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Fátima Lopes: “Não quero tornar-me uma pessoa triste”

A apresentadora, de 47 anos, garante ser pragmática e rápida a resolver conflitos que lhe tirem o sorriso.

Cláudia Alegria
23 de julho de 2016, 12:00

Passa a imagem de ser uma mulher simpática, sorridente e justa, mas não se inibe de mostrar indignação e até alguma fúria quando é confrontada com situações de injustiça. Fátima Lopes diz não ser uma pessoa diferente daquela que os espectadores conhecem dos programas que tem apresentado ao longo dos últimos 22 anos. Aos 47 anos, garante sentir-se segura consigo própria ao ponto de não se permitir levar desaforos para casa sem a resposta adequada. E um dia gostava de ter a certeza de que os seus filhos, Beatriz, de 16 anos, e Filipe, de sete, reagem da mesma forma se se depararem com injustiças ou desigualdades.
– Disse recentemente que tinha medo de que as pessoas deixem de gostar de a ver quando for mais velha...
Fátima Lopes –
O que disse foi que me preocupo com a imagem, mas q.b.. Sou bem resolvida com o passar da idade. Não posso ter a juventude de uma pele de 20 anos, porque não os tenho. Isto, para mim, é normal e natural. Não representa nenhum conflito interior nem nenhuma tristeza. Olho para o espelho e gosto muito de mim, acima de tudo gosto de mim enquanto pessoa. Portanto, se gosto de mim como pessoa, estou bem com a minha imagem, não fico zangada com isso. E, se as pessoas um dia acharem que, porque já estou mais velha, não tenho lugar no ecrã, então mandem-me embora, porque é sinal de que não me dão o devido valor e efetivamente sou eu quem está a desperdiçar tempo. Para mim, o passar da idade é um acrescento de sabedoria. Vejo os apresentadores e jornalistas norte-americanos com 70 e mais anos a apresentar o jornal e só de olhar para eles já estou a acreditar no que estão a dizer, porque é a credibilidade associada à idade. Isso, para mim, é uma mais-valia, não é um ponto fraco. Portanto, quero pensar nisso e não onde é que vou arranjar o elixir da eterna juventude. Não o vou sequer procurar. Ela não existe. Podemos ser eternamente jovens por dentro, sermos pessoas de bem com a vida, e eu faço por alimentar isso. Sou muito cuidadosa em manter a criança que há em mim viva e saudável. Cá fora, vou fazendo o que posso, sem ser obsessiva.
– Consegue manter essa atitude positiva perante as dificuldades que temos que enfrentar diariamente?
– Consigo, porque quero. Ou seja, eu não quero ficar mal. Se acontecer uma situação qualquer na minha vida que me deixe triste naquele dia, fico ali às voltas, a pensar que não me apetece sair de casa nem trabalhar. Posso querer ficar a curtir a minha dor, porque às vezes precisamos de o fazer, só que eu não gosto de ficar aí. Eu permito-me fazê-lo, mas quero que seja só um dia. Obviamente, depende das situações que estás a viver. Já perdi familiares que me eram muito queridos e amigos também. Não se supera a perda de alguém num dia, mas há sempre uma voz no meu subconsciente que diz: isto é passageiro, é para saíres daqui. Arranja ferramentas, vê lá por onde é que queres ir, mas é para sair. Porque eu não gosto de me sentir triste. Desde que me lembro de mim que estou sempre de sorriso rasgado. Eu sou assim. Não quero tornar-me uma pessoa triste. Não quero que as tristezas e dificuldades que se cruzam na minha vida me façam mudar e me tornem uma pessoa que não quero ser, que é uma pessoa triste. Tento resolver as coisas e sou muito pragmática e rápida a fazê-lo, porque o meu foco é sair dali. Temos de ser proativos e não ficar de braços pendurados à espera que alguém dirija o nosso barco. O barco é meu, eu é que tenho que o diri­gir.
– Sente que a sua filha conseguiu interiorizar, ao longo dos seus 16 anos, este seu espírito de vida?
– Procuro passá-lo para a Bea­triz. Mas, além de ela ter uma personalidade muito diferente da minha, tem apenas 16 anos de vida e eu 47, portanto, não lhe posso pedir que tenha o mesmo discernimento e capacidade de ver as coisas, simplesmente porque temos uma diferença de mais de 30 anos de vida.
– Está preparada para a deixar voar sozinha?
– Honestamente, ainda não. Vemos, durante muito tempo, os nossos filhos como crianças, mesmo quando já não o são, e ela é uma mulher. É muito madura emocionalmente, é uma delícia falar com ela, tem um sentido de humor fantástico... Mas, apesar de eles crescerem, são sempre os nossos pequeninos... Sei que tenho que me preparar para perceber como é que vou lidar com isso, para não ser penoso, pois teremos sempre muitas saudades do bebé que alimentámos mas que já foi.
– Acabou de fazer 47 anos, numa sexta-feira 13. É supersticiosa?
– Não. Adoro o dia 13!
– Por razões religiosas?
– Embora seja católica, não é por essa razão. Acho que é sempre um dia super especial, até porque vivo sempre coisas espetaculares nas sextas-feiras, 13.
– Passa a imagem de mulher certinha, que nunca parte um prato, mas deve haver momentos em que, de facto, os parte...
– Até se partem serviços completos! [risos] Ninguém é certinho sempre. Tenho esta imagem porque sou uma pessoa que, efetivamente, gosta de cumprir as regras. Há pessoas que lidam em tensão com as regras, gostam de estar sempre a questionar, porque é assim que se afirmam. Eu não sinto necessidade de me afirmar assim. Sinto necessidade de me afirmar pela minha personalidade e não por estar a questionar ou a bater o pé para mostrar que existo. Tenho uma ideia muito clara daquilo que quero para a minha vida e procuro fazer escolhas que me permitam concretizar o meu projeto de vida. Para alguns, isso pode ser uma vida muito certinha, para mim é uma vida equilibrada e normal, e é só isso que quero. Manter o meu equilíbrio e o da minha família traz-me a normalidade de que preciso para ser feliz. Se isto é ser certinha, então nesse caso sou certinha.
– E quando é que ‘parte os pratos’?
– Nunca levo desaforos para casa. Digo sempre o que tenho a dizer, seja a quem for, e sou assim desde pequenina. Muita vez a minha mãe me castigou por dizer frontalmente aquilo que sentia, estando-me nas tintas se era ajustado ou não. A vida ensinou-me a dizer as coisas de forma civilizada e ajustada, portanto, sou sempre educada e não permito que sejam mal educados comigo, mas não deixo nada por dizer e se me chega a mostarda ao nariz, levo tudo à frente.
– Sem medo de manchar a imagem de apresentadora?
– Estou-me nas tintas e já perdi as estribeiras várias vezes em programas em direto. Fui perdendo os filtros ao longo dos anos e há coisas com as quais não se pode compactuar. Sou muito dura com situações de injustiça, desigualdade, violência doméstica e maus tratos de crianças, gente homofóbica faz-me nervos... Não deixo nunca de me manifestar e parto a loiça mesmo a sério.
– Está casada há 11 anos. Nunca passaram pelas famosas crises? Um casamento não é sempre estável...
– Todas as relações passam por altos e baixos. Não acredito em casamentos de anos que corram sempre na perfeição. Há sempre coisas que magoam, outras que deveriam ter sido ditas, há sempre ações que não foram acertadas, porque somos humanos, somos todos diferentes. Portanto, nós também já passámos pelas nossas fases, umas mais fáceis do que outras, como todos os casais. Mas quando as pessoas gostam muito uma da outra, querem realmente estar juntas e sabem comunicar, então as fases menos boas também se ultrapassam. Quando uma destas três variáveis não está lá, é muito difícil que as coisas funcionem. Se não houver um bom suporte, se não sentes que aquele é um ombro eternamente amigo e que consegues falar com essa pessoa, então começa a ficar coxo. Primeiro de um lado, depois do outro, e no fim acaba por cair.
– Qual seria a maior tragédia da sua vida?
– A maior tragédia de qualquer pai é perder um filho. É, sem dúvida, a maior e para a qual nunca ninguém está preparado. É o terror de qualquer pai e mãe, um medo que nos acompanha desde o dia em que eles nascem.
– E o que é que se faz quando não há razões de preocupação?
– Não pensar no assunto. Porque senão deixas de viver e de aproveitar os teus filhos, de os sentir, porque o medo te bloqueia. A única coisa que peço a Deus é que nunca me faça passar por essa provação. Quero concentrar-me nas coisas boas, vê-los crescer, brincar com eles, ouvi-los, na alegria que trazem à casa, no pulsar de vida dos filhos. A possibilidade de ser pai e mãe é tão especial que não há nada que já tenha vivido que possa dizer que se assemelha, nada.

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