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Marta Pereira da Costa: “Estar em palco a solo é mágico”

A guitarrista acaba de lançar o seu primeiro álbum a solo. Separada desde o início do ano, Marta vive para a carreira e para os filhos gémeos, Constança e Vicente, de sete anos.

Andreia Cardinali
3 de dezembro de 2016, 16:00

Marta Pereira da Costa, de 34 anos, abriu caminho para as próximas gerações ao tornar-se a primeira mulher e única guitarrista profissional de fado. Hoje, 15 anos depois, volta a estar na linha da frente com o seu primeiro álbum a solo, intitulado Marta Pereira da Costa.
Separada desde o início do ano do fadista Rodrigo Costa Félix, com quem partilhou a vida e o palco durante 14 anos, dez dos quais casados, Marta vive dias de serenidade junto dos filhos gémeos de ambos, Constança e Vicente, de sete anos, mas também de muita dedicação profissional.
– Este álbum apresenta uma Marta mais versátil. Não é só um álbum de fados...
Marta Pereira da Costa –
É verdade e a ideia era mesmo essa. Fugir ao fado e apresentar uma coisa totalmente diferente daquilo que as pessoas podiam esperar de mim ou de qualquer álbum com guitarra portuguesa. A ideia foi juntar vários géneros musicais como jazz, world music, música portuguesa e temas meus, em que a guitarra seja o elo de ligação. Só tenho um fado, com o Camané e uma guitarrada do Carlos Paredes.
– Foi difícil compor este álbum da forma como o tinha imaginado?
Foi difícil pensar na instrumentação e nos arranjos para que as coisas ficassem minimamente coesas. Mas acho que ficou bem [risos].
– É o primeiro álbum a solo. Havia uma necessidade de pisar o palco sozinha?
Não uma necessidade, mas sim uma vontade. Quando comecei a tocar guitarra, sempre quis fazer uma carreira a solo. Gosto de acompanhar os outros artistas, mas sempre quis ter um concerto meu. Sabia que seria difícil, pois não é algo a que o público esteja habituado, mas eu já sou diferente por mim, por ser uma mulher a tocar um instrumento tradicionalmente tocado por homens, e achei que poderia ir ainda mais longe. Daí este disco.
– Ainda há algum preconcei­to em ser mulher e tocar guitarra portuguesa?
No meio onde estou inserida nunca o senti, estou completamente integrada. Passaram 15 anos e já toco a solo há quatro.
– Como está a ser a aceitação do público?
Tenho mais informação da venda de discos e para um disco instrumental está a correr muitís­simo bem. Os concertos iniciaram no mês passado e já passei pelos Açores, Douro, Espanha. O plano de tournée ainda não está completamente delineado. Queremos é dar a conhecer este trabalho e tocar, tocar.
– Há uma responsabilidade acrescida quando se está em palco a solo.
Claro, mas foi o que sempre quis. Este disco exigiu muito trabalho e domino tudo o que foi feito. Não houve na­da mexido sem que eu estivesse presente. Tudo passou por mim e isso traz-me
alguma segurança. Só quero estar em palco com este álbum.
– Ser a única mulher a tocar guitarra portuguesa também traz responsabilidade.
Traz, acima de tudo, muita pressão, mas eu gosto [risos]. Apesar da minha timidez, sempre gostei de me destacar e provar que consigo fazer as coisas. Sei que ainda tenho imenso para aprender e muita técnica para melhorar, mas sei que consigo. Sou super lutadora e muito apaixo­nada pelo que faço. Para mim, estar em palco a solo é mágico.
– Um disco a solo obriga muita dedicação e tempo. Como concilia isso com a maternidade?
É muito complicado. Tenho uma estrutura familiar fantástica e com o apoio do Rodrigo, dos meus pais e de uma empregada que ambos partilhamos, eles estão muito estáveis, com as rotinas bem definidas. Eu também sou muito organizada no tempo que tenho para eles e de que preciso para trabalhar. Tento estar com eles a cem por cento quando estamos juntos e fazer programas que eles gostem, para tentar, de certa forma, compensar os momentos em que não estou. Hoje em dia, com as redes sociais, também dá para estarmos em permanente contacto.
– Estar separada dificulta esse processo ou, de certa forma, até agiliza?
Já dava para alternar bem entre nós os dois. Quando o Rodrigo tinha concertos, eu ficava com eles, e quando eu tinha, ficava ele. Agora fazemos exatamente a mesma coisa, mas cada um na sua casa. Temos uma guarda partilhada, mas sempre que um ou outro precisa, tentamos ajudar. Está tudo muito tranquilo.
– E como faz a sua agenda de espetáculos nas alturas em que eles estão consigo?
Com dificuldade, mas se vou para fora, por exemplo, prefiro que eles fiquem com o Rodrigo do que em casa com a empregada. Ainda estamos todos numa fase de adaptação. Foi tudo ao mesmo tempo, o álbum, a separação... Mas eles são miúdos fantásticos, adaptam-se muito bem.
– Para quem se separa, as crianças são sempre a principal preocupação.
Claro. O que mais me preocupava era como é que eles iriam reagir, se iriam sofrer muito, como iriam superar a mudança. Mas eles foram espetaculares, são muito crescidos para a idade, em especial a Constança, que é muito pragmática e queria saber como tudo se ia processar. A partir do momento em que viram que as tensões acabaram, ficaram felizes. Eles veem que a mãe e o pai se dão bem e conversam muito e acho que isso lhes transmite serenidade.
– Acima de tudo, sempre foram muito amigos.
Sim e continuamos a ser. As pessoas até ficam espantadas como nos damos tão bem. Vemo-nos nos fados, conver­samos imenso nos intervalos, sobre os miúdos, a vida dele e a minha. Sempre quisemos salvaguardar a nossa amizade. Trabalhar e viver junto é complicado e a nossa amizade sempre esteve em primeiro lugar. Quero muito que o Rodrigo seja feliz e sei que ele me deseja o mesmo. Entendemos que este seria o caminho mais certo.
– É natural que essa serenidade passe para os seus filhos.
Sim, eles estão muito se­renos com esta nova fase. No início houve um choque, cada um reagiu à sua maneira, mas foram acompanhados por psicólogos e ela disse que eles reagiram super bem e sentem que são crianças amadas por nós e isso torna-os mais seguros. Na escola, eles continuam a desenhar a fa­mília como se estivéssemos todos juntos, e a verdade é que nós continuamos a ser uma família.
– Para terminar: hoje estivemos na oficina do mestre Óscar Cardoso, que faz as suas guitarras.
Esta é a única oficina que frequento desde que tenho uma guitarra a sério. Para mim, estas são as melhores guitarras de todas. Ele é genial, faz guitarras sem fundo, com materiais que nunca foram usados. Todos os guitarristas profissionais têm uma guitarra dele. Gosto muito de cá vir e de ver as ideias dele.
Produção: Vanessa Marques | Maquilhagem: Madalena Martins

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