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Maria Henrique, Fernanda Serrano e Ana Brito e Cunha: Uma amizade a toda a prova

Maria Henrique, Fernanda Serrano e Ana Brito e Cunha voltam com a peça ‘40 e Então?’. Desta vez, estará em cena no Teatro Villaret, em fevereiro, num regresso que promete ser memorável.

Vanessa Bento
30 de janeiro de 2017, 12:00

Há cumplicidades mágicas, que não se explicam, que formam laços inquebráveis e se estendem pela vida. O laço que une Maria Henrique, Fernanda Serrano e Ana Brito e Cunha é feito dessa mística. E é bonito de ser testemunhado. “Podemos ficar meses sem nos vermos, mas quando nos vemos, parece que estivemos juntas há dez minutos, sabemos tudo daquela pessoa pelos olhos, pela forma de estar e falamos como se fossemos as pessoas mais próximas”, admitiu Maria Henrique, com uma doçura vibrante que lhe embala as palavras. Embora assumam ser muito diferentes umas das outras, essas diferenças só as uniram ainda mais, porque perceberam que se completam nesta tríade especial, que se une na vida e no palco. “Somos uma família. Não pensamos da mesma maneira, mas temos os mesmos valores, a mesma formação humana. E há um respeito enorme pelo ser de cada uma. É libertador ter uma amizade assim. Aqui nunca ninguém desistiu de ninguém”, sublinha Ana Brito e Cunha, que não conseguiu conter as lágrimas durante esta entrevista. Grávida de cinco meses, poderíamos culpar as hormonas, mas a verdade é que vai muito para além disso, já que a atriz, que vai ser mãe de um menino, prepara-se para concretizar o sonho de subir ao palco em estado de graça. E ainda por cima na companhia de duas grandes amigas e com uma peça que lhes diz tanto. 40 e Então? regressa em fevereiro, ao Teatro Villaret, e Fernanda, Maria e Ana não podiam estar mais felizes por voltarem a pisar o palco juntas.
– Há quem diga que à medida que os anos passam nos vamos tornando na pessoa que sempre deveríamos ter sido. Isto faz-vos sentido?
Ana Brito e Cunha – Faz-me sentido, mas o que acho realmente é que, à medida que os anos passam, vamo-nos tornando aquilo que queremos vir a ser.
– Um eu mais aperfeiçoado?
Ana – Um eu diferente. No meu caso, diferente do que era aos 18 anos, um eu que, com 18 anos, gostaria de admirar numa mulher. Modéstia à parte, evidentemente, porque ainda tenho muito para crescer, evoluir e transformar. Mas cada vez gosto mais de mim.
Maria Henrique – Já temos uma idade em que temos a capacidade de dizer que não vamos por ali, que não nos apetece. E isso, mais do que para os outros, faz-nos a nós sentir muito bem. É uma paz. O amadurecimento traz-nos esta capacidade de escolha, de dizer não.
Fernanda Serrano – No meu caso, agora já não estou preocupada com aquilo que os outros pensam de mim, mas sim com aquilo que na realidade sempre fui e sou. Antes preocupava-me com o politicamente correto, com as expectativas dos outros e chega uma altura em que temos que ser verdadeiramente corretas para connosco e o mais fiel possível àquilo que são as nossas expectativas e aquilo que somos. E, sobretudo, quero agradar a mim própria. Já cheguei a esse estado de graça. O que prevalece é o nosso eu.
Maria – Começamos a ter noção de que podemos gostar mais de nós e dar-nos mais atenção.
– É esta consciencialização que faz a diferença?
Fernanda – Para mim, é.
Ana – E é, também, uma forma de nos respeitarmos e de nos darmos ao respeito perante nós próprias.
Fernanda – Aos 20 achas que tens a vida inteira pela frente, aos 30 não pensas nisso, mas aos 40 já tens noção da tua finitude e não queres desperdiçar o teu tempo.
– Ainda assim, a idade pesa ou não?
Fernanda – Pesa. Ainda me sinto muito enérgica e pergunto-me como consigo fazer tanta coisa... Ao sermos mães, duplicamos a quantidade de coisas que fazemos no mesmo período de tempo. Sou uma atriz que trabalha muito, uma mulher que gere uma casa e uma família, uma mãe que tem que estar presente em tantas vidas e não nos podemos esquecer das nossas. E não posso falhar em nenhuma dessas vertentes. E ainda temos que estar sempre impecáveis, com a roupa passada a ferro, a depilação feita, a pestana no sítio, filhos felizes e penteados... Não se pode falhar em nada porque somos um alvo fácil, para o bem e para o mal. Mas, apesar de tudo, a frescura é diferente...
Ana – Mas é mais interessante. Cada vez me apaixona mais o ser humano mais maduro e mais consciente de si próprio, que se enfrenta a si próprio. Faz-me confusão a negação da evolução da vida. Não estamos a ficar velhas, estamos vivas! É uma grande alegria, venham mais rugas.
Maria – Só comecei a ter noção da idade que tinha, confesso, e sou a mais velha das três, quando percebi que pessoas que trabalharam comigo quando tinham 15 anos estão a fazer 30. Portanto, se calhar já não tenho 30. [risos] Mas há uma criança em mim que aparece quanto mais madura estou.
– Este espetáculo aborda, precisamente, estas temáticas da idade. Falar disto em palco é terapêutico?
Maria – Pode ser, sim. Mas neste caso há uma desmistificação de tabus. Falamos das coisas sérias de forma divertida.
Ana – Há um despudor e uma libertação ao falar de determinados assuntos tal qual como são. O que mais gosto neste espetáculo é que falamos de coisas sérias, verdadeiras e dolorosas, mas a rir. E isso deve-se às autoras que fizeram este texto e ao trabalho da Sónia Aragão. Sinto-me extremamente honrada por fazer parte deste projeto e por partilhar o palco com duas amigas que são muito especiais na minha vida.
Maria – É a terceira sala em Lisboa em que fazemos este espetáculo. Portanto, existe uma grande pertinência nestas histórias e nas mensagens que passamos. Para além da amizade e do profissionalismo, há a qualidade do espetáculo e dos seus temas. E a verdade é que aprendemos muito umas com as outras, profissionalmente e humanamente, e isso nota-se em palco. Há uma sintonia em nós tão grande, que vem da vida e que leva isso para o palco. E o público sente.
Ana – [Emociona-se] É uma sorte! O meu sonho era ir para o palco grávida e poder viver tudo isto...
– Quão especial é concretizar este sonho?
Ana – É mesmo muito especial. É especial ir ser mãe, é especial partilhar a minha gravidez com elas, é especial partilhar estes momentos com elas... O palco é o sítio mais íntimo que conheço e poder partilhá-lo com estas mulheres, depois do que a Fernanda já passou, depois do que a Maria já passou, depois do que eu já passei, neste momento de alegria... [Emociona-se] É, de facto, uma celebração e é mágico. Vou viver tudo outra vez e como sempre sonhei. Tinha inveja da boa, da Fernanda, por ver que ela tinha os bebés e que tinha aquela força da natureza e sempre quis isso. Portanto, a consciência de que vou viver o mesmo, de que vai tudo acontecer, emociona-me.
– Sente-se a viver um estado de graça?
Ana – Totalmente, sendo que a maior graça de todas é a maturidade com que estou a gerar este bebé. Isto não tem só coisas boas e a liberdade de poder sentir que há coisas que são mais estranhas é gira. E tenho um privilégio muito grande: estou a viver isto com uma pessoa que quer tanto este bebé como eu. Estamos os dois na mesma fase e tenho um homem ao meu lado que vive tanto esta gravidez como eu.

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