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De férias em Nice, Bagão Félix está em choque com o atentado

“Creio que teremos lá estado uns dez a 15 minutos antes de tudo acontecer. (...) Ficamos com a sensação de que foi um acaso.”

CARAS
23 de julho de 2016, 00:26

António Bagão Félix e a mulher, Rosa Maria, chegaram na tarde de dia 14 de julho a Nice, onde planeavam passar uns dias de férias tranquilos, usufruindo das águas quentes do Mediterrâneo. Logo nessa noite, no entanto, aca­baram por ser surpreendidos por um cenário de horror, quando um camião conduzido por Mohamed Lahouaiej-Bouhlel atropelou centenas de pessoas que se encontravam na Promenade des Anglais a assistir às comemorações do Dia Nacional de França. À CARAS, o antigo ministro das Finanças conta como viveu as primeiras horas que se seguiram ao atentado terrorista.
– Foi um início de férias muito complicado...
António Bagão Félix –
É verdade. Chegámos pela hora de almoço e, ao final do dia, como estava agradável, fomos passear pela Promenade des Anglais. Vimos uma parada interessantíssima de militares e de carros da Segunda Guerra Mundial, portanto, havia polícia por todo o lado, o que é um ponto importantíssimo. Sentámo-nos num dos muitos restaurantes ao ar livre para ver a parada. Havia, de facto, uma grande aglomeração de gente, as praias estavam cheias como se fosse de dia, os passeios também, havia música por todo o lado. Sobretudo, o que me impressionou é que eram muitas famílias, pessoas de várias gerações, crianças pequeninas a brincar por todo o lado, a andar de trotinete. Era, de facto, um ambiente muito agradável. Ainda vimos o início do fogo-de-artifício, que começou pelas 22h00, e olhe, estas coisas têm muitos acasos, às vezes são bons, outras maus. E a grande questão que se coloca é a imprevisibilidade em tudo. A minha mulher começou a sentir frio, pois ficou um vento um pouco mais agreste, e como não tínhamos agasalhos decidimos começar a andar até ao hotel, que ainda ficava a cerca de um quilómetro e meio do sítio onde nos encontrávamos e on­de se deu aquela tragédia. Nós estávamos nessa zona. Creio que teremos lá estado uns dez a 15 minutos antes de tudo acontecer. Além do passeio, que é largo, tanto a praia como as três faixas de circulação automóvel estavam cheias com milhares de pessoas, sobretudo famílias. É horrível perceber que morreram crianças naquelas condições!
– Mas só se aperceberam do que realmente se tinha passado quando chegaram ao hotel?
Sim, porque ouvimos uma espécie de tiros, mas, como havia fogo-de-artifício, só nos apercebemos do se tinha passado quando chegámos ao hotel. E já não pudemos sair. Olhávamos pela janelas e... era um silêncio absoluto, só se ouviam as sirenes de um lado para o outro.
– No dia seguinte já se conseguia circular pela zona?
– Não. Pudemos circular a pé, mas só junto ao hotel. Aqui à volta está tudo fechado, só circulam alguns automóveis, as praias estão completamente vazias. De manhã, quando acordámos, havia três ou quatro pessoas na praia, mas os navios da marinha de guerra mandaram-nas retirar imediatamente. Neste momento sente-se uma calma muito aparente. Felizmente, não nos aconteceu nada, mas ficamos com a sensação de que foi um acaso. É estar no lugar certo ou no lugar errado, na hora certa ou na hora errada. É uma forma de barbárie sem justificação. Acima de tudo, fez-me impressão ver que as faixas por onde passou o camião, que breves instantes antes era um passeio de família, se transformou numa pista de morte de uma maneira absolutamente gratuita. É impossível, não há explicação. Eu sou católico, tenho fé e, nestas alturas, pergunto onde é que está o meu Deus. Sobretudo para as crianças, que são de inocência total e absoluta.

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