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Pureza Pinto Leite: “A minha vida é uma história de amor”

A bailarina, actriz, produtora teatral, praticante de artes marciais e especialista em ‘ayurveda’ foi fotografada na companhia de um dos filhos, Tarot Baião, músico guitarrista, e uma das duas filhas deste, Marta, de dez anos.

Rita Ferro
6 de agosto de 2016, 12:00

Chama-se Pureza Pinto Leite e a sua história é fabulosa: é bailarina, actriz, produtora teatral, praticante de artes marciais e perita em ayurveda. Tem 59 anos, dois filhos: o Tarot P. L. Baião, de 41 anos, músico guitarrista que acompanhou a mãe nesta sessão, e o Pedro P. L. Johnston, 23 anos, desenhador de som, que vive em Vila Nova de Milfontes, e duas netas filhas de Tarot: a Marta, com dez anos, que posou também para nós, e a Clara, 19 anos, que estuda Literatura Inglesa na Universidade de East Anglia. Nasce em Roma; aprende dança clássica e moderna com os melhores mestres de Lisboa e Paris; cursa teatro, participa em espectáculos de rua em Itália; forma um grupo de dança em Lisboa com Benvindo Fonseca; junta-se a uma companhia internacional e interpreta Shakespeare e Brecht; adapta peças de Bulgakov e Steinbeck; empreende uma tournée pela Europa, brilhando em festivais como os de Amesterdão, Zurique e Lausanne; segue-se a Austrália, ao longo de 15 meses, através dos festivais internacionais de teatro de Perth e Adelaide, e itinerâncias que incluem reservas aborígenes, com uma tenda de circo; trabalha ainda em Moscovo, Leninegrado, Varsóvia, Praga, Berlim, Copenhaga, Basileia, Paris, Marselha, Escócia e Tunísia. Em 1994, funda e coordena com o marido o tão prestigiado Teatro ao Largo, desempenhando como actriz principal, ao longo de dez anos, peças de Goldoni e Gil Vicente, entre outros. Ministra Teatro em escolas, encena textos para reclusas e idosos, lecciona Movimento e Expressão Corporal, encena e produz espectáculos para a televisão britânica, interpreta o papel de enfermeira Ana em A Lenda da Garça. Foi instrutora de tai chi e yoga. Em 2008, vira-se para o conhecimento da medicina ayurvédica, frequentando uma escola no sul da Índia, e torna-se uma das melhores especialistas destas práticas em Portugal. Acreditem, foi a síntese mais breve que conseguimos porque as credências são infindáveis. Recebeu-nos em casa, inspirando a equipa com a sua atitude serena, sem ponta de vaidade, demonstração eloquente do êxito das suas crenças.
– Nascida em Roma, iniciada na arte desde a infância?
Pureza Pinto Leite –
Os primeiros seis meses de vida foram influenciados pela cultura, beleza e alegria que Roma oferece – foi o despertar! [ri-se]. Os italianos são muito expressivos, a própria língua convida ao gesto e ao melodrama. Em Itália, não por acaso, nasceu a Commedia dell’Arte. E foi por aí que o teatro me conquistou. Os meus pais deram-nos uma educação diversificada. Desde pequena tive aulas de música e canto, e só descansei quando fui para o ballet. Tive o privilégio de frequentar escolas com actividades artísticas. As influências começaram cedo.
– Alguém em casa a inspirou?
– Os meus pais sempre nos estimularam o interesse pelas artes: levavam-nos ao teatro, dança e música. O meu pai era uma pessoa extraordinária. Carismático! Eu teria 12 anos quando ele participou numa peça A Vizinha do Lado, com amigos como Carmo Moser, Quito Hipólito Raposo, Maria João Avillez. Lembro-me de, com as minhas irmãs e vizinhas, montarmos espectáculos de variedades para a família. Eu era sempre a acrobata. Era frequente os meus pais rece­berem gente das artes, mas não tínhamos antecedentes artísticos na família.
– Bailarina e actriz são duas vocações que requerem dedicação completa. Porque opta pelo teatro?
– O teatro não foi tanto uma opção mas uma oportunidade à qual não pude resistir. Conheci os Footsbarn Travelling Theatre em Cascais. Apaixonei-me pelo trabalho e estilo de vida desse grupo de saltimbancos, dos quais quatro eram especialistas em Commedia dell’Arte. Em cada espectáculo que participei, fiz questão de ter um momento para dançar e/ou cantar. Nas digressões, em estadias prolongadas, procurava sempre onde dançar. Comecei a aprender flamenco, por exemplo, numa tournée em Espanha. Tive a sorte de trabalhar e aprender com artistas fantásticos. Fui actriz por mais de 20 anos mas sempre me considerei também bailarina. Adoro dançar!
– Há em si, também, a vocação romântica da vagabunda-errante?
– Vagabunda-errante com um propósito. Roma, depois Portugal; por causa do trabalho do meu pai, vivemos três anos na Alemanha; mudámos de casa várias vezes entre Lisboa e Sintra. Quando engravidei, fui para Bruxelas onde o pai do Tarot estava ao abrigo das Nações Unidas. Habituei-me à mudança. A ideia de vagabunda-errante é de facto romântica. Mas esconde dificuldades. Não podemos perder nem o propósito, nem a motivação que o justifica, sob pena de ficarmos a vagabundear. É um modo de vida que exige entrega, disciplina e amor. Nesse sentido, a minha vida é uma história de amor: pelo que faço, amor às equipas com quem trabalho e ao público para quem trabalho. Obriga-nos ainda a mais amor e disciplina para compatibilizarmos tudo com a família que se ama. Adoro conhecer pessoas e culturas diferentes. Se o puder fazer em trabalho, fabuloso! Percebe-se como a dança, a música, o teatro, enfim a arte é uma língua universal e com certeza uma forma de expressar amor.
– Indiscrição: os seus filhos compreende­ram-na sempre?
– São artistas cheios de talento, adoram o que fazem e foram influenciados pelo am­biente em que viveram. O Tarot é um excelente músico e o Pedro um maravilhoso sonoplasta. Quer saber se me censuram a troca de escola e de amigos, é? Tiraram o melhor partido de tudo: falam línguas, conhecem vários países, têm amigos em cada canto do mundo;
dizem-me hoje que esta errância os ajudou a tornarem-se mais livres, mais confiantes e mais generosos. No núcleo familiar, somos um por todos e todos por um. Partilhamos interesses e vibramos a cada novo passo profissio­nal. Somos verdadeiros fãs uns dos outros.
– O Teatro ao Largo é a aventura da sua vida?
– Foi, de facto, uma grande aventura. O meu marido e eu trabalhávamos juntos há uns anos e decidimos criar a nossa ‘companhia’. Fomos os pioneiros do ‘regresso’ do teatro andarilho, em 1994. Percorremos o país inteiro, com o nosso teatro móvel, levámos, em recriações nossas, Gil Vicente, “O Judeu”, Goldoni, Ovídio, operetas e burlesco do litoral ao interior. Traduzíamos, adaptávamos, construíamos cenários, encenávamos e representávamos. Depois, outros
grupos lançaram-se também nessa aventura.
– O que persegue ainda hoje?
– Numa palavra, talvez possa traduzir-se em harmonia. Física e espiritual. Assente numa alimentação saudável e no que escolho aprofundar todos os dias: autenticidade, tolerância, melhor compreensão de mim mesma e dos outros – é também o que procuro transmitir na minha actividade como terapeuta.
– Dir-se-ia mística?
– No sentido em que procuro constantemente uma mais estreita ligação com a profundidade das coisas, para poder gostar melhor do que amo. Como diz Saint-Exupéry, só se vê bem com o coração. Procuro que as minhas práticas sejam um acto de maior aproximação ao coração, ao amor.
– A passagem para uma ciência indiana com 7000 anos relaciona-se com o que acaba de dizer?
– Veja, o frenesim dos dias não nos deixa tempo para tratarmos do corpo e do espírito. Conhece a saudação indiana Namasté: “Saúdo o ser divino que há em ti”? Nas minhas terapias agradeço sempre as bênçãos divinas antes e no final de cada tratamento. Sei que, para além da minha experiência e das técnicas que aplico, tenho sempre a ajuda e protecção divinas. Foi Namasté que me acordou e me fixou por um período extenso na Índia: fui beber à fonte.
– Toda a gente que viaja já contactou com o tipo de massagem que faz hoje. Que filosofia preside à actividade?
Ayurveda significa em sânscrito ciência (veda) da vida (ayur) e foca-se no ser humano como um todo: corpo e espírito. As terapias ayurvédicas são a prevenção da doença por excelência. Os meus tratamentos actuam nos sistemas linfático (desintoxicam o organismo), circulatório (aumentam a nutrição e oxigenação celular), imunológico (aumentam a produção de glóbulos brancos) e energético (desfazendo bloqueios emocionais). Cada caso é particular e cabe ao terapeuta avaliar o que é mais adequado aplicar. O facto de sempre ter trabalhado o corpo, tanto na dança como no tai chi ou no yoga, práticas holísticas centradas na manutenção e recuperação da saúde, dá-me grande conhecimento do meu próprio corpo e é uma vantagem essencial na avaliação da pessoa que tenho de abordar terapeuticamente. Contribui para fundamentar o conhecimento e oferece confiança na intuição.
Nota: por vontade da autora, este texto não segue as regras do novo acordo ortográfico.

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