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A nova Raquel Tavares: “Mais do que ser fadista, quero ser artista”

Uma passagem pelo Brasil deu-lhe novo alento e inspiração para a sua carreira depois de oito anos sem gravar. O álbum “Raquel” prova que a fadista tem outras vozes.

Andreia Cardinali
7 de agosto de 2016, 12:00

Segura de si própria, da sua voz e do caminho que quer percorrer, Raquel Tavares há muito que deixou para trás a menina fadista que iniciou a carreira aos seis anos. Hoje tem 31 e é uma mulher “cheia de mundo”, muito mais completa e uma verdadeira intérprete, mas que nunca esquece as suas raízes: o fado. Raquel, disco resultante dessa descoberta, é o seu mais recente projeto, aquele que a fez voltar a acreditar que valia a pena continuar, oito anos após o seu último álbum.
– Foram precisos oito anos para voltar a fazer um álbum...
Raquel Tavares –
Sim. Foram oito anos muito gratificantes, de autoconhecimento, de redescoberta, de muitas viagens, muitas partilhas de palco e de música. Saí da minha zona de conforto, que era o fado, e percebi que afinal se pode ser feliz longe de Lisboa, neste caso no Brasil. Percebi que há outros géneros de música que me fazem tão feliz quanto o fado. Ganhei outras ferramentas e, acima de tudo, cresci.
– Foi premeditado?
Não, de todo. Quando gravei em 2008 e a indústria impunha que o voltasse a fazer dois anos depois, eu não estava preparada, achava que não tinha nada a acrescentar. Disse que não gravava e andei a adiar... Pensei até que não ia voltar a gravar fados nem voltar à vida artística, estava embrenhada noutras coisas. É claro que no Brasil, onde passei a maior parte desse tempo, apaixonei-me pelo samba de raiz, que mudou por completo a minha vida e forma de estar na música. Eles têm uma forma muito feliz de cantar a tristeza e foi isso que aprendi. Aprendi também a ser despreconceituosa, pois vinha de um meio tradicional do fado, com uma série de regras que impus a mim mesma. Quando achei que estava na altura de me ir embora e ir viver para o Rio de Janeiro, o meu manager, o João Pedro Ruela, fez-me o desafio de criar um disco com a bagagem toda que tinha adquirido. E aquilo sim, fez-me sentido. Assim nasceu Raquel.
– Um álbum feito por uma intérprete e não uma fadista?
É isso mesmo. Nestes oito anos nasceu uma intérprete mais versátil, muito mais feliz e sem medo do que canta. Este é um álbum cheio de portugalidade, mas não é um álbum de fado. Na verdade, este disco tem imensa tradição, mas portuguesa. Tem uma enorme dinâmica, com muitos altos e baixos emocionais e era isso que queria, chegar às pessoas, fazê-las rir e chorar, como num espetáculo ao vivo.
– E a ideia agora é ficar em Portugal ou continua a vontade de partir para o Brasil?
Obviamente, a minha ideia é solidificar-me cá, mas também gostava muito de fazer carreira na América latina. Adoro a Europa, mas o lado latino tem muito mais a ver comigo. O Brasil é o meu maior objetivo, ganhei muito lá, sou esta artista deste disco por causa deles. Foram três anos muito intensos, subi o morro, cantei nas rodas de samba, desfilei na avenida... vivi o Rio como poucos cariocas.
– O que é que os seus amigos e a família acham desta nova fase?
Acham que sou uma pessoa muito melhor, mais otimista [risos]. Adorei tudo o que vivi. E atenção, ninguém gosta mais de Portugal do que eu, e quanto mais viajo mais gosto da minha terra. Mas no Brasil tornei-me de facto uma pessoa melhor.
– Essa mudança também lhe trouxe vontade de encontrar serenidade a nível amoroso, ou para já isso não está nos planos?
Durante o tempo em que estive parada deu para pensar nessas coisas todas, mas agora algo se impõe, que é o meu trabalho. Para já não tenho tempo. Depois, o que se impõe agora sou eu. Durante muito tempo pensei nos outros, agora penso em mim e quero dedicar-me, francamente, a isto. É quase como se me tivesse proposto a uma última oportunidade. Eu estava tão descrente na minha presença artística neste país que agora que esta oportunidade surgiu e está a correr tão bem, tenho de a agarrar com unhas e dentes. Não tenho tempo a perder com outras coisas, como constituir família e tudo o mais. É claro que penso nisso, mas não será de todo nesta altura, até porque depois acaba por nos condicionar. Ou bem que sou artista, ou não. Agora decidi que, mais do que ser fadista, quero ser artista.

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