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Cleia Almeida admite: “Sou uma mãe diferente daquela que projetei ser”

Dois anos e meio depois do nascimento da filha, a atriz mostra à CARAS o seu lado mais feminino.

Marta Mesquita
22 de janeiro de 2017, 12:00

O fotógrafo começa a disparar a máquina e de imediato Cleia Almeida, com o seu fato escuro e top sensual, fixa o olhar e posa, mostrando um lado misterioso e feminino. Contudo, mal os flashes cessam, o sorriso regressa e a pose dá lugar a uma atitude descontraída, revelando uma mulher divertida que pode ser definida como a típica girl next door. Se na televisão, no teatro e no cinema, a atriz, de 34 anos, tem interpretado personagens complexas, como a fria e magoada Bárbara da novela da SIC Amor Maior, fora do plateau é uma mulher que procura ser feliz na simplicidade dos dias, valorizando os afetos que partilha com o marido, o assistente de realização Gonçalo Maria Lebre, e com a filha, Mafalda, de dois anos e meio.
Num mundo em que os egos não passam despercebidos, a atriz tem vingado pela discrição, não se pondo ‘em bicos de pés’ para aparecer ou para conseguir determinado papel. Com as suas prioridades claramente definidas, a atriz sabe bem o caminho que quer seguir, como partilhou nesta conversa franca.
– Não estamos habituados a ver este seu lado mais sensual e poderoso. A Cleia de todos os dias revê-se nesta atitude?
Cleia Almeida
– No dia-a-dia não me sinto nada poderosa! Sou uma pessoa simples e humilde. O poder acaba por nos distanciar dos outros e isso afeta-me. Gosto de ser parecida com o outro, mas quando se trata de fotografar ou de representar, procuro explorar uma multiplicidade de papéis.
– Para quem não gosta de se distinguir, deve ser difícil afirmar-se numa área como a representação, onde existe tanta competitividade…
– O que falta às pessoas é humildade e discrição. Não devemos querer ser diferentes para alcançar mais coisas. Devemos distinguir-nos pelas boas razões, como ser mais solidário, por exemplo.
Se assim fosse, seríamos mais felizes. Ser humilde e terra-a-terra são atitudes que valorizo muito. Não preciso de ser competitiva para ficar com determinado papel. O que os realizadores procuram é a simplicidade de uma personalidade, algo que já existe muito pouco.
– E como é que se mantém essa simplicidade num mundo em que os egos têm tanta importância?
– A televisão, o cinema e o teatro acabam por ser mundos muito diferentes. No teatro, quem não lê ou não vê peças não vinga. O que importa mesmo é a bagagem emocional e cultural que se tem. Na televisão, já há outros aspetos que são valorizados, como a imagem e o trabalho de equipa.
– E em quais destes mundos se sente mais à vontade?
– Talvez no cinema, porque foi por onde comecei. Mas a televisão está cada vez mais próxima do rigor que se procura no cinema. E hoje as pessoas trabalham em todos os formatos e até em outras áreas, porque é muito difícil resistir nesta profissão.

– Esta área da representação é só para resistentes?
– Sim, neste país, qualquer área que tenha a ver com arte é só para resistentes. Fico sempre muito triste quando sei que um colega já não é ator. Fico a pensar que isso também me pode acontecer. Acho que nunca vou desistir de ser atriz, mas sei que cada vez mais temos de ser nós a criar o nosso próprio trabalho. Quero estudar mais, gostava de tirar um mestrado em Pedagogia, porque gostei muito da experiên­cia de dar aulas. E também adorava filmar lá fora.
– Neste momento, interpreta a Bárbara na novela Amor Maior. É uma personagem desafiante?
– Sim. Para já, é uma personagem que coxeia e isso até já está a afetar a minha coluna. São ossos do ofício... Procuro ter sempre em mente a coerência da personagem. Ela é uma mulher magoada, alguém que não tem amor na sua vida e isso torna-a amargurada e triste. Contudo, isso não justifica a forma como trata as outras pessoas. Ela é odiosa!
– E falta de amor é algo de que não se pode queixar na sua própria vida. A maternidade mudou o seu mundo emocional?
– Sim, até porque depois do nascimento da minha filha fiquei hipersensível. Sempre fui muito sensível, mas agora ainda fiquei mais! Não posso ver telejornais. Não aguento ver o sofrimento e a guerra. Fujo da desgraça! Nem quero acreditar no que as pessoas fazem umas às outras.
– Ficou com mais noção das suas fragilidades?
– Sou uma mãe diferente daquela que projetei ser. Sou muito condescendente e paciente. Hoje dou prioridade a coisas diferentes. Deixei de sair tanto à noite e só vou ver as peças que quero mesmo ver. Já só leio um livro se me falarem muito bem do mesmo. De resto, quero é ir andar de trotinete no parque! Emociono-me quando a Mafalda diz algo que não estava à espera ou faz uma coisa nova… Esta hipersensibilidade é um problema!
– Tem sido fácil conciliar a representação com a maternidade?
– Depende. Há fases mais difíceis, como a que vivi quando estive em Vinhais a fazer o filme Ámen, do João Canijo. Levei a minha filha comigo, mas depois percebi que seria muito melhor ela voltar às suas rotinas cá em Lisboa. Foi muito difícil para mim ficar sem ela durante a semana. Mas como conseguia vir a casa aos fins de semana, deu para fazer este filme, que foi uma das grandes experiências da minha vida. Sou daquelas mães que têm de trabalhar para se sentirem completas. E sei que o melhor para a minha filha é ter uma mãe feliz e realizada.
– Gostava de ter mais filhos ou, neste momento, não está nos planos?
– Gostava de ter um segundo filho, mas só quando a Mafalda já for buscar uma fralda para o irmão [risos]. Sou filha única e não aconselho ninguém a ter só um filho.
Produção: Patrícia Pinto | Maquilhagem: Raquel Peres

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