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João Lobo Antunes: Uma inteligência invulgar dedicada a salvar vidas

O neurocirurgião estava afastado da cirurgia desde agosto de 2015, devido à doença.

CARAS
11 de novembro de 2016, 13:30

Quando, há cerca de dois anos, soube que tinha cancro da pele, João Lobo Antunes acreditou que seria mais uma luta da qual sairia vitorioso, mas os tratamentos não o salvaram. O ‘cirurgião do cérebro’, que desde o início deste ano esteve várias vezes internado, morreu no início da tarde do passado dia 27, em casa, como sempre foi o seu desejo. “As tristezas injustas são as que mais doem e mais custam a passar. A perda de João Lobo Antunes, neste maldito dia de outubro, só agora começa a fazer-se sentir. Vai levar muito tempo a passar. Sofrer e sentirmo-nos
indignos é o mínimo que podemos fazer”
, reagiu Miguel Esteves Cardoso à morte do neurocirurgião, espelhando bem o sentimento de “uma multidão de pessoas que ele salvou”, como escreveu nessa mesma crónica no jornal Público.
Segundo dos seis filhos do célebre neurocirurgião João Alfredo Lobo Antunes e da mulher, Maria Margarida Machado de Almeida Lima, João nasceu a 4 de junho de 1944, depois de António (escritor e psiquiatra), e antes de Pedro (arquiteto, morreu há três anos), Nuno (neurocirurgião pediátrico), Miguel (programador e gestor cultural) e Manuel (diplomata).
Sedutor e apaixonado, João Lobo Antu­nes foi casado três vezes. Com Ana Maria Plantier Couvreur de Oliveira teve três filhas, Margarida, Maria João e a atriz Paula Lobo Antunes. Do segundo casamento, com Maria do Espírito Santo Silva Salgado, nasceu Madalena. Com a atual mulher, Maria do Céu Machado, pediatra e diretora do serviço de Pediatria do Hospital de Santa Maria, não teve filhos.
Aluno brilhante no Liceu Camões, terminou a Faculdade de Medicina com média de 19,47 valores. Em 1971, voou para Nova Iorque, onde completou os estudos em neurocirurgia e trabalhou no Instituto de Neurologia da Universidade de Columbia. Regressou a Portugal em 1984. O trajeto académico notável deixava adivinhar um percurso profissional de excelência, o que se confirmou. Foi, até 2014, diretor do Serviço de Neurocirurgia do Hospital de Santa Maria, presidente da Sociedade Europeia de Neurocirurgia, do Instituto de Medicina Molecular e era, atual­mente, presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida.
Como vários outros médicos humanistas, João Lobo Antunes evidenciou-se também como escritor – o último livro, Ouvir com Outros Olhos, foi lançado há um ano – e como ‘colecionador’ de amigos que não olhava a género, credo ou estatuto. O reconhecimento público deste humanismo valeu-lhe inúmeras distinções: o Prémio Pessoa, em 1996 (tornando-se, seis anos depois, membro do júri), a Medalha de Ouro de Mérito do Ministério da Saúde (2003), a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique (2004). Em 2014, recebeu a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant’iago de Espada e jubilou-se, escolhendo como tema da última lição Uma Vida Examinada. Já este ano, em abril, recebeu das mãos de Marcelo Rebelo de Sousa a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade. Na esfera privada está ainda o livro de memórias que começou a escrever quando chegou aos 70 anos, como revelou em outubro de 2015 ao Jornal de Letras: “Perguntei a mim próprio o que iria fazer, agora que já não tinha que ir todas as manhãs para o Hospital de Santa Maria, coisa que me dava um enorme prazer. Decidi que ia entreter-me com a minha inteligência. (...) É isso que estou a fazer, a escrever as minhas memórias. A ideia é saber como me fiz cirurgião do cérebro.”

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