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Ao lado da família, Gracinha Viterbo abre as portas da sua casa, no Estoril

O turbante é uma das imagens de marca de Gracinha. Dona de um estilo eclético, é a designer que cria os seus próprios turbantes, os quais mostra na conta do instagram “gracinhaviterbo_head_ couture”.

Marta Mesquita
25 de dezembro de 2016, 10:00

As palavras calorosas escritas nos degraus da entrada da casa de Gracinha Viterbo e de Miguel Vieira da Rocha já deixam adivinhar o que se pode encontrar atrás da porta. Mais do que móveis e objetos que revelam o bom gosto e savoir-faire da designer de interiores, esta casa está ‘decorada’ com afetos e memórias construídas a seis. Até pode parecer uma casa de revista, mas é, acima de tudo, um lar com gente dentro, onde a identidade de cada um está espelhada em frases motivacionais e em fotografias que imprimem amor a todas as divisões. E foram muitas as emoções e recordações felizes que Gracinha, o marido e os quatro filhos, Santiago, de 12 anos, Guilherme, de dez, Benjamim, de nove, e Alice, de seis, trouxeram dos três anos que viveram em Singapura, na Ásia, onde a decoradora e o gestor abriram um escritório. Mais do que uma experiência profissional, esta viagem transformou-os enquanto família, estando hoje ainda mais unidos e conscientes do caminho a seguir.
Já a viver em pleno o espírito natalício, a designer de interiores abriu as portas deste seu refúgio familiar e partilhou com a CARAS o que a inspira a ser uma mulher, mãe e profissional cada vez mais completa e realizada.
– Mal se entra nesta casa, as frases motivacionais e afetuosas saltam à vista. Foram elas a sua principal inspiração para decorar a vossa casa?
Gracinha Viterbo – Há uma frase do Paul Smith que está sempre presente em tudo o que faço: “You can find inspiration in everything and if you can’t, look again.” Acho que com a pressa perdemos a capacidade de nos inspirarmos. Tenho frases espalhadas ao longo da casa, porque todos os dias tenho de me lembrar delas. E são palavras que dizemos uns aos outros. Devemos tentar ser felizes com aquilo que temos, em vez de estarmos a pensar naquilo que não temos. As fotografias e os objetos que aqui estão inspiram-me. É uma casa de família, por isso, é confortável e alegre, mas sem perder a sofisticação. Os meus filhos vivem todos os espaços da casa. É um lar aberto e cheio de memórias.
– Três anos na Ásia foram, com certeza, uma experiên­cia transformadora. É hoje uma mulher diferente?
– Três anos depois, uma mulher está sempre diferente. Mas, de facto, viver três anos na Ásia é uma experiência que muda muito uma pessoa e uma família. Todos crescemos muito. Os meus filhos ficaram com uma semente para o resto da vida. Espero que eles fiquem com a paixão pelas viagens e que continuem a ter respeito por outras religiões, que é algo muito marcante em Singapura. Eles também aprenderam a falar chinês e vão continuar a progredir nessa língua. Lá, perceberam o que é viver num sentido mais comunitário, reconhecendo a importância de retribuir. E não quero nada que eles percam isso. Com esta viagem, aprendemos a valorizar muitas outras coisas.
– Como por exemplo?
– Uma das coisas que aprendi na Ásia foi a cuidar mais de mim. As mulheres lá estão sempre muito bem arranjadas. Tem de haver um equilíbrio entre quem somos na rua e dentro de casa. A nossa identidade tem de ser transversal. Sou muito a favor de tudo o que é realista, as pessoas não se podem tornar quem não são. Contudo, há pormenores que podem fazer toda a diferença. No outro dia estava de fato de treino e tive de ir ao escritório. Como não tinha tempo de mudar de roupa, pus uma capa que desenhei por cima. E quando lá cheguei disseram-me: “Está tão gira.” Foi apenas uma capa, mas fez a diferença. As pessoas dizem-me que pareço inatingível e essa é mesmo uma ideia que nada tem a ver com a minha realidade! Muitas vezes deito-me arrasada, porque estou cansada ou porque não deveria ter dito determinada coisa ao meu filho, por exemplo. Mas mesmo cansada ou sem vontade de sair da cama, cuido de mim. Pôr um batom ou um turbante faz-me sentir bem. É algo que faço por mim. Temos de desmistificar a ideia de que não temos tempo para nos arranjarmos. Temos de gostar de nós mesmas. Quando somos autoconfiantes, contagiamos todos os que estão à nossa volta.
– Em Singapura não tinham apoio familiar. Isso deve ter mudado bastante a vossa dinâmica familiar…
– Sim. Consegui estar muito mais com os meus filhos, dando o exemplo e ensinando-lhes várias coisas. Estávamos num núcleo mais fechado, o que nos fez muito bem. Vejo-me como um triângulo: sou mulher, mãe e profissional. E tento dar o meu melhor em todos os papéis. Com a logística associada a quatro filhos e tendo uma carreira para gerir, aprendi que é fundamental simplificar. Também soube ser uma boa equipa com o meu marido, porque é difícil estarmos lá sozinhos, quando os nossos apoios ficaram todos cá. A organização é algo muito importante na vida de uma mulher. Por exemplo, o Natal pode ser organizado em outubro, para se executar tudo em novembro e poder ser aproveitado em dezembro. São três passos: organizar, executar e aproveitar. Muitas vezes, o que acontece é que as pessoas se esquecem do aproveitar. E quando vivemos fora, começamos a ver esta dinâmica de uma forma diferente.
– E tem sido fácil passar esses valores aos seus filhos? Como mãe, quais são os seus grandes desafios?
– Tenho muitos, mas o maior prende-se com a educação dos meus filhos neste sistema europeu. Para mim, as escolas na Europa são uma tortura para as crianças. O nosso sistema é castrador. E isso é mesmo algo que me faz sofrer. Temos um sistema completamente desatualizado. Pedimos a um macaco, a um gato, a uma girafa e a um peixe para subirem à mesma árvore! Não se pode pedir a um peixe para subir a uma árvore. Todos os dias passo aos meus filhos a importância de se valorizarem tal como são. O Santiago é um excelente futebolista, é o seu talento. E nós estamos ao lado dele na luta por esse sonho. Queremos que eles encontrem a sua própria identidade, dando-lhes os estímulos certos. A liberdade que dou aos meus filhos de serem aquilo que quiserem diz-me muito mais do que um ‘não satisfaz’ num teste.
– Em Singapura ou em Portugal, a Gracinha trabalha com o seu marido. Como é que conseguem fazê-lo sem que isso desgaste a vossa relação?
– Temos de perceber que somos diferentes, por isso o respeito e o compromisso em encontrar uma solução são fundamentais. Numa relação a dois, tem de haver cedências. Não passamos o dia a concordar um com o outro, muito pelo contrário. Temos personalidades muito diferentes, mas aprendemos a completar-nos. Temos as nossas discordâncias, mas conseguimos ver as qualidades do outro. Não vamos mudar o outro, até porque gostamos muito dele assim. E lutamos por aquilo em que acreditamos. Se eu acho que tenho razão, não desisto disso. O casamento é um tango, mais do que uma valsa.
– Mas não foi só no campo pessoal que a Ásia lhe proporcionou novas experiências. Profissionalmente, também deve ter aprendido várias coisas. Hoje olha para o design de interiores de uma maneira diferente?
– Aprendi muitas coisas na Ásia que passei a aplicar no meu trabalho aqui. Os timings lá são muito mais apertados, o que nos obriga a organizarmo-nos de maneira diferente. Contudo, também lhes transmiti muito da nossa forma de trabalhar na Europa. O europeu tem uma coisa ótima: dá valor ao tempo do trabalho. Fazer algo realmente bom demora o seu tempo e eu levei essa noção para lá. Trago para cá vários conhecimentos tecnológicos e na área da gestão de projetos, mas deixo lá essa noção de qualidade e de valorização do trabalho manual.
– E foi tendo por base essa mistura de conhecimentos que criou o seu novo projeto?
– Vim da Ásia com uma vontade enorme de dar vida a este projeto. A nossa casa-mãe, no Estoril, vai ser transformada no Viterbo Cabinet of Curiosities. Nos séculos XVIII e XIX as pessoas que podiam fazer viagens de exploração voltavam sempre com objetos diferentes e exóticos e faziam uma coleção de curiosidades. Este showroom aberto ao público vai ter flores, um bar de estilo, workshops com profissionais fantásticos e eventos para adultos e também para os mais pequenos. Num mundo tão massificado, há, paradoxalmente, cada vez mais pessoas à procura da sua identidade. É o sítio ideal para comprar um presente diferente, por exemplo. E a loja vai mudando, assim as pessoas encontram sempre um espaço novo. É um projeto muito apelativo que não explora apenas a decoração, mas todo o mundo ligado à estética. Estão sempre a desafiar-me para criar um blog e este espaço é, de certa maneira, um blog físico, onde posso trabalhar várias áreas. É um lugar inspirador.
Produção: Filipa Gonçalves | Maquilhagem: Raquel Peres

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