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Seis anos depois de perder o filho, Paulo Sousa Costa volta a ser pai de um menino

“Estou a passar por um processo complicado, porque agora quando digo ‘o meu filho’ já não me refiro apenas ao Paulinho”, explica.

Marta Mesquita
22 de outubro de 2016, 16:00

No dia 21 de setembro de 2010, Paulinho morreu com apenas seis anos, vítima de uma leucemia fulminante. Seis anos e três dias depois, o seu pai volta a ter nos braços outro filho rapaz, que por pouco não nasceu na data em que o irmão comemoraria o seu aniversário, 28 de setembro. Apesar de parecer a sinopse de um filme dramático, este é o guião da vida de Paulo Sousa Costa, que tem agora de lidar com sentimentos tão antagónicos. Se por um lado a companheira, Carla Matadinho, e os filhos de ambos, Letícia, de quatro anos, e Sebastião, que tem apenas uma semana, são alavancas de amor que o empurram para o futuro, por outro, a perda do filho e as sau­dades constantes roubaram-lhe a alegria e o sorriso, que ficaram presos nas fotografias do passado. Contudo, nos dias melhores ou nos piores, o fundador e diretor artístico da Yellow Star Company continua a fazer do “desistir não é opção” o seu lema de vida, recusando aceitar o papel de “coitadinho”.
Aos 48 anos, Paulo diz que é um homem que ainda gatinha e que se esforça por conseguir andar. Contudo, é também alguém que ainda sonha poder vir a correr, reencontrando neste caminho tão sinuoso a pessoa feliz que um dia foi.
– Seis anos e três dias depois de o seu filho Paulinho ter morrido, foi pai de outro menino. Como é que gere sentimentos tão contraditórios?
Paulo Sousa Costa – O melhor ou pior guionista não escreveria uma história como esta. Em 365 dias que o ano tem, termos um filho a nascer tão perto de datas tão marcantes parece uma loucura. Nem sei bem o que pensar... São datas terríveis para mim. Estou a passar por um processo complicado, porque agora quando digo ‘o meu filho’ já não me refiro apenas ao Paulinho... Mas, como digo sempre, desistir não é opção.
– E que pessoa tem sido nestes seis anos? O Paulo que era quando o seu filho partiu é o mesmo que é hoje? Ou o tempo, de alguma maneira, ajudou-o a encarar as emoções de outra forma?
– Há dois Paulos na minha vida: o Paulo que era antes e o Paulo em que me tornei depois de tudo o que aconteceu. E o Paulo que sou hoje é o mesmo que era logo no dia em que perdi o meu filho. Fiquei uma pessoa mais triste e não há maneira de mudar isso. Restou muito pouco do Paulo que era antes desta tragédia. Ainda tenho um longo caminho para percorrer... Não sei, sinceramente, se voltarei a ser aquele Paulo. A Carla luta muito por isso e a minha filha, mesmo sem saber, dá-me também essa força.
– E o facto de ter mais dois filhos não lhe dá o ânimo para recuperar esse Paulo?
– A minha filha obriga-me a brincar com ela, mas a iniciativa é sempre dela, nunca é minha. Todos os dias olho para a Letícia e penso que ela não pediu para nascer e também já é vítima de tudo isto. Ela não pode ter um pai que não a faça feliz. O que faço é chorar com um olho e rir com o outro. A Letícia é uma criança muito feliz e esforço-me muito para ser o melhor pai do mundo, mas sei que não o sou. Contudo, se calhar já sou um grande pai por estar com ela e não desistir.
–Depois de escrever o livro Desistir Não É Opção!, onde relata a sua história com o seu filho, o Paulo tornou-se uma referência, uma espécie de âncora, para outros pais que perderam os filhos. Esse papel também o tem ajudado neste caminho?
– Recebo muito carinho das pessoas e estou eternamente agradecido por isso, daí esforçar-me por responder a todas as mensagens que me enviam. Contudo, isso não me ajuda especialmente. Passei a ser um lutador e um sobrevivente, porque tenho de lutar todos os dias para não cair, apesar de andar caído muitos dias. Como costumo dizer, rastejar também é andar em frente. Há alturas em que rastejo, outras em que gatinho e outras em que já ando. Contudo, nunca mais consegui correr. Comecei por viver um segundo de cada vez, depois um minuto e, seis anos depois, já consigo viver um dia de cada vez.
– Mas acredita que um dia vai deixar de sobreviver para passar a viver?
– Adorava que isso acontecesse. Tenho muitas saudades de mim. Era uma pessoa muito animada e feliz. E quando já não somos assim, é muito difícil fazer felizes os que estão à nossa volta.
– É preciso alguma resiliência para lidar consigo diariamente?
– Sim, por isso é que muitas relações acabam, porque a outra pessoa passa a viver com alguém completamente diferente. E fui perdendo muitos amigos, porque as pessoas deixaram de se identificar comigo, o que compreendo. É mais um efeito secundário desta coisa terrível que é perder um filho. Não é fácil viver com alguém que passou por esta tragédia, porque a nossa personalidade muda e não é para melhor.
– Na primeira entrevista que deu depois da morte do Paulinho, em março de 2011, disse-nos: “Não olho para o futuro”. Contudo, quando se tem mais filhos é difícil não o fazer...
– É... Sou sempre traído pelo apelo da paternidade. Outra forma de desistir de mim era não ter mais filhos, até porque não conquistei o direito de esta tragédia não me voltar a acontecer... Mas o que sempre disse foi que se me dessem a escolher não ter tido o Paulinho ou passar por tudo novamente, não abdicava dos anos maravilhosos que tive ao lado dele. Nós vivemos uma felicidade em que tocámos o céu. Daí também não ter abdicado de ter mais filhos. Continuo a não olhar para o futuro, mas não posso deixar de viver o presente. E o trabalho também tem sido muito importante ao longo deste processo. Quando estamos ocupados não pensamos noutras coisas. Além do teatro, também investi nos estudos ao fazer o mestrado em Encenação. Já fizemos muitas peças de teatro e isso acaba por ser uma forma de me sentir bem ao longo do dia. Tenho gostado muito de escrever e encenar as peças infantis que é, talvez, o que mais me realiza.
– Em muitas das partilhas que o Paulo e a Carla fazem mencionam que a Letícia se refere ao “mano que está no céu”. Este “céu” dá-lhe algum conforto?
– O único sítio bom em que posso imaginar o meu filho é ao meu lado. Não consigo perceber qualquer outro sítio onde ele possa estar. Fui batizado, fiz a catequese e os meus pais sempre tiveram relação com a Igreja, mas depois disto tudo passei a ter um outro problema, que é o de não conseguir aceitar qualquer explicação para o que vivi. Fiquei completamente de costas viradas para Deus, porque não consigo perceber o que me aconteceu. Era a Deus que ia buscar muita força nos momentos mais difíceis, mas depois de perder o meu filho deixei de o fazer. Não sei se no futuro vou recuperar essa fé, tal como o prazer pela vida. Continuei a respirar, mas deixei de desfrutar. Estive seis anos sem ir à praia e este ano já fui. São pequenos passos.

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