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Luísa Beltrão: “Foi um desafio reabilitarmos juntos a família”

A autora, que regressa agora à escrita com uma trilogia (“Vitória – de Amor e de Guerra” é o nome do primeiro volume), recebeu-nos em casa, ao lado do marido, Manuel Vasques de Oliveira, engenheiro químico e campeão de 'bridge'.

Rita Ferro
27 de novembro de 2016, 14:00

Nota: por vontade da autora, este texto não segue as regras do novo acordo ortográfico.
Luísa Beltrão, lisboeta, casada – sete filhos, cinco aderentes, 17 netos e uma bisneta – começa por repartir a sua actividade entre a família numerosa – a filha mais nova tem gravíssimas limitações –,

a escola, como professora de Filosofia e Psicologia do ensino secundário, e a escrita. Representa Portugal na Comissão de Trabalho do Conselho da Europa para a Uniformização do Apoio às Pessoas com Deficiên­cia.
Em 1994, inicia a aventura da escrita com Os Pioneiros (Prémio Revelação Máxima), primeiro volume de uma tetralogia a que se seguiram Os Impetuosos, Os Bem-Aventurados e os Mal Amados (1997). Obtém um êxito estron­doso. Escreve mais seis livros, entre ensaio, biografia, conto e romance, e depois renuncia à criação para se entregar de alma e coração a grandes obras sociais. Agora, para alegria dos seus milhares de admiradores, regressa à escrita com o primeiro livro de uma trilogia, Vitória – de Amor e de Guerra, em que num dos volumes o seu próprio pai será personagem. A sua vida pessoal é, toda ela, uma aventura e um exemplo único de coragem, e só ela daria uma das sagas mais fascinantes que a literatura portuguesa poderia oferecer-nos. Recebeu-nos na sua nova casa de Albarraque, serena e feliz, apoiada por 20 dos seus descendentes.
– Nasceu numa família puritana, elitista e ultra-conservadora. O pai dos seus filhos não aprovou que terminasse a faculdade, facto com que nunca se conformou. Casou-se aos 20 anos e, aos 28, já tinha seis filhos. Por outro lado, sabemos que adora cavalos e livros. Foi graças a eles que partiu à desfilada?
Luísa Beltrão – O meu futuro marido não queria casar-se com uma doutora e por isso fui obrigada a deixar a faculdade, a seis cadeiras de terminar o curso, para me dedicar à Obra das Mães. Os livros foram sempre a minha respiração.
– Depois do 11 de Março de 1975, o seu marido resolve empreender uma ‘fuga’ sem rumo pela

Europa, com seis crianças entre os dois e os 11 anos. Oito meses depois, em Novembro de 1975, regressam... Que decide fazer?
– Fugindo ao PREC, toda a viagem foi uma loucura de errância, com um espírito de happening, o dinheiro ia acabando e improvisava-se. A partir daí decidi-me a acabar o curso.
– Cinco anos depois, em 1980, nasce a sua filha Luísa, diferente dos outros, de diagnóstico confirmado por médicos londrinos. Como acolhe o choque?
– Decidi ir trabalhar. Com este abalo, acho que não aguentaria ficar como estava.
– Torna-se depois professora de Filosofia e Psicologia, desafiando a fúria de um marido machista. Com tantos filhos, e a responsabilidade de uma filha dependente, onde arranja tempo e forças?
– Dar aulas tornou-se um ‘bálsamo’. Era onde eu ia buscar a coragem para viver. O trabalho violento era em casa, da escola vinha o prazer do contacto com os alunos com quem tanto aprendi.
– Em 1987 divorcia-se, levando consigo a mais nova…
– Foi muito duro. O divórcio ainda não tinha estatuto moral, e continua a não ter na igreja católica, era uma infracção. Além de que tive de aprender tudo de novo, porque até aí vivia na dependência do meu marido, não sabia mover-me no mundo cá fora, a escola foi um começo, mas era um espaço fechado. Aos 44 anos tive que me fazer à vida, tendo como bagagem um enorme handicap, preconceitos, medos, culpas, inseguranças. Mas tinha de o fazer. Não apenas por mim, sobretudo pelos meus filhos.
– Além de professora, trabalhou sempre na área das pessoas com deficiência. 2004 e 2008 são os anos da criação, respectivamente, da Quinta Essência e da Pais em Rede, esta última dirigida por si. O motor foi a sua filha? Que conseguiu mudar em Portugal nesta área tão carenciada?
– A Luizinha foi o motor de mudança e através dela aprendi a aceitar o que não tem remédio e a lutar pelo possível, que muitas vezes parece impossível. Eu chamava a esta área o mundo do silêncio porque o isolamento e o desespero eram invisíveis. Há muito a fazer ainda, sobretudo na mudança das mentalidades, na forma de olhar e na aproximação à pessoa diferente. Aqui se evidencia o mais grave defeito português, a falta de consciência cívica. Mas também a generosidade da alma lusa. Aprendi a paciência da esperança e, acima de tu­do, aprendi a fazer rede por esse país fora. Sozinhos, nada conseguimos. Já temos 14 núcleos de norte a sul e lutamos para que as pessoas com deficiência tenham um lugar na sociedade.
– O seu marido morre em 1991 e a Luísa Beltrão regressa à casa de família. Como a recebem os filhos e como se adapta, de novo, a uma vida mais exigente do que nunca?
– Eles pediram-me para voltar. A doença e a morte do pai, a casa deteriorada, a falta de dinheiro vivo... Foi um grande desafio reabilitarmos juntos a família. De facto, todos construíram as suas vidas de adultos, ampliaram a família, e admiro-os por isso.
– Depois, conhece o Manuel Vasques de Oliveira, que posa consigo nesta reportagem, engenheiro químico e campeão de bridge, cujo mundo lhe inspira o livro “Todos Vulneráveis”. E deixa de novo a casa de família para viverem juntos. Mais um escândalo?
– Não um escândalo, antes um atrevimento. Parecia impossível conciliar um recomeço destes com uma família enorme... Mas valeu a pena, é uma história de amor.
– Uma indiscrição: pediu ajuda profissional para lidar com tanta preocupação, tanta andança, tanta adversidade? Para lidar consigo mesma, inclusivamente?
– Fiz uma psicanálise individual, o que aos 65 anos é mais um atrevimento. Tem sido uma viagem interior, acompanhada por uma extraordinária terapeuta, que me levou a tomar posse de mim e a criar a minha própria sustentabilidade, para usar um termo actual.
– E agora este novo livro. Que anos abrange e do que trata?
– É uma trilogia familiar que reflecte sobre as colossais mudanças ocorridas na civilização ocidental nos dois últimos séculos. Este primeiro volume passa-se na Primeira Guerra, remontando às raízes diversificadas da heroína, Vitória, desde a Beira, o Ribatejo, o Douro, e até a Borgonha, no século XIX.
– O seu pai entra num dos volumes, em parte por um episódio verídico fabuloso. Quer partilhá-lo connosco como um amuse bouche?
– O meu pai tirou o curso de engenharia em Berlim no início dos anos 30, quando surgia o Nazismo. Nas memórias que escreveu para os filhos conta que foi obrigado a traduzir e a ler na rádio o discurso do Hitler que anunciava ao mundo português as suas intenções. O meu pai guardou consigo esse segredo terrível.
– A Luísa deu à vida tudo o que tinha, incluindo os seus melhores anos. Que lhe devolveu o Universo?
– O sentido de viver, a consciência alargada de que somos seres de continuidade e que podemos impor o possível ao real. Por isso, para mim, a família é o mais importante, ajuda-nos a não nos perdermos no vazio. E a voltar ao princípio quando se falha. Acho que tem valido a pena.

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