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Sónia Matias: “Sempre fui feminina e vaidosa”

A cavaleira tauromáquica, de 37 anos, apresenta à CARAS o namorado, Nuno Guedes Domingues.

Cláudia Alegria
6 de agosto de 2016, 10:00

Era criança quando revelou aos pais que queria ser cavaleira. Ao contrário do que inicialmente a família pensou, não se tratava de um capricho, mas de um sonho. E Sónia Matias fez questão de provar que a sua determinação e espírito de entrega seriam suficientes para conquistar lugar num meio tradicionalmente reservado a homens. Aos 37 anos, orgulha-se de ter sido a primeira mulher a profissionalizar-se – tirou a alternativa com João Moura, em 2000 –, licenciou-se em Gestão de Ambiente e mantém o entusiasmo pelo mundo tau­romáquico que a conquistou em criança. Ao lado de Nuno Guedes Domingues, gestor de Sistemas de Informação, com quem namora há cerca de três anos, a cavaleira falou com a CARAS durante uma tarde passada no Monte de Santo Isidro, em Samora Correia, propriedade do amigo José Palha.
– Nasceu em Lisboa, mas deixou-se entusiasmar muito nova pelas touradas.
Sónia Matias –
É verdade. Os meus pais eram aficionados e gostavam de assistir às corridas no Campo Pequeno. Foi aí que surgiu este meu fascínio e, aos 12 anos, decidi que queria ser toureira. Inicialmente, foi um espanto para toda a família, pois ninguém estava diretamente ligado aos touros. Achavam que era um capricho de menina que acabaria por passar, mas não passou. Foi um capricho que durou e continua a durar.
– Da vontade à concretização vai uma longa distância. Como é que alguém fora do meio consegue iniciar carreira na tauromaquia?
– Felizmente tive uma família fantástica que cedeu a esse capricho. Na altura o meu pai tinha possibilidades económicas que me permitiram ter instalações para os primeiros cavalos. Ajudou-me na fase inicial e, claro, continua a ajudar-me como pai, caso contrário teria sido muito difícil. Mas comecei tudo do zero, claro. Fui construindo a casa devagarinho.
– Mas com bons alicerces, calculo?
– Sim. Sou muito lutadora, tenho muita força de vontade. Sou apaixonada pelo que faço, continuo a treinar assiduamente e com a mesma dedicação, sei que tenho muito que evoluir. Tudo isto me tornou uma pessoa mais forte e sempre acreditei que conseguia.
– A sua persistência provou que não devemos desistir dos sonhos?
– Não é fácil uma criança de 12 anos decidir que quer ser isto, ainda por cima sendo mulher. Todos achavam que acabaria por desistir quando casasse e tivesse filhos.
– Mas não casou, não teve filhos, nem desistiu...
– E sou cavaleira, sim. Acredito que, mes­mo que me tivesse casado, haveria tempo para tudo. Sempre consegui gerir a minha vida assim. Tanto que, simultaneamente, tirei a licenciatura. Se algo me incapacitasse de tourear, não ficaria a zeros.
– Durante 18 anos, o seu pai geriu a sua carreira enquanto apoderado. Deixou de o fazer recentemente. Porquê?
– Porque durante todos esses anos acabei por ter mais um apoderado do que um pai. Por mais que começassem com temas familiares, as nossas conversas acabavam sempre por incidir em questões profissionais. Quis tentar viver mais a presença dele enquanto pai.
– Sentiu falta dessa relação entre filha e pai?
– Um bocadinho. Houve sempre um pai presente, principalmente quando havia situa­ções mais desagradáveis, como uma queda. O meu pai chorava e, nessa altura, dizia-lhe: “És meu apoderado, não podes chorar!” A determinada altura senti falta de ter um pai presente, daí ter optado por ter um novo apoderado.
– Como é que ele reagiu a essa decisão?
– Acabámos por ficar ambos um bocadinho tristes, mas ele entende.
– Entretanto, encontrou o Nuno, que já conhecia há alguns anos.
– É verdade. Fomos colegas de faculdade, mas cada um seguiu o seu caminho. Só passados uns anos é que nos voltámos a encontrar. É engraçado porque, de facto, o mundo é pequeno. Acabamos sempre por encontrar as pessoas certas à hora certa. Foi o que aconteceu connosco.
– Namoram há cerca de três anos. Já houve pedido de casamento?
– Ainda não. Falamos nisso pontualmente mas, para se construir uma relação que possa ter futuro tem de haver bons alicerces, como uma grande amizade e companheirismo.
– Nuno, o casamento pode acontecer um dia destes?
Nuno – Sim, ou podemos ir viver juntos e ter um filho. Logo se verá. As coisas acabam por acontecer naturalmente. Estamos muito bem um com o outro. A Sónia é muito generosa e amiga, muito divertida e transmite-me boa disposição. É muito bonito ter filhos e casar mas, por outro lado, vê-la abdicar daquilo que ela mais gosta de fazer durante um ano pode ser um ponto final na sua carreira. As coisas acontecerão naturalmente.
– Ser mãe é um sonho?
Sónia –
Sem dúvida, mas a seu tempo.
Nuno – Ela está numa ótima fase da carreira e, seja pelas responsabilidades que tem, seja por estar numa idade em que consegue estar no topo do ranking do toureio português, ter que abdicar de um ano inteiro de corridas torna-se financeiramente insustentável. Não há ninguém que cubra as despesas para sustentar os cavalos que ela tem durante um ano sem corridas. Gostávamos de poder avançar, mas as contas falam mais alto.
– No meio da tauromaquia, há sempre rituais e superstições. Quais é que gosta de cumprir religiosamente?
– Entrar sempre na praça com o pé direito, por exemplo. Gosto de acender umas velas para pedir proteção e, quando regresso ao quarto, volto a acendê-las para agradecer, independentemente do êxito das corridas. Também houve outras que fui perdendo. Só me vestia em quartos ímpares, o que dificultava muito a vida a quem marcava os quartos nos hotéis... Há muitas superstições, como não usar nada amarelo, pois é sinal de que a coisa não vai correr bem, ou nunca colocar o chapéu tricórnio em cima da cama e deixar sempre as luzes do quarto acesas até regressar da corrida.
– Foi a primeira mulher a profissionali­zar-se. Sente que teve de provar mais o seu valor por ser mulher?
– No início, sim, não foi fácil. Chorei muitas vezes porque colegas meus não queriam que eu entrasse na corrida. Para mim não fazia sentido nenhum. Nós, mulheres, somos tão boas quanto os homens em todas as áreas. Eu nunca entrei neste meio procurando facilidades, nunca quis escolher os touros mais pequenos, sempre defendi o direito à igualdade. Essa fase foi complicada, mas depois houve o reverso da medalha. Consegui, aos poucos, adquirir o meu espaço, fui atingindo os meus objetivos, e passei a ser solicitada não só pelo público, mas também pelos empresários. Agora dou-me bem com todos, respeitam-me imenso e fiz grandes amizades, que é o mais importante de tudo.
– Faz sempre questão entrar na arena com uma imagem cuidada e feminina?
– Sempre. Passo horas a pentear-me mesmo sabendo que depressa fico despenteada. Não interessa. Sempre caprichei e irei continuar a fazê-lo. Não só por ser mulher, mas porque também sou muito vaidosa.
– Teve a iniciativa de procurar a estilista Fátima Lopes para criar a sua casaca.
– A casaca tradicional era utilizada por senhores desde o tempo de Luís XV. Quan­do tirei a alternativa, há 16 anos, segui as regras que nos eram impostas mas, há uns cinco anos, comecei a pensar em usar uma casaca com um corte mais feminino. Falei com a Fátima Lopes, cujo trabalho admiro, e como ela adora desafios, aceitou. Acho que foi muito bom para a festa trazer esta inovação.

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