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Marcelo Rebelo de Sousa: “Tenho muitas saudades dos meus netos”

O Presidente da República recebeu a CARAS no Palácio de Belém e contou como vai ser o seu Natal.

Cristiana Rodrigues
25 de dezembro de 2016, 14:00

Chegamos ao Palácio de Belém mais cedo do que a hora marcada. O objetivo é acompanhar uma visita do Centro Nacional de Cultura, mas damos logo de caras com Marcelo Rebelo de Sousa, que, disponível como é sempre, nos faz uma visita guiada por algumas salas protocolares do palácio. Começamos pela que conhecemos melhor, a Sala das Bicas, onde geralmente são dadas declarações aos jornalistas. Mostra-nos a sala de espera e aquela onde recebe os embaixadores, os chefes de Estado e ainda nos apresenta o seu gabinete.
Destaca a espada que lhe foi oferecida pelo general Ramalho Eanes e conta-nos que por norma almoça “uma sandes ou tosta de queijo e um sumo de ananás”, o que lhe permite trabalhar ao mesmo tempo. O jantar raramente é a horas civilizadas e muitas vezes repete a ementa do almoço. Mesmo que saia para jantar em “restaurantes vizinhos”, regressa ao gabinete, onde fica até muito tarde. Mas sai. Vai para casa, em Cascais, para aquela onde vive desde 1975. É lá que encontra tranquilidade. A visita ao Palácio prossegue. Saltam à vista os presépios do artesão Delfim Manuel e ainda a decoração da mesa de Natal na Sala de Jantar, da autoria dos alunos da Universidade Sénior do Seixal. O tempo está “verdadeiramente bonito” e por isso, imparável, Marcelo Rebelo de Sousa encaminha-nos para o Jardim dos Buxos. Da varanda, virada para a Praça Afonso de Albuquerque, distribui sorrisos e cumprimentos a quem dá pela sua presença. Ao mesmo tempo, vamos conversando. O “presidente dos afetos”, que ganhou enorme popularidade nestes dez meses de mandato, fala-nos do Natal. Daquele que está a assinalar de forma oficial, com um programa que inclui a abertura ao público do Palácio de Belém, uma festa para os funcionários da Presidência e um concerto do maestro António Vitorino d’Almeida no encontro que terá com os provedores das Misericórdias do país. Conta também como será o Natal vivido em privado. Mantém a reserva habitual sobre Rita Amaral Cabral, a mulher que conquistou o seu coração há mais de 30 anos e que acompanha, nos bastidores, todos os seus passos, mas descreve a noite em família, na qual os cinco netos, Francisco, de 13 anos, Maria Teresa, de 11, Maria Madalena, de nove, Maria Luísa, de sete, e Maria Eduarda, de três – filhos de Nuno que vivem no Brasil – assumem o papel principal do Natal deste avô afetuoso. É aqui que ligamos o gravador.
– Como é que um Presidente da República vive o Natal em família?
– Na verdade tenho um programa muito ocupado até dia 23, data em que chegam os meus netos. A 24 tenho o dia mais livre para eles e para a família em geral. No entanto, darei nesse dia um pulinho ao Barreiro, para participar na tradição de se encontrarem todos na rua para beber um copo antes do jantar de Natal. Depois, por volta das sete da tarde, vou reunir-me com a minha família toda em casa do meu irmão mais novo, o Pedro. O nosso jantar é sempre bacalhau, cozido para uns, com natas para outros. Segue-se a distribuição dos presentes, que são poucos, porque a família já aderiu há bastante tempo à ideia de que, tirando as crianças, cada um dos adultos só dá um presente a outro adulto, que é sorteado no dia 1 de dezembro, para termos tempo para ir às compras.
– Conseguiu, então, comprar os presentes todos?
– Sim, comprei já para os meus netos. Os quatro mais velhos queriam todos a mesma coisa. À mais nova vou oferecer uma boneca. E também comprei o presente para o ‘meu’ adulto.
– Mas confesse, comprou um presente para a Rita?
– Não comprei presente para mais ninguém, pois decidimos não trocar presentes entre adultos. Foi apenas para os meus netos e para a pessoa que me saiu no sorteio. E mais nada.
– Estava a relatar-nos como passa estes dias...
– Depois da distribuição dos presentes há uns que vão à Missa do Galo, outros vão ter com as famílias dos ‘afins’ e ainda têm ceias de Natal.
– E o 25 de dezembro?
– No dia 25 estarei com a família, mas irei almoçar com uma instituição que recebe pessoas sem abrigo. E no dia 26 ainda terei um jantar ligado ao Movimento Re-food, que tem como objetivo lutar contra o desperdício alimentar.
– No meio de tudo isso, vai tentar aproveitar os seus netos?
– Vou aproveitar os meus netos o mais possível. Já não os vejo desde agosto, quando fui ao Brasil por ocasião da abertura dos Jogos Olímpicos.
– As saudades devem ser imensas...
– Tenho muitas saudades, falo com eles todos os dias. E sei que eles também têm muitas saudades minhas, já terminaram as aulas e estão à espera da data para vir.
– Imagino que o facto de ter uma agenda cheia de acontecimentos oficiais não lhe permite viajar tanto quanto gostaria para os visitar. Isso pesa-lhe?
– Pesa-me e muito não poder estar com os meus netos tantas vezes quanto gostaria. Por exemplo, depois deste encontro de Natal, só os voltarei a ver daqui a seis meses, porque eles só virão em julho, nas férias de verão.
– Ainda que com menos menos tempo para a família, qual é o balanço que faz destes quase dez meses na Presidência da República? Foram intensos…
– Tem sido muito intenso, mas muito gratificante. O que achei mais estimulante foi ter conseguido, na medida do possível, estar próximo dos portugueses…
– Não é por acaso que diz ser o presidente de todos os portugueses…
– Só tem sido difícil porque são muitas, muitas, as solicitações, mas naquilo que foi possível, embora naturalmente com um esforço físico grande, estive presente e quero ver se consigo não perder esse ritmo e cumprir a mesma missão ao longo dos próximos anos.
– O que vemos é o que é na realidade? É caso para dizer: “what you see is what you get”?
– Exata­men­te. Não mudei o meu estilo. Uma pessoa não muda quan­do vai para a Presidência. A pior coisa que poderia acontecer era ser uma pessoa antes e outra depois.
– Há, no entanto, um sacrifício grande da vida privada.
– Há um sacrifício brutal da vida privada. Se uma pessoa está 24 horas por dia mobilizada, a família e os amigos queixam-se brutalmente dessa falta de disponibilidade.
– Os mais próximos queixam-se da sua pouca disponibilidade?
– Acho que o problema de uma função presidencial em geral, e sobretudo exercida como eu exerço, implica que o espaço livre seja muito limitado. Por exemplo, estamos a oito dias do Natal e tenho um programa intenso até ao fim do ano. Até lá, haverá dois dias ou três de maior disponibilidade para os netos, o que significa por isso um grande sacrifício para a família durante cinco anos.
– Decidiu não ficar a viver no Palácio de Belém.
– Por duas razões. Primeiro, porque havia necessidade de retocar um bocadinho a zona residencial, uma vez que uma parte funcionava como gabinete de apoio à Dra. Maria Cavaco Silva e que atualmente não está a ser utilizada. Em segundo lugar, e trabalhando eu até muito tarde, se vivesse aqui começava a ter a tentação de ficar alheado do mundo, os dias encadeavam-se uns nos outros. Ir a casa obriga-me a manter uma ligação com a realidade. Um dos riscos nestas funções é ficar-se muito fechado no sítio onde se trabalha. Corre-se o risco de se ficar ensimesmado. Não há nada como levar banhos de realidade, fazer compras, ir aos sítios onde ia, e, quando posso, dar um mergulho e nadar no mar. Se vivesse aqui, tudo isso se perderia.
– É lá que encontra tran­quilidade?
– É a minha casa há 40 anos. Aqui seria artificial. Nunca poderia trazer um grande número de livros, ou aquilo que é de um maior valor estimativo. Psicologicamente, não seria bom, pelo menos é essa a minha interpretação, por isso, em princípio é uma posição que vai durar durante todo o mandato.

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