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Cristina Caras Lindas: “As minhas filhas foram as enfermeiras da minha alma”

Depois de ter estado à beira da morte, a ex-apresentadora está recuperada e agradece às filhas e aos amigos.

Andreia Cardinali
31 de dezembro de 2016, 18:00

É com a voz embargada que Cristina Caras Lindas, de 55 anos, recorda os últimos meses da sua vida. No início do ano, a ex-apresentadora contraiu uma pneumonia e gripe A que a levaram ao hospital, onde passou três meses em coma. Sem andar e nem se recordar sequer de quem era, seguiram-se quatro meses de tratamentos. Dez meses depois de tudo ter começado, Cristina já voltou a si, mas ainda tem algumas limitações de mobilidade e não recuperou a total sensibilidade do braço esquerdo. Mesmo assim, foi com o otimismo e a voz característica dos anos em que fazia televisão que nos recebeu naquele que é o seu refúgio, na Praia das Maçãs.
– Esteve entre a vida e a morte. Como é que tudo aconteceu?
Cristina Caras Lindas – An­dei durante um mês com muita tosse e não me lembro do dia em que cheguei ao hospital com gripe A e uma pneumonia, em fevereiro. Disseram às minhas filhas que eu não tinha hipótese porque tinha o pulmão direito e um rim desfeitos. Duas semanas mais tarde apanhei duas bacté­rias hospitalares e acabei por ficar em coma induzido. Estive quase três meses assim e prepararam as minhas filhas para o pior. Os médicos diziam que era impossível sobreviver. Tiveram de me amarrar as mãos e os pés, porque eu, inconscientemente, tentava sair dali. Fizeram-me uma traqueotomia para poder respirar e as dores eram muitas.
– E um dia acordou...
– Acordei naturalmente, mas tinha o olhar perdido, não sabia quem era nem reconhecia as minhas filhas. Levei muito tempo para perceber o que me tinha acontecido. Acordei sem andar e sem falar. Foi um susto tremendo.
– Recorda alguma coisa do tempo em que esteve em coma?
– Tive outra vida e estou inclusivamente a escrever um livro sobre isso. Recordo-me de me ver, de saber que estava doente, de ver as minhas filhas chorar, mas não queria voltar. Eu estava bem. O meu corpo estava em sofrimento, mas a minha alma estava bem. Até hoje não sei como é que o meu corpo aguentou tanto sofrimento. Quando acordei ainda tinha muitas dores, pois estava cheia de tubos, não conseguia fazer nada e fiquei muito fragilizada.
– As suas filhas, Catarina e Andreia, fo­ram fundamentais neste processo...
– Foram as enfermeiras da minha alma, exemplares em cada momento. Nunca terei palavras para explicar tudo o que elas fizeram. Fizeram-me voltar à vida. Saí do hospital já a andar, depois de quase quatro meses em recuperação e fisioterapia.
– E como correu o regresso a casa?
– Não foi fácil, queria andar como antigamente e não conseguia, sentia-me muito triste. Mas nunca deixei de tentar, foi terrível. A recuperação foi muito difícil, quando regressei do hospital não conseguia andar ou respirar sozinha. Nesse período, mais uma vez, as minhas filhas foram esse ar e essa força. Tive o auxílio de ventiladores dia e noite por dois meses, depois, atrevidamente, fui tentando respirar sozinha por breves instantes, fui repetindo e fazendo exercícios respiratórios, até que uma noite percebi que dormi umas 6 horas seguidas sem aparelho. Fiquei tão feliz! Como uma criança que descobre o mar, o vento ou dá o primeiro passo. Ainda me emociono quando recordo…
– Olhando para si hoje, nem parece que viveu tudo isso...
– É verdade, é impressionante. Engordei um bocadinho, caiu-me o cabelo por causa do trauma.
– Ainda continua a fazer fisioterapia?
– Sim. O meu cérebro ainda não assume o meu lado esquerdo, mas luto muito e melhoro a cada dia que passa. Se eu me entregasse à tristeza, de certeza que não estava tão bem após estes meses.
– Como é que uma mulher que sempre foi confrontada com a imagem em televisão vive agora com essas questões?
– Vivo bem. O milagre de estar viva torna indiferente ter mais ou menos beleza.
– A nível pessoal, as coisas também não têm sido fáceis..
– É verdade. Estive casada durante sete anos, separei-me. Os últimos dois anos foram muito difíceis, porque tive de o acompanhar num processo de cancro e logo a seguir ao divórcio fiquei eu doente. Tem sido uma travessia muito difícil. Mas ao cuidar durante mais de um ano do meu ex-marido aprendi, com a sua força e determinação, a rea­gir da mesma maneira perante o duro sofrimento da minha doença. Ele felizmente ficou curado, espero e desejo que nunca mais tenha problemas de saúde, pois é um ser humano de exceção e merece o melhor do mundo.
– Percebe-se que esta casa é o seu refúgio. Tem sido importante na sua recuperação?
– Esta casa tem sido o lugar onde fui recuperando. Aqui escrevo, sonho e faço os meus tratamentos, pois tenho tido ajuda de amigos que são os meus anjos. Não sabia que tinha tantos amigos – e que amigos! – e outros ficaram meus amigos depois da doença: o meu fisioterapeuta, a minha cabeleireira, a minha manicura, a minha massagista... As minhas compras chegam a casa como por magia e até o editor do meu próximo livro aqui vem para avançarmos no trabalho. Todos eles vieram ajudar muito, muito, para que hoje volte às páginas da CARAS com alegria e a sentir-me uma vencedora. Todos eles aliviaram muito o peso que as minhas filhas sofreram sozinhas enquanto estive entre a vida e a morte no hospital. Se outrora fiz algo de bom, tenho recebido o retorno em dobro.
– Está afastada da televisão há 12 anos.
– Não por vontade própria... Seria uma entrevista muito longa e depois deste coma decidi apenas perdoar e continuar. Não quero falar do passado. Sei por quem fui afastada, as teias que se montaram, mas nasci de novo.
– E pretende regressar?
– Sim. Gostava de fazer um programa à minha medida, muito humanizado, com solidariedade e glamour. Já fiz ambos em separado, mas é possível juntá-los. Acho que estar longe da comunicação, daquilo que gosto, me fragilizou. Não quero chegar ao fim da vida a dizer que fazia bem uma coisa e fui impedida de a fazer. Por isso, vou lutar por isso. Vamos ver...

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