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Hillary, a mulher que venceu Bill Clinton

O perdão pelo caso Lewinsky será recompensado com o regresso à Casa Branca.

Ana Paula Homem
29 de outubro de 2016, 18:00

Hugh e Dorothy Rodham tinham razão quando acharam que Hillary, a mais velha e única rapariga dos seus três filhos, estava predestinada a um futuro especial e a incentivaram a prosseguir estudos universitários. Pertencentes à classe média conservadora de Chicago – Hugh era um pequeno mas bem sucedido empresário têxtil, Dorothy era doméstica –, sabiam que tinham em casa uma menina exemplar: nascida a 26 de outubro de 1947, Hillary era aluna de quadro de honra, praticava vários desportos, era uma escuteira dedicada, participava com entusiasmo em diversas atividades da igreja metodista que a família frequentava e, aos 13 anos, já fazia voluntariado no Partido Republicano.
Moviam-na, já nessa altura, questões como os direitos dos negros (em 1962 conheceu pessoalmente Martin Luther King), das mulheres e das crianças, e preocupavam-na temas como a pobreza, a saúde, a educação, a habitação. E porque já então se descrevia como tendo “uma mente conservadora e um coração liberal”, o seu corte com os republicanos aconteceu logo em 1968, quando estudava Ciências Políticas numa universidade feminina, o Wellesley College. Terminado o bacharelato, no ano seguinte ingressou na Faculdade de Direito da prestigiada Universidade de Yale, onde em 1971 conhece um rapaz do Arkansas também ele interessado em política e, como ela, anti-Guerra do Vietname: William (Bill) Clinton.
Hillary e Bill começam a namorar e pouco depois, quando terminam o curso, viajam para a Europa, onde ele a pede em casamento pela primeira vez. Focada no seu futuro profissional – ambiciona uma carreira nas barras dos tribunais –, recusa e recusará outros pedidos até 74, quando se muda para o Arkansas para se casarem no ano seguinte, numa cerimónia celebrada na sua residência.
Nos anos seguintes, mantendo o nome de solteira, trabalha como advogada (muitas vezes pro bono) e dá aulas numa universidade. A sua vida parece decorrer à sombra das ambições de Bill, que faz dela primeira-dama do Arkansas de 79 a 81 (em 1980 nasce a única filha do casal, Chelsea) e de novo de 83 a 92. Sempre com o apoio de Hillary, que entretanto já começara a usar o seu apelido, em 1993 Bill concorre à Casa Branca e vence, transformando-a em primeira-dama do país.
Em 1998, o aparente estoicismo com que lida com o escândalo Lewinsky, perdoando a infidelidade e a humilhação e mantendo o casamento contra todas as expectativas, dão-lhe níveis de popularidade que nunca tivera. E daí para a frente inverte radicalmente o seu percurso: em 2000 sai da sombra e torna-se senadora por Nova Iorque (é a primeira mulher de um presidente a concorrer a um cargo executivo). Bill dá-lhe total apoio. E volta a dar-lho em 2008, quando concorre às presidenciais, em que é vencida por Barack Obama. Pouco depois, Obama convida-a para secretária de Estado. Ao aceitar a pasta dos negócios estrangeiros das mãos do homem que a derrotou, Hillary demonstra que a sua vontade de trabalhar é maior que a sede de poder que lhe atribuem. E, no terreno, pode provar que tem voz própria e não é apenas uma marioneta do marido, como muitos diziam ser. Reconhecido internacionalmente o seu papel diplomático, é considerada uma das mulheres mais influentes do mundo. As pessoas passam a olhar menos para o seu penteado e guarda-roupa e a estar mais atentas ao que diz e faz. Em 2013, deixa o cargo, mas a popularidade persiste e, em 2016, torna-se a primeira mulher a concorrer à presidência nomeada por um grande partido. A 8 de novembro, os americanos escolherão entre a democrata Hillary e o conservador Donald Trump. Se ganhar a primeira, abre-se todo um novo capítulo na política mundial. E o casal Clinton regressa à Casa Branca com os papéis invertidos. Este será o preço que Bill pagará pelo ‘deslize’ Lewinsky.

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