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Filomena Cautela assegura: “Nunca me contentei com as coisas fáceis”

“Esta minha atitude tem muito que ver com os meus pais e a liberdade que sempre me deram em casa.”

Marta Mesquita
4 de fevereiro de 2017, 12:00

Basta uma simples conversa com Filomena Cautela, de 32 anos, para se perceber que é na vida o que aparenta ser na televisão: uma mulher espontânea, divertida e sem ‘papas na língua’. Perspicaz e com um sentido de humor acutilante, a apresentadora e atriz aprendeu a não se levar demasiado a sério, sendo constantes as piadas que faz sobre si própria, mesmo no meio de uma conversa em que o gravador está ligado. Contudo, quando se trata de trabalho, a cara da nova temporada do programa 5 Para a Meia-Noite, da RTP1, não deixa nada ao acaso, preparando-se o melhor que sabe e pode para corresponder às expectativas de quem nela acredita. Descrita como uma mulher rebelde e irreverente, Filomena deixa cair por terra todos esses rótulos, assumindo-se apenas como alguém que diz o que pensa e que tem como missão partilhar com o público assuntos que considera pertinentes.
Numa conversa sem filtros, como seria de esperar, a apresentadora e atriz revelou estar de bem com a vida, sentindo-se realizada com as escolhas que tem feito.
– Ter sido escolhida para ser a cara deste novo 5 Para a Meia-Noite é uma grande responsabilidade...
Filomena Cautela –
É, até porque foi um risco que a RTP correu e que é muito atípico na sociedade em que vivemos. Não me lembro de nenhum talk-show em Portugal apresentado por uma mulher. Por isso, tento sempre corresponder às expectativas que têm em relação a mim. Além disso, o 5 Para a Meia-Noite é um programa que já tem vários anos e por onde já passaram muitos colegas que admiro profundamente e de quem gosto. Não os quero dececionar e procuro manter o seu legado vivo. Faço o meu trabalho da forma mais competente possível.
– Hoje é uma apresentadora muito diferente daquela que começou a conduzir este programa há sete anos?
Sim, sou. Acho mesmo que este programa é um dos mais difíceis de se fazer na televisão portuguesa. Há um trabalho criativo extenuante para conquistar um público a quem não é fácil agradar. Gostava de manter a rebeldia e a frescura que tinha no início...
– Mas não sente vontade de fazer outros formatos, talvez mais mainstream? Ou acha que já só se encaixa na definição de apresentadora mais alternativa?
Gosto muito do programa que estou a fazer, porque é sempre desafiante, mas também tenho vontade de fazer outros formatos. Não sei bem o que quer dizer mais mainstream, até porque já fiz coisas muito diferentes. Acho mesmo que os lugares de apresentadora e de atriz se encontram em muitos pontos e a minha vontade de experimentar novos programas tem que ver com isso. E o facto de ter o carimbo de apresentadora mais alternativa ainda torna tudo mais desafiante.
– E revê-se nessa definição de ‘apresentadora mais alternativa’?
Não sou uma pessoa muito formatada. Não me lembro de nenhum programa em que me tenha sentado, lido o teleponto e já está. Não sou assim. Gosto de dar um cunho pessoal ao que faço. Tenho a preocupação de partilhar com o público o que considero realmente importante e pertinente. Acho que as pessoas me veem como alguém rebelde e irreverente, porque não estão muito habituadas a ver mulheres com opinião na televisão, que dizem coisas além do teleponto. Aqui, ainda não temos muito o hábito de as pessoas dizerem aquilo que sentem e pensam de forma livre. E qualquer coisa que se aproxime disso já é um ato de rebeldia.
– Mas numa entrevista que nos deu, em 2012, disse-nos que estava cada vez mais rebelde…
Neste momento, tenho uma visão do mundo muito pessimista. Acho que estamos numa altura difícil. As redes sociais vieram democratizar a liberdade de expressão e cada pessoa tem o seu palco. E se as figuras públicas, e em Portugal somos poucas, se preocuparem apenas com narcisismos e superficialidades, se isso for a única coisa que partilham com o público, quem é que, então, podem ser as pessoas realmente influentes? Que referências é que o público vai ter?
– Quer ser uma dessas referências?
Não quero ser uma referência de nada nem de ninguém, mas gosto de pensar que quem me ouve pode mudar o seu ponto de vista em determinada questão ou, pelo menos, duvidar da sua certeza. Quando uma pessoa tem uma dúvida, quer descobrir mais. Quando tem certezas, não faz nada. E é esta atitude que falta ao nosso país e ao mundo. Para mim, essa condição de espicaçar a curiosidade é uma inevitabilidade do meu trabalho. Quando as pessoas nos ouvem, devemos procurar dizer algumas coisas fora do comum e que não sejam trivialidades.
– Paga um preço demasiado alto por ser uma pessoa livre?
Acho que nunca somos realmente livres em relação àquilo que dizemos e fazemos. O preço que pago por isso é dizerem que sou irreverente e rebelde, mas nunca me senti discriminada por isso. Nunca tive problemas desse género.
– Por vezes tem sido associada ao feminismo, por ser uma mulher que se destacou entre os homens. Nesse campo, gosta de ser vista como um exemplo?
Não represento feminismo nenhum, até porque esta noção de feminismo que está na moda faz-me um bocadinho de espécie. O feminismo é uma palavra com uma carga histórica muito grande e que está associada a um movimento que tem de ser muito bem estudado. Sou, sim, uma pessoa que se interessa pelos assuntos relacionados com a igualdade de género. Se tivesse ficado um homem a fazer este programa, ninguém lhe iria perguntar se era um representante dos homens. Mas como é uma mulher, há logo essa associação.
– E pensar fora da caixa foi algo estimulado desde a sua infância ou construiu por si mesma a mulher que é hoje?
Somos sempre o resultado da nossa educação. Esta minha atitude tem muito que ver com os meus pais e a liberdade que sempre me deram em casa. Nunca me contentei com as coisas fáceis.
– Tenta fugir da rotina e dos lugares comuns? Ou sabe ser feliz com as pequenas coisas do dia-a-dia?
Sim, sou feliz com as pequenas coisas do dia-a-dia. Acho bem que as pessoas partilhem nas redes sociais as coisas magníficas que fazem, como aquela viagem a um sítio maravilhoso, por exemplo. Mas, no meu caso, se num dia de chuva me derem um sofá, um livro e o meu cão, fico muito feliz! E com a miséria que há, como tudo o que está a acontecer na Síria, em que as pessoas saem das suas casas com os filhos numa mão e nada na outra, ainda mais valorizo a simplicidade do que tenho. A simplicidade é completamente subestimada. Todos nos devemos questionar sobre o que é realmente importante para nós. Se todas as pessoas respondessem com alguma honestidade a esta pergunta, o mundo seria diferente.
– Ao longo de todos estes anos, tem reservado sempre a sua vida pessoal. Incomoda-a falar sobre isso?
Muitas figuras públicas abrem essa porta e depois não podem ficar chocadas quando há uma capa menos feliz sobre elas. Sempre quis manter essa porta fechada. O que me interessa partilhar é o que faço profissionalmente. Se tivermos, como artistas, muitas coisas interessantes para partilhar, talvez não fiquem tão curiosos com a nossa vida pessoal.
– Acabou de fazer 32 anos. A entrada nos 30 mudou-a? Ou acha que essa ideia de que é uma fase de grande mudança é só um cliché?
Dos 25 para os 30 há mesmo uma mudança muito grande. Não é um cliché! Sinto que a história da minha vida começa a pesar e dei por mim a pensar no caminho que quero realmente fazer. Percebi que já não posso adiar sonhos e concretizações, porque o tempo passa a correr.

Veja o 'making of' da produção fotográfica:

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