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Sofia Nicholson: “O meu luto não é para ser exposto”

Oito meses depois da morte do pai, o ator, argumentista e dramaturgo Francisco Nicholson, a atriz, de 47 anos, sente-se recomposta depois de uma ‘travessia do deserto’. E está de regresso ao pequeno ecrã, com a participação na telenovela da TVI “Ouro Verde”.

Vanessa Bento
4 de fevereiro de 2017, 16:00

Durante dois anos, Sofia Nicholson decidiu manter-se afastada da televisão para poder acompanhar o pai, Francisco Nicholson, cuja saú­de estava na altura debilitada. “Enquanto o meu pai estava doente, sempre fiz questão de ir todos os dias dar-lhe o jantar. E se estivesse a trabalhar em televisão isso não seria possível. Por isso, esses dois anos sabáticos permitiram-me cuidar dele e estar com ele.” E isso, admite, ajudou-a bastante a lidar com a morte do seu herói. Um super-herói sem capa, que sempre lhe pareceu ter poderes especiais. Atualmente, Sofia trabalha na telenovela que marca o seu regresso ao pequeno ecrã – Ouro Verde – e não podia estar mais feliz com este papel. “Este convite foi um belo presente”, reconhece.
– Passaram oito meses desde a morte do seu pai. Que Sofia é hoje?
Sofia Nicholson – Sou a mesma. As pessoas acham-me apaziguada e é verdade. Estou apaziguada e tranquila. Há quem estranhe uma certa leveza... O meu pai sempre defendeu que na felicidade e na dor não temos que expor tudo. Da mesma maneira que a doença dele não foi exposta. Aprendi com ele a ser discreta e a guardar as coisas para mim. Não me exponho em termos pessoais e o meu luto, a minha dor, a minha saudade também não são para serem expostos. A saudade é, curiosamente, pior agora do que na altura...
– Já conseguiu fazer o luto?
– Não. É um processo e nem sei se alguma vez o farei. Como sou muito espiritual, se quero falar com o meu pai, posso fazê-lo todos os dias. E se quero estar com ele, também. Para já, basta-me ir para a praia e banhar-me no oceano, já que um dos últimos desejos dele foi que as cinzas fossem deitadas ao mar. Claro que falta a fisicalidade... Mas não me sinto infeliz. Além da morte dele ser expectável, estava na altura. Nos últimos anos, o meu pai passava mais tempo no hospital do que em casa. Na última conversa que tivemos, ele próprio me disse: “Sofia, isto já não é vida!” E eu percebi. Por mais que nos doa deixar ir e aceitar que está na altura, não podemos ser egoístas. E há uma altura em que temos de nos despedir. Se calhar o facto de me ter preparado com ele em vida ajuda-me agora. O meu pai sentia-se profundamente infeliz pelo trabalho que estava a dar, por saber que nós estávamos sempre em sobressalto com ele, por ele próprio já não ter as mesmas capacidades, apesar da sua lucidez. Quanto a mim, a despedida começou em vida. Dissemos e fizemos tudo. Portanto, a partida foi mais fácil de aceitar. Mas nem por isso foi menos dolorosa.
– Nas vossas conversas falavam sobre a morte?
– Não, nunca. O meu pai só dizia que a morte era tramada porque estava constantemente a vir seduzi-lo. Mas que ele não se deixava seduzir porque a única paixão dele era a Magda [Cardoso, a actriz com quem Francisco Nicholson esteve casado durante quase 40 anos]. Ele era um guerreiro e amava profundamente a vida.
– E como é que se gere esta perda tão grande? Vocês tinham uma relação quase simbiótica...
– [Emociona-se] A nossa ligação era mesmo assim. E éramos muito emotivos, muito parecidos... Era a filhinha do papá, digo-o sem vergonha. Estava tudo resolvido entre nós, disse-lhe constantemente que o amava.
– E consegue aceitar a perda?
– Aceito, sim, e houve uma altura em que achei que era mesmo melhor que assim fosse, porque viver no sofrimento não é vida. A forma apaziguada como vivo o luto tem que ver com esta aceitação. E sei que um dia vou estar novamente com o meu pai. Portanto, não há revolta.
– Hoje está muito mais ligada ao seu eu e à espiritualidade. Houve aqui uma mudança...
– Eu era uma pessoa muito insatisfeita, em constante busca e conflito comigo mesma. E a busca constante de felicidade só traz infelicidade. Quando aprendemos que a felicidade e a tranquilidade começam cá dentro, tudo muda. A aceitação do que somos é o primeiro passo. Não estamos aqui para sermos perfeitos, mas para sermos felizes. No dia em que comecei a aceitar que tinha mau feitio, que era caprichosa, mimada e por aí fora, tudo se tornou mais leve. Quando encontras paz interior, as coisas vêm ao teu encontro. Durante anos vivi com medo da rejeição, sempre à espera de validação. Isso mudou. Gosto de mim, o que não acontecia há uns anos. Faço terapia... Tudo isto foi um processo de apaziguamento.
Quando é que se deu esta mudança interior?
– Começou aos 40. Muito por causa de um relacionamento que falhou, o que me provocou uma depressão profunda e, dois anos depois, por causa do meu acidente de automóvel, que foi um alerta. Aí pensei: “Vais continuar a ver os comboios a passar ou vais viver?” Houve uma altura em que deixei de viver. Estava com medo, não estava no comboio da vida. E o acidente foi o ponto de viragem. Olho para trás e estou muito contente com este percurso. Destruí a estrutura, porque estava torta, e fui reconstruindo tudo tijolo a tijolo. De repente, fiz as pazes com a vida. Doeu muito, mas foi necessário. Hoje gosto de viver, gosto da vida e acho que tudo isto foi bom.
Produção: Filomena Cardinali | Maquilhagem e cabelos: Raquel Peres

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