cada vez que me deparo com isso, sinto força. Porque se entendermos que cada pessoa conta, só podemos atuar. Não tenho uma perspetiva cor-de-rosa disto, tenho é uma perspetiva esperançosa. E a verdade é que há muitas pessoas que mudaram de vida para melhor devido a estes projetos que estamos a relatar. É esse o meu combustível. Os direitos destas pessoas são-lhes negados diariamente e eu funciono como uma espécie de altifalante.
– É inevitável não mudar com tudo o que tem visto?
– Sou diferente na medida em que, quando se sabe, tem-se outra postura, o olhar muda, mas isso só me dá mais força. Esta passagem na Terra é efémera. O mundo da televisão tem-me dado muita felicidade. Olho para trás e vejo que já passaram 27 anos e correu tudo muito bem. Agradecer e partilhar são os meus verbos preferidos. Mas tudo isto só faz sentido porque tenho este outro lado. No outro dia o meu filho perguntou-me porque é que eu fazia os Príncipes do Nada. Disse-lhe que não tinha alternativa, não por ser uma obrigação, mas por ser uma missão. Não posso não mostrar aos meus filhos o que se passa. Felizmente eles já se preocupam com alguns destes assuntos. E fazem muitas perguntas.
– Já teve vontade de adotar uma das muitas crianças com quem se cruza nestas viagens?
– Claro. É inevitável. Mas há todo um enquadramento que é preciso analisar. E o processo de adoção está cada vez mais complexo. Mas claro que já falei e pensei imensas vezes sobre isso. E não é só lá fora. Cá em Portugal também já me apeteceu várias vezes adotar uma criança. Mas cada vez a idade é mais limitativa e hoje já não poderia adotar um bebé, teria que ter uma disponibilidade diferente que não tenho. Já tenho quatro filhos, dois meus e dois do coração.
Leia esta entrevista na íntegra na edição 1122 da revista CARAS.
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Vídeo de 'making of' da sessão fotográfica que acompanha a entrevista:

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