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Rui Massena dá ‘ritmo’ aos afetos

“Sempre vi a música como um bem comum e um ato de partilha”, afirma.

Marta Mesquita
18 de dezembro de 2016, 16:00

Seja como maestro, compositor ou pianista, Rui Massena, de 43 anos, assume-se como um “comunicador”, que procura com o seu talento “partilhar afetos” e “mobilizar as pessoas.” Massena, que tem uma aparência excêntrica q.b., como é próprio da maioria dos maestros, concilia nos discos e no palco uma mistura harmoniosa dos seus dois mundos: o da direção musical, em que a disciplina e o rigor da pauta mandam, e o da liberdade da criação, onde as suas emoções ganham ritmo entre dedos céleres que dominam o piano. Este homem que transmite sentimentos e sensações através da música prepara-se para subir em nome próprio ao palco do Coliseu dos Recreios, em Lisboa, no dia 2, e do Coliseu do Porto, a 7. Um feito que quase parece impossível no nosso panorama musical.
Apesar de não lhe ser fácil transpor para palavras os sentimentos que revela na música, Rui Massena falou com a CARAS deste momento único na sua carreira. Ligue-se o gravador, eleve-se a batuta e comece a conversa. Música, maestro!
– Como se preparou para atuar nos Coliseus?
Rui Massena – Estou a preparar-me muito bem, porque ter tudo planeado é a melhor maneira de lidar com o nervosismo e de poder, depois, desfrutar dos concertos. Sinto-me muito feliz por, com música que é apenas instrumental, poder pisar estes palcos em nome próprio. São salas em que se pode fazer um concerto a 360 graus, o que permite uma experiência sonora completamente diferente. Partindo do centro, posso espalhar a música pela sala, graças ao seu formato de arena.
– Como disse, a sua música é apenas instrumental e, mesmo assim, está prestes a pisar dois palcos com que muitos artistas mainstream sonham. Isso mexe consigo?
– Mexe, porque são salas populares. Ou seja, há pessoas que se calhar não vão à Casa da Música ou ao CCB, mas vão aos Coliseus. E eu gosto de sentir essa proximidade.
– Sente que tem tido um papel na educação musical do público português?
– Gosto mais da ideia de conseguir chamar e mobilizar as pessoas. Sou um comunicador que procura partilhar afetos através da música. O primeiro passo é fazer as pessoas vibrarem, só depois é que se pode ir complementando o gosto. Quanto mais se conhece, mais se gosta. Mas para mim este é mesmo um percurso de afetos.
– Se enquanto maestro grande parte do seu percurso foi feito “de costas” para o público, com os seus dois álbuns, Solo e Ensemble, passou a encará-lo “de frente”, apresentando-se como compositor e pianista. Esta nova forma de se mostrar como artista mudou a sua relação com a música?
– O maestro é um intérprete. Pega num texto, dá forma a uma composição, mas não pode mudar uma única nota. O compositor cria a sua mensagem. Portanto, há muito mais liberdade na criação do que na interpretação. Com as minhas músicas, mostro a minha identidade como criador. Não me imponho barreiras, gosto de ser aquilo que quiser. Hoje, não tenho medo de me expressar, o que é maravilhoso, porque lutei toda a minha vida por isso. A composição trouxe-me algo que me fazia falta. Encontrei-me comigo próprio.
– Parece ter uma relação muito profunda com a música... Isso não pode ser demasiado absorvente?
– Toco desde os seis anos e sempre vi a música como um bem comum e um ato de partilha. Também é a minha forma de estar na vida. Estou cá para provocar e levar as pessoas a sentirem algo. Gosto muito de estar no estúdio e parar o tempo. Naquele momento não há mais nada.
– A sua mulher e os seus filhos têm de ser muito compreensivos...
– Sim! E a essa compreensão chama-se amor. Nas relações não podemos inibir ninguém de ser quem é. Temos de aceitar o outro. Claro que nem sempre isso é fácil, porque exige muita tolerância.
– Lá em casa, quem é que tem a batuta?
– Sempre a minha mulher e os meus filhos. Na minha vida afetiva deixo-me levar. É a lei da compensação.
Maquilhagem: Raquel Peres

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