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Cuba despede-se de Fidel Castro, o amado ou odiado pai da revolução

“Não tenho nem um átomo de arrependimento pelo que fizemos no nosso país.” (Fidel, ao jornalista espanhol Ignacio Ramonet, em 2006)

Ana Paula Homem
6 de dezembro de 2016, 15:58

Foi Raúl Castro, irmão, camarada de luta e sucessor do “comandante-em-chefe” da Revolução Cubana, quem anunciou a morte de Fidel Castro, às 22h29 (hora de Havana) da passada sexta-feira, dia 25. Um anúncio que o mais moderado dos irmãos Castro terminou com o inevitável slogan: “Hasta la vitoria, siempre!” O mesmo slogan que certamente será pronunciado até à exaustão ao longo dos nove dias de luto nacional, quando as cinzas percorrerem 13 das 15 províncias de Cuba, no trajeto inverso daquela que ficou conhecida por Caravana da Liberdade, e que, lado a lado com Che Guevara, o levou, em 1956, da Sierra Maestra, quartel-general das suas forças rebeldes, até Havana, onde a 8 de janeiro de 1959, proclamou a vitória da revolução.
A morte de Fidel, aos 90 anos, não significará, à partida, uma imediata e profunda rotura no regime cubano, uma vez que o seu gradual afastamento da vida política ativa, a partir de 2006, ano em que teve uma recidiva do cancro do cólon que lhe fora diagnosticado no final da década de 80, foi delegando poderes em Raúl, que se tornaria oficialmente chefe de Estado em 2008. E, ao contrário do que se esperava, Raúl Castro não se limitou a ser uma marioneta nas mãos do irmão, dando uma marca reformista à sua presidência. A começar pela decisão de limitar a permanência no poder a dois mandatos de dez anos. E nada indica neste momento que não cumpra o seu segundo mandato até ao fim, acelerando até o ritmo da política reformista.
A morte de Fidel não significará, também, o fim das paixões e ódios angariados por este marxista-leninista que sobreviveu à queda do regime soviético, dirigindo com pulso de ferro, durante meio século, o destino dos cubanos. Porque se é verdade que o castrismo foi construído à custa de inúmeros atropelos dos direitos humanos – após a conquista do poder, Fidel instaurou a pena de morte, executando em massa os seus opositores e restringindo profundamente as liberdades cívicas do seu povo –, a verdade é que é difícil não reconhecer a simpatia exuberante e o carisma sedutor daquele que é, para o bem e para o mal, um dos grandes estadistas do séc. XX. Como também não se pode negar o valor de algumas das importantes reformas que fez no seu país, nomeadamente na área da saúde e da educação.
Nascido em 1926 de uma relação extra-conjugal de um latifundiário com uma criada doméstica, Fidel só seria reconhecido legalmente aos 17 anos, mas o pai sempre providenciou o seu sustento, o que lhe permitiu entrar para o curso de Direito da Universidade de Havana. E seria aqui que entraria em choque com o imperialismo americano e com o regime ditatorial de Fulgêncio Batista, que transformara Cuba numa estância de recreio dominada pela máfia americana. O longo braço de ferro Cuba/EUA já há alguns anos que afrouxou mas, com o desaparecimento de Fidel e a subida de Trump ao poder, o país caribenho corre agora sérios riscos de voltar a ser o 51.º “estado” americano.

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