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Especial Mário Soares: A influência de um pai republicano e anti-salazarista

“Deus? Isso nunca me veio à cabeça! E o meu pai era padre!” (Mário Soares, ao jornal “I”, em fevereiro de 2015)

CARAS
22 de janeiro de 2017, 14:00

Quando Mário, o seu filho mais novo, nasceu, a 7 de dezembro de 1924, João Lopes Soares ainda era padre, mas já era pai de Tertuliano. Ambos de mães diferentes. Em 23 já tinha, porém, pedido a Roma a anulação dos votos eclesiásticos, que lhe seria concedida em 27. Quanto à mãe de Mário, Elisa Nobre Baptista, dona de uma pensão ao Chiado, ainda não estava divorciada do primeiro marido e pai dos seus dois filhos mais velhos. Mário já tinha dez anos quando os pais se casaram.
Nascido em Leiria em 1878, licenciado em Teologia por Coimbra e ordenado padre mais por influência da mãe e das irmãs, todas muito católicas, do que por vocação, João Lopes Soares concorreu a capelão militar em 1902. Colocado no regimento de Infantaria 16, em Lisboa, em 1905, foi sacudido pelos fortes ventos republicanos que por essa altura sopravam na capital e depressa se tornou propagandista da causa, o que o levaria a experimentar a prisão pela primeira vez em 1908. A implantação da República, dois anos depois, lançaria a carreira política do sacerdote, que os republicanos viram como um excelente trunfo para apostar nas regiões mais católicas. Colocado como Governador Civil na Guarda, depois em Braga e Santarém, passaria a deputado e, em 1919, a ministro das Colónias. Pela manutenção das quais se bateu à época. Ironia das ironias, o seu filho seria, mais de meio século depois, o condutor do processo de descolonização.
Pela vida fora, João Lopes Soares continuou a ser um homem politicamente ativo, participando, por exemplo, em vários movimentos da oposição logo depois do golpe de 28 de Maio de 1926, o que o levou de novo à prisão e ao exílio nos Açores e em Espanha. “Via o meu pai, em encontros esporádicos, em sítios e a horas estranhas. (...) Por exemplo, lembro-me de o ir visitar ao forte de São Julião da Barra, que era então uma prisão política”, recordaria Mário Soares mais tarde.
No Estado Novo, impedido, devido às suas ideias, de continuar uma carreira pública, decidiu dedicar-se ao ensino, fundando, em 1935, o Colégio Moderno, à frente do qual se manteve quase até à data da sua morte, a 31 de julho de 1979. Distinguindo-se como professor e pedagogo, o antigo padre publicou também diversos manuais escolares e livros didáticos, nomeadamente uma História Universal.
No seu Colégio Moderno, João Soares deu emprego a vários professores que se destacaram na oposição ao regime, entre eles Álvaro Cunhal, David Mourão-Ferreira, Agostinho da Silva e o seu próprio filho Mário.
Foi deste pai democrata, republicano e laicizado que Mário Soares recebeu as bases da sua formação política. E não só não as renegou, como fez delas também a sua cruzada. Por isso, tal como o pai, enfrentou várias vezes a prisão e conheceu o exílio.
Exceção feita para as dificuldades que a política atravessou no seu caminho, a existência de Soares foi privilegiada. O ambiente burguês em que cresceu proporcionou-lhe sempre conforto e habituou-o a gostar das coisas boas da vida. Como diria Maria Barroso, sua mulher durante 66 anos, “foi um menino a quem a vida satisfez todos os caprichos”.

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