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Adelaide de Sousa e Tracy Richardson: “O Kyle deu-nos um motivo de coesão”

A atriz, o marido e o filho passam o Natal em Portugal, mas Tracy mantém bem presentes as lembranças do Natal vivido nos Estados Unidos. “Sinto falta da neve, cresci com neve e lá esta altura é muito especial. Mas foi o Kyle que tornou o Natal mágico”, diz.

CARAS
25 de dezembro de 2016, 18:00

Diz Miguel Esteves Cardoso que “os casamentos estão para os números e para a sorte como as rifas e as lotarias. Havendo amor, passa-se a semana a pensar que se vai ganhar e depois há um dia em que se perde – quando há discussões – seguido de mais uma semana com uma nova esperança. Aos jogadores apenas se pede o impossível, facilmente concedido: acreditar que podem ganhar”.
Adelaide de Sousa e Tracy Richardson sempre acreditaram nessa vitória, por isso, são a prova de que a sorte se trabalha e de que o amor, quando vivido com entrega, vence a rotina e as adversidades. Juntos há 15 anos e casados há 13, são a imagem de um amor consciente e maduro, que não anula os defeitos do outro para se manifestar. Serenos e felizes com tudo o que já conquistaram, Adelaide e Tracy encaram o futuro com a certeza de uma força conjunta, que se renova a cada dia que passa. Kyle, de sete anos, veio reforçar esta união e mostrar que a vida faz mais sentido assim, a três, numa partilha constante.
– Ainda se apaixonam diariamente um pelo outro?
Tracy – Quando nos casámos, estava completamente enganado sobre o amor. Achei que seria possível vivermos numa espécie de filme romântico o tempo todo. Hoje em dia odeio esse tipo de filmes. Portanto, tinha uma ideia do casamento que não era real. E essa ideia tinha que morrer. Hoje, olhando para trás, acho que não amava a minha mulher quando a conheci. E a verdade é que quando nos conhecemos, fiquei maravilhado com ela, senti-me inundado de amor. Mas, nessa altura, tudo era romântico e sensual. E isso não é amor. O amor é paciência, generosidade, amabilidade, é ouvir... É tudo isto. E o amor não é fácil. Mas mesmo assim é bom. Portanto, hoje continuo a apaixonar-me pela minha mulher, mas já não é só fogo de artifício. Olho para o que ela faz todos os dias, para a forma como reage à vida e às responsabilidades, e como lida com tudo de forma graciosa. A Adelaide não liga a flores, o importante para ela é eu estar lá.
Adelaide – Fui educada por um pai e por uma mãe muito diferentes um do outro. A minha mãe era romântica e valorizava muito esses gestos de oferecer flores, palavras bonitas e poesia. Era uma pessoa artística e romântica. E o meu pai utilizava a racionalidade para se proteger. Os meus pais viveram um casamento complicado. Tiveram muitas tensões entre aquilo que eram as expectativas da minha mãe e aquilo que eram as capacidade do meu pai. E o casamento deles ensinou-me a perceber que quando as pessoas não nos dão aquilo que precisamos, muitas vezes é porque não nos sabem dar. E criamos ressentimentos porque achamos que o outro não dá porque não ama, porque não valoriza. A minha relação com o romantismo é um bocadinho complicada, porque o meu pai saía sempre vencedor das situações e eu conotava o comportamento da minha mãe com alguém mais fraco. E quando me casei trouxe isso para o meu casamento, o que gerou muitas angústias. Mas a pouco e pouco comecei a querer outra coisa. Para mim, o meu casamento tem sido um campo de trabalho. Já senti muitas vezes o desejo de terminar. Se é difícil, se é duro e se dói, então vamos terminar. Mas dou graças a Deus por não o ter feito, porque é ao passar esse Cabo das Tormentas, tornando-o na Boa Esperança, que vamos crescendo. O outro é um constante reflexo das coisas que estão a faltar e isso é terrível. Dito isto, e voltando à pergunta, todos os dias são uma oportunidade para descobrirmos alguma coisa na outra pessoa que não estávamos a valorizar.
– O amor não é um sentimento estático, cresce e evolui. Como é que tem sido viver este amor?
Tracy – Muita coisa aconteceu no nosso casamento nos últimos cinco anos. Começámos a olhar verdadeiramente um para o outro, porque deixei de lado o filtro das histórias de amor do cinema.
Adelaide – Mas demora. Somos postos à prova de muitas maneiras. Se me tivesse separado há dez ou cinco anos, não teria conhecido outros aspetos do meu marido, nem ele meus. Não teria podido viver coisas que já pudemos viver desde aí. O amor muda muito. E nós próprios temos que mudar com o amor.
– Foi fácil encontrar o equilíbrio entre os dois após o nascimento do Kyle?
– O nascimento do Kyle ajudou a muita coisa. É óbvio que agudizou outros problemas, revelou falhas no casamento. Mas, ao mesmo tempo, deu-nos um motivo de coesão, um terreno de tréguas. O nosso filho é um momento de encontro entre nós. No nosso caso, tem sido sempre motivo para uma nova junção porque não há nada que nos deixe mais gratos do que estarmos com alguém que nos deu algo tão bonito como um filho. E essa gratidão pesa, é para a vida, independentemente do que aconteça.
– E têm sabido conciliar o papel de pais com o de casal?
– É difícil. Sou mais individua­lista do que o Tracy, tenho mais tendência para me resguardar, para precisar do meu tempo. São rituais de apaziguamento. Ele sente mais necessidade do que eu de que nos encontremos enquanto marido e mulher, mais do que enquanto pais. Mas acho que estamos melhor.
Tracy – Sempre fomos muito independentes um do outro. Quando o Kyle nasceu tornámo-nos uma unidade. É estranho quando ele não está por perto, connosco.
– Tem sido uma experiência única crescerem com o Kyle?
Adelaide – O exercício da maternidade e da paternidade pode ser muito doloroso, mas é muito compensatório. E o único arrependimento que tenho é de não ter sido mãe mais cedo, porque já poderia ter mais filhos, e poderia apreciar este vigor do Kyle de outra maneira. Perto dos 50 já não tenho a energia que tinha. Mas tento não olhar para mim própria enquanto mãe e para ele enquanto pai como um fator decisivo para a felicidade do Kyle. Isso é uma presunção terrível.
– Existe alguma mágoa por não ter sido mãe mais cedo?
– Acho que isso está resolvido. Houve uma altura em que foi difícil encarar isso como sendo um reflexo do meu próprio egoís­mo e do medo da mudança. Achava que para ser mãe tinha que ter toda uma lista de capacidades e competências que não reconhecia em mim e que, nesse aspeto, era realista. Mas nada disto deveria ter sido um motivo para evitar a maternidade. Se soubesse o que se ganha em termos de qualidade de vida, de consistência de pensamento e no próprio casamento, teria tentado convencer o Tracy muito mais cedo. Mas hoje em dia há paz em relação a tudo isto. Seria uma bênção termos mais filhos, mas tenho que ser tolerante em relação às minhas escolhas, à pessoa que eu era, que é diferente da que sou.

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