Nas Bancas

Paula Marcelo: “Onde quer que o Camilo esteja, quero que se orgulhe de mim”

De voz embargada e um brilho permanente no olhar, a atriz falou-nos dos anos que viveu com Camilo de Oliveira e contou como tem lidado com o luto.

Andreia Cardinali
25 de setembro de 2016, 10:00

“Tenho vivido um dia de cada vez. É estranho sentir que o mundo continua como se nada tivesse acontecido, mas aconteceu. Eu perdi uma parte de mim...” É assim que Paula Marcelo, de 49 anos, tenta explicar como tem vivido este tempo após a morte de Camilo de Oliveira, de 91, com quem partilhou a vida durante 35 anos. O ator morreu a 2 de julho, no Instituto das Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus, em Belas, onde estava internado há três semanas, nos Cuidados Paliativos.
Nessa altura a atriz começou a receber acompanhamento psicológico, que decidiu manter para mais facilmente lidar com o luto.
Foi sobre esta nova fase, mas também sobre as três décadas que viveu ao lado do ator, a última já com Camilo a lutar contra o cancro, que conversámos com Paula num encontro dominado pelas emoções.
– Foram 35 anos de crescimento, a dois. Tem conseguido seguir em frente?
Paula Marcelo –
Penso nas coisas que o Camilo mais gostaria que eu fizesse daqui para a frente. É continuar como se ele estivesse ao meu lado a dizer: não faças isto ou aquilo. Se calhar agora tenho um bocadinho mais de respeito pelos conselhos que me dava.
– O Camilo nunca soube que tinha cancro. Foi uma forma de o proteger?
Sim. Conhecendo-o como conhecia, acho que se o Camilo soubesse da doença que tinha ter-se-ia deixado levar muito mais rapidamente. Não sabendo, conviveu bem com as mazelas que foram surgindo, foi superando algumas, como se nada acontecesse.
– Isso acabou por lhe trazer um peso maior...
Não foi só para mim, mas também para o Cami, filho do Camilo. Nunca tomei nenhuma decisão sozinha sem falar com o Cami. Nunca mentimos, mas omitimos muita coisa e ele viveu bem assim.
– Nestes últimos dez anos a Paula tornou-se cuidadora do Camilo...
Não foi algo consciente. Uma pessoa fica disponível para a outra a cem por cento. Só há pouco tempo tive consciência dessa palavra: cuidadora... Quando no fundo eu fui sempre protetora. Acho que não se pensa, as coisas acontecem. Deixamos de ser nós e vivemos em função daquele problema e da pessoa. Deixa-se tudo para trás...
– Deixou de trabalhar, por exemplo...
Em parte, sim. Este ano ainda trabalhei, porque era perto de casa e tinha alguém a ajudar-me. Ainda consegui fazer um trabalho com idas ao hospital e tudo o mais.
– Deduzo que agora queira regressar ao trabalho.
Sim, tem de ser. Há um projeto, uma peça do Celso Cleto. Logo se verá. Se não for isso, será outra coisa. Não tenho medo de trabalhar e, se necessário, faço qualquer coisa.
– Há na realidade uma necessidade de voltar ao trabalho, já que as vossas poupan­ças foram gastas nesta fase da doença.
Sim, foram gastas nestes últimos dez anos ou mais, já que o último projeto do Camilo foi Camilo, o Presidente e, desde aí, eu tive apenas projetos pontuais. Não foi só a doença que levou o dinheiro, foi o facto de ele não estar a trabalhar e do pouco que eu ganho não ser o suficiente. Não estou na miséria, até porque tenho os meus pais e irmã que me ajudam, mas tenho de começar a trabalhar este ano.
– A doença do Camilo começou há dez anos e desde então tudo foi mudando. É fácil deixar que esta última década não ‘abafe’ os 25 anos anteriores?
É, não abafou de maneira nenhuma. Não foi um sofrimento deliberado, que ele me tenha causado porque quisesse, podia ter sido o contrário. Estes 35 anos foram uma vida, uma vida em conjunto.
– Como é que se volta caminhar?
[chora] Isso ainda não sei... Essa é a parte mais difícil.
– Estar acompanhada é fundamental nesta fase...
Mesmo quando estamos acompanhados, há sempre alturas em que estamos sós e é aí que me agarro às coisas boas, que procuro ouvir os conselhos dele e não o defraudar. Onde quer que o Camilo esteja, quero que se orgulhe de mim.
– A doença deixou o Camilo muito debilitado fisicamente. Deve ser uma imagem difícil de esquecer...
Muito. Nos últimos três dias ele deixou de falar, só queria dormir. Mas respondeu-me sempre. Ouviu-me até à última.
– No final, quando percebeu o que estava a acontecer, teve o cuidado de a confortar.
Sim [chora]. Acho que sim. Hoje, ao lembrar-me de conversas que ele teve comigo durante o período em que esteve em casa, acho que estava a preparar-se e sabia que já não estava a recuperar a cem por cento. Mas continuo a achar que, de todas as vezes em que lhe dissemos que a recuperação ia ser mais complicada, que ele ainda não tinha recuperado do ano passado [da neoplasia nos intestinos], no fundo, ele foi dando recados. Ele sabia e chegou a dizer que a maior preocupação dele era eu e os filhos.
– Acha que ele sofreu?
O Camilo esteve acamado um mês, de resto, levantava-se, mexia-se e esteve mais cingido a um quarto para estar protegido.
– Só nesse último mês é que recorreram aos cuidados paliativos?
Foram três semanas. Se não o tivessem chamado, teria morrido em casa.
– Como era o dia-a-dia em casa?
Eu acordava, dava-lhe o pequeno-almo­ço, a medicação, aproveitava alguns momentos para ir ao supermercado e ia vendo, através da câmara que tínhamos, se ele se levantava. Era assim...
– Calculo que tivesse esperança de que ele vencesse esta batalha...
No fundo temos sempre essa esperança, que aconteça um milagre.
– Muito se tem falado do facto de o Camilo estar casado com a primeira mulher [Luísa Oliveira]. Como se resolve isso juridicamente?
Nós vivíamos em união de facto e isso está mais do que provado. Esta semana tive de tratar de alguns assuntos na Junta de Freguesia e tive de provar que estávamos em união de facto, com duas testemunhas. No ano passado, o Camilo passou uma procuração para que ela assinasse o divórcio, mas não a conseguiram encontrar. Acho que depois de ele falecer, essa procuração perde a validade, mas a minha advogada vai tentar provar que eu vivia com ele, para que legalmente cheguem à senhora e ela possa abdicar dos seus direitos. Se assim for, eu receberei uma pensão, se não, será dividida pelas duas. Mas não é isso que me preocupa. Aliás, nunca me preocupei. Foi uma vontade dele no ano passado e acho que isso deveria ser feito. Já tínhamos tentado há uns anos, quando ele me pediu em casamento, mas não conseguimos.
– Porque é que não conseguiram?
Não conseguimos chegar até à pessoa, ela não aceita as cartas... Ainda não percebi muito bem. Mas também isso nunca me preocupou, nunca estive com o Camilo por causa disso. Para mim, o casamento não era importante, mas sim a palavra. Assumi com ele um compromisso que cumpri até ao fim. O resto... Não tenho mágoa nenhuma, não me arrependo de não ter casado, tenho uma coisa que mais ninguém tem: as boas recordações com ele. Cresci com ele, ensinou-me imenso, a pessoa que sou hoje tem muito a ver com o que ele me ensinou, e isso ninguém me tira e não há dinheiro nenhum que pague.
– Nesta fase de luto é fundamental ter o apoio de alguém especializado que a ajude a enfrentar a dor...
Tenho a psicóloga para quem a seguran­ça social me encaminhou na sequência dos cuidados paliativos. Não fazia a mínima ideia de que era tão importante e possivelmente teria sido ainda pior se não tivesse esse apoio. Por muito que achemos que estamos preparados, nunca estamos. Fazem tudo de uma maneira muito subtil, na altura nem nos apercebemos, mas depois, quando as coisas acontecem, temos outra estrutura. Inclusivamente, foram-me avisando de conversas que o Camilo teria comigo e que teve mesmo... e com isso eu consegui estar mais preparada para essas ocasiões e até saber o que lhe dizer e o que fazer. Consegui fazer as coisas com mais tranquilidade.
– Não terá essa tranquilidade serenado o Camilo?
Claro que sim. Tenho quase a certeza absoluta de que sim, daí a minha tranquilidade...
– Acorda de manhã com vontade de continuar, olhar ao espelho, arranjar-se?
Ainda não estou nessa fase. Mas há dias em que penso que ele não gostaria de me ver assim e faço um esforço para me arranjar. E é assim que vou arranjando forças. Sempre fui muito descontraída e ele dizia: tens de te arranjar, és uma miúda nova... Essa voz ainda está dentro de mim. Ele dizia-me sempre para sorrir muito, houvesse o que houvesse [chora].
– Houve uma despedida?
Várias. O último dia para mim foi de despedida. Possivelmente ele esteve à minha espera até às 19h30. Não houve nenhuma conversa, eu dei-lhe um beijinho na cara, que estava fria, e outro na testa, que estava quente. Duas horas depois recebi a notícia [pausa].
– Tem 49 anos. Consegue projetar o futuro?
Não sei se isto é normal para quem perde alguém, mas olho para o meu futuro como se ele estivesse protegido, porque agora acredito que o Camilo, onde quer que esteja, vai ajudar-me [chora]. Acho que ele vai pôr no meu caminho o que achar melhor.
– Embora seja prematuro, há condições para voltar a acreditar no amor?
Eu amo de muitas maneiras. Tenho uma família que amo muito e que tem sido o meu pilar, tenho amigos e o Camilo pediu-me sempre para eu ser feliz. Dizia-me sempre: “No dia em que eu partir, tens tempo para viver tudo. Sê feliz.” E eu vou tentar.

Comentários

ATENÇÃO: ESTE É UM ESPAÇO PÚBLICO E MODERADO. Não forneça os seus dados pessoais (como telefone ou morada) nem utilize linguagem imprópria.

Nas Bancas

Newsletters

Receba grátis no seu email as notícias, as últimas caras!

Caras Nas Redes

Mais na Caras