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João Ricardo: “O cancro pode matar, mas não tem de nos vencer”

Operado a um tumor maligno no cérebro, o ator inicia esta semana os tratamentos de quimio e radioterapia.

Cláudia Alegria
1 de dezembro de 2016, 10:00

Se fosse confrontado pelos médicos com a possibilidade de ter de ser operado ao cérebro, João Ricardo teria respondido taxativamente que não. Mas o ator não teve sequer hipótese de pensar no assunto. Chegou ao hospital inconsciente e, após alguns exames, foi operado de urgência para remover um tumor que, dias depois, se confirmou ser maligno. Acordou uma semana mais tarde. Levantou-se da cama bem disposto e só quando o médico entrou no seu quarto soube que tinha sido operado ao cérebro. Ainda hoje não acredita no que lhe aconteceu. Ri-se quando fala do cancro, recusa-se a aceitar que o tratem como o coitadinho e agradece o facto de poder continuar a acompanhar a vida do filho, Rodrigo, de 12 anos.
– Isto foi uma espécie de recomeço, um reset aos 52 anos?
João Ricardo –
Houve uma paragem de vida em que volto a nascer com toda a fé que tinha. E que tenho.
– É católico?
– Acho que sou católico à minha maneira. Não acredito em Deus, acredito em Cristo. O que Lhe peço é: toma conta de mim ou ajuda-me. E Ele fará o que achar por bem. Acho que Ele não é tão cruel – e é nisto que acredito –, que deixasse o meu filho ficar sem pai aos 12 anos.
O seu filho apercebeu-se logo de que alguma coisa não estava bem?
– Segundo o que me vão contando aos poucos, eu estava com uma amiga, a filha dela e o meu filho a jantar e, de repente, fiquei com os olhos esbugalhados e a rir-me para as crianças, para tentar disfarçar alguma coisa. Depois ‘apaguei’, levaram-me para o hospital e, duas horas depois, estava a ser intervencionado. Quando acordei, uma semana depois, a primeira coisa que fiz foi levantar-me e a enfermeira, em pânico, mandou-me deitar novamente. Foi quando percebi que estava no hospital, mas nem sequer percebi que tinha sido operado e tinha uma costura. Só dois dias depois é que o médico, com toda calma, me disse. Deu-me vontade de rir.
– Dos nervos?
– Quando digo que tenho cancro dá-me vontade de rir, é uma forma de exorcizar esta questão. Tenho um herói na minha vida, o Frankenstein, e sempre disse que gostava de ter feito esse papel em teatro. Sentir que tenho uma costura na cabeça é uma coisa que me aproxima desse herói [risos]. O que me custa é sentir que as pessoas olham para mim como o coitadinho, que foi operado à cabeça e que vai durar muito ou vai durar pouco.
– Pensou em tudo o que lhe falta fazer?
– O quê não sei, mas sinto essencialmente que me falta fazer muita coisa com os amigos que tenho.
– Como o Gonçalo Diniz? Acabou por receber de volta o apoio que lhe deu recentemente?
– O Gonçalo, para mim, é um irmão, como sei que o sou para ele. É um anjo que apareceu naquele hospital. A maioria das pessoas achou que era um sem juízo, um pateta alegre que andava por ali. E, de facto, foi a pessoa que tentou fazer-me sorrir, assim como as outras duas amigas que me acompanharam: a Joana e a Mafalda.
– A Joana foi a pessoa que acabou por escolher como sua cuidadora?
– Sim. Fui chamado a um gabinete, ainda antes de saber que tinha cancro, e disseram-me que tinha de optar por uma pessoa para me acompanhar, pois não posso viver sozinho nos próximos meses. E a Joana tem sido ótima. Tenho que tomar seis comprimidos por dia, e com ela isso não falha. Agora faço a minha vida normal, a única coisa que tenho evitado é ir à piscina, pois não quero molhar a cabeça. Há alguns cuidados que acho que tenho que ter. Ah... e reduzir a Coca-Cola, o que me tem criado alguma ansiedade.
– Como é que o seu filho tem reagido a tudo isto?
– O Rodrigo está muito ligado ao pai e, quando me viu entubado e lhe explicaram que ia ser operado e que não me podia ver durante sete horas, aquilo mexeu com ele. Quando acordei, percebeu que não lhe ligava muito, porque me cansava, e ele sentiu que eu não era o mesmo pai. A ‘paga’ que tive foi quando fui ter com ele à escola, três dias depois de ter saído do hospital. Nesse dia ele fazia 12 anos e não quis almoçar comigo. Preferiu ficar com os amigos.
– Foi doloroso?
– Sim, mas percebi. À noite comemorámos, mas sempre com uma grande frieza da parte dele, a dizer-me o que é que eu não podia fazer. Tomou o lugar de educador. Agora está mais calmo. O facto de eu fazer o que ele quer sossega-o.
– Sempre teve uma ligação muito forte com o seu filho...
Ele vive com a mãe e está comigo às terças e quintas-feiras e aos fins de semana de 15 em 15 dias. Agora, além deste período que faz parte da lei obrigatória, nós passamos muito tempo juntos. Todos os dias vou à escola. Estou muito presente na vida do Rodrigo. Sou dependente dele. Por isso, achava que era cruel desaparecer da vida do Rodrigo. É quem está lá em cima que me protege: Jesus e a mulher que amei mais na minha vida, a minha avó. Os meus pais separaram-se quando eu tinha quatro anos e fiquei a viver com o meu pai. A minha mãe até deixou de fazer parte do meu imaginário. Quem tomou conta de mim, quem me educou, foi a minha avó.
– Isso explica a ligação tão próxima que tem com o seu filho?
– Acho que aprendi com isso a ser melhor pai, a não estar ausente. Quem esteve sempre presente na minha vida e que senti que me amou foi a minha avó. Ela foi, intrinsecamente, a mulher da minha vida.
– O que é que os médicos lhe disseram?
– Que era, definitivamente, um cancro maligno. Foi removido, 99% está sanado, e pelo que foi analisado até agora, pois ainda falta tirar algumas conclusões, tenho de fazer os tratamentos de quimio e radioterapia durante três meses. Mas sinto-me saudável, brinco com isto. Tenho cancro e rio-me. Não posso fazer outra coisa.
– E em relação ao seu papel na novela Rainha das Flores, já encontraram uma solução para o Moisés?
– Isso foi um grande choque, porque gosto de trabalhar, de fazer a novela, de ser ator, e a primeira crueldade foi terem-me dito que, se calhar, tinham de arranjar uma solução para a minha personagem, porque as pessoas achavam que eu não estava mentalmente capaz. Quando me foram visitar, mudaram de opinião e ficou decidido que entraria mais três ou quatro vezes na novela, para terminar a minha personagem. Mais tarde, em janeiro, entro em gravações para a próxima novela da SIC. E, entretanto, estou a delinear com o Gonçalo Diniz uma peça de teatro em que vamos fazer umas palhaçadas, dizer que o cancro é cruel, que podemos morrer dele, que não tem de nos vencer, temos de ser nós a matar o “caranguejo”. Isto de saber que vou voltar a trabalhar, de sentir que as pessoas gostam de mim... Nós, atores, vivemos com a fragilidade de não saber se as pessoas gostam de nós. Eu devo ao cancro perceber que, afinal, há muita gente que gosta de mim.

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