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Concha Abecasis: “O amor é o sopro que nos faz viver”

A publicação do seu primeiro livro, “Marcas”, foi o pretexto desta conversa com Concha Abecasis, fotografada em casa, no Restelo, com os filhos, Filipa, Marta e Francisco.

Rita Ferro
30 de outubro de 2016, 10:00

Maria da Conceição de Gamboa Abecasis – ou Concha Abecasis, como assina – é uma mulher elegante e ferozmente secreta, que só depois de muito instada acedeu nesta entrevista. Seria pena não o fazer, pois escreveu um primeiro livro de poemas com que muitas sensibilidades se identificarão. O título, Marcas, não só se adapta à temática dos versos como à sua história pessoal. Sobrevive a dois cancros, salva o marido de morrer afogado, é assaltada dentro do próprio carro com a família – tendo um dos familiares sido gravemente esfaqueado –, divorcia-se, conhece alguém que, três anos depois, virá a morrer no maior sofrimento. Nada disto se entrevê na expressão serena e delicada desta psicóloga de formação, que assumiu cargos de responsabilidade em grandes empresas de aviação e de telecomunicações, e fez uma pós-graduação numa área que a muitos fascina: hipnoterapia clínica. Recebeu-nos na sua casa do Restelo, com uma assombrosa vista sobre o Tejo, onde os filhos, Filipa, Marta e Francisco, respectivamente de 38, 36 e 30 anos – a primeira, designer, os outros, advogados – embora igualmente avessos à exposição, fizeram questão de marcar presença.
– Já se confessou uma leitora ávida e alguém que desde sempre apenas escreve para si mesma. O que a leva a expor-se agora?
Concha Abecasis – Acho que começou por ser um processo inconsciente, uma necessidade imperativa de registar uma fase complicada da minha vida. Escrevi muito nessa fase, sobretudo poemas, que resolvi enviar para uma editora. Queria, ou julgava querer, apenas uma opinião. Como me encontraram algum potencial e a resposta foi positiva, avancei com a publicação quase sem pensar. Vejo agora que todo o processo correspondia à necessidade de fazer uma catarse, de exorcizar esse período e, ao mesmo tempo, deixar o testemunho de uma memória muito importante e que quero manter viva. E daí surgiu essa coragem que, neste momento, confesso, já começa a vacilar [risos].
– O livro tem um título forte: Marcas. Que mais a marcou na vida?
– Marcas é o título de um poema do livro que se refere às muitas marcas que a vida nos deixa, positivas ou negativas. Quem não tem marcas é porque nunca viveu, não amou, não sofreu. A vida é um somatório de marcas que nos vão moldando. Tentando fazer um balanço, acho que a minha vida tem sido marcada pelo amor e pelo desamor, e também por muitos acontecimentos trágicos em várias fases.
– O amor ainda é para si um mistério?
– Considero que o amor assume muitas formas. Existe o amor apaixonado, narcísico e egoísta, com forte carga erótica e sexual, que nos alimenta o ego e que é inevitavelmente temporário. Esse enamoramento ou se extingue ou pode ser uma base para se evoluir para o verdadeiro amor, que é trabalhoso e engrandecedor. São poucos os que o conseguem. E há ainda o verdadeiro amor, altruísta, aquele que serve os outros sem esperar retribuição nem reconhecimento, o amor solidário, cuidador, nem sempre reconhecido, anónimo, que será talvez a forma mais perfeita e difícil de amar. Nas suas diversas facetas, o amor continua a ser um mistério que ainda ninguém conseguiu decifrar. No entanto, é aquilo que nos alimenta, é o sopro que nos faz viver e vibrar. A força que luta contra a morte, a felicidade reencontrada.
– Fale-nos deste livro. Como o resumiria?
– É um livro cujos poemas falam sobre os meus sonhos e frustrações, e também o testemunho de um amor que atravessou diversas fases e terminou numa das variantes de que falo em cima, ou seja, cuidadora e solidária.
– Quanto tempo demorou a escrevê-lo? Como foi o processo criativo?
– Cerca de cinco anos. Nunca escrevi poesia na minha vida, mas um dia acordei com palavras a bailarem-me na cabeça, com algum ritmo, conteúdo, sentimento. Então levantava-me e escrevia o que me ia na cabeça, para não me esquecer. E os poemas foram surgindo espontaneamente, como confidências que eu fazia às páginas em branco, que era quem estava sempre pronto a ouvir-me e a quem podia confiar todos os meus sentimentos: alegria, felicidade, frustrações, sofrimento. E todo este processo criativo teve para mim um efeito terapêutico e equilibrador.
– Sobreviver a tantas vicissitudes não é para todos. A que se agarrou para não desanimar, para não se deixar deprimir, para não se abandonar fisicamente?
– Analisando a minha vida, verifico que já ultrapassei muitas situações complicadas. Por vezes revoltei-me e achei que não era justo; mas depois pensava que havia pessoas que tinham passado por muito mais. Mas, algumas vezes, nas fases mais dolorosas, tive que recorrer à ajuda psicoterapêutica para me manter à tona. Também tive a ajuda de amigas, que sempre foram um grande apoio. Não sou uma super-mulher, mas quando temos obrigatoriamente que ser fortes, quer por nós, quer por pessoas dependentes de nós, não nos podemos dar ao luxo de ir abaixo. Não significa que isso não me tenha acontecido algumas vezes, ficar mesmo em baixo, mas sempre consegui reagir e não me sentar na cadeira da vítima. Mesmo fisicamente, e apesar de também ter tido doenças difíceis, sempre achei importante manter-me cuidada, arranjada, sem me desleixar, pois o aspecto é um grande suporte e tem um enorme impacto emocional, ajuda-nos a sobreviver de cabeça erguida. Nas minhas piores fases, diziam-me: “Estás óptima, com boa cara!” E isso ajudava.
– Teve, por diversas vezes, de cuidar de pessoas que amou. Que lhe ensinou a vida? E a morte?
– Ensinou-me que são situações emocionalmente muito duras, nem sempre justas para connosco. Quando há situações de grande sofrimento, este tem que extravasar para algum lado, geralmente para quem está mais próximo. É difícil lidar com isso. Por vezes senti-me desvalorizada, o que me causou alguma amargura, mas a vida nem sempre é justa. Quanto à morte, ensinou-me que apesar de termos feito tudo o que podemos, nos sentimos sempre culpados por não termos sabido fazer mais e melhor; e quando perdemos a batalha ficamos sós, com um terrível vazio e uma enorme solidão. Demoramos tempo a interiorizar o que aconteceu, a reviver cada momento, mas depois, com o tempo, faz-se o luto e recomeça-se a viver.
– Vai continuar a escrever e a publicar?
– Tenho o projecto de um livro em prosa, mas não sei se vou ter coragem de o fazer. Quanto à poesia, não penso voltar tão cedo.
– O seu irmão, Fernando Abecasis, é autor publicado. Isso poderá tê-la influenciado?
– Sim, o meu irmão já escreveu vários livros, e tenho uma irmã, Carmo Abecasis, que também já escreveu um livro de poesia. Mas nada disso me influenciou.
– Como olha para a sua infância? E para o futuro?
– Penso que embora tenha nascido e vivido em condições privilegiadas, não terá sido uma infância muito feliz. Foi por vezes até um pouco solitária. Talvez por isso tenha começado muito cedo a ser “rebelde” e muito independente, o que me trouxe problemas na infância e na adolescência. mas também tenho recordações positivas de um ambiente familiar divertido e barulhento. O futuro é uma incógnita, mas tenho sempre esperança de que supere o presente.
– Acredita no destino ou sente que nada vence a sua vontade?
– Acredito que as coisas não acontecem por acaso e que surgem na altura certa por algum motivo. Já senti isso por diversas vezes na minha vida. O que acontecia obedecia a uma qualquer razão misteriosa e parecia ser comandado por alguma força superior. Não me considero invencível, sou muito mais fraca e vulnerável do que aparento; espero continuar a ter forças para seguir em frente. Acho que já ganhei resistência e experiência para enfrentar qualquer coisa, não tenho medo da vida. Só peço é que ela me vá dando intervalos que me permitam recuperar para prosseguir.

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