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Camilo de Oliveira: Mais de seis décadas dedicadas à comédia

Durante quase 70 anos, Camilo de Oliveira acumulou sucessos nos palcos. A popularidade, alcançou-a com a televisão. Morreu aos 91 anos, no passado no sábado, dia 2, às 20h10, no Hospital de Egas Moniz, onde estava internado nos cuidados paliativos há já algum tempo. Lutava contra dois cancros.

CARAS
16 de julho de 2016, 08:00

“Acabou-se. Não há mais na mercearia depois deste. Nem se pede um minuto de silêncio aos que ficam para fazer rir. Um minuto a fazer humor sem dizer palavrão (esse ‘subriso’, como lhe chamava o Solnado, irmão-génio do Camilo) e já me dava por contente. A graça de quem veio ao mundo para fazer rir vem de saber ouvir a pausa de quem veio ao mundo por tudo o resto. Até perdíamos a vontade de rir, grande Camilo, se tivesses realmente morrido. Este é o dia de dizer mais do que fizeste. Que amanhã seja o dia de fazer mais do que disseste, carpinteiro-mor da arte da comédia! E para onde vais... ‘muita merda!’, que hoje é a noite da tua última estreia.”, palavras do ator e apresentador Fernando Mendes que ilustram bem o talento e a falta que Camilo de Oliveira – que nasceu em Buarcos, Figueira da Foz, no verão de 1924, literalmente nos camarins do teatro, o que provavelmente traçou o seu futuro – faz ao mundo da comédia portuguesa.
Camilo de Oliveira teria cinco anos quando pisou o palco na companhia itinerante da família. Só dez anos depois é que o fez profissionalmente. Estreou-se no teatro de revista em 1951, com Lisboa é Coisa Boa. Seguiram-se muitos mais aplausos ao comediante que no Parque Mayer fez soltar gargalhadas a plateias de gente. Do currículo em teatro de revista fazem parte êxitos como Abaixo as Saias (1958), Alto Lá Com Elas (1970), Mulheres é Comigo (1973), As Coisas Que um Padre Faz (1976), Aldeia da Roupa Suja (1978), Toma lá que é Democrático (1992), Camilo & Filhas (1996).
Para a televisão entrou anos mais tarde, em 1979. A popularidade chegou dois anos depois, com Sabadabadu, programa da RTP da autoria de César Oliveira e Melo Pereira, distinguido internacionalmente com uma menção honrosa no Festival Rosa de Ouro de Montreux, na Suíça. Aliás, ninguém se esquece de Isto É Que Vai Uma Crise, uma das rábulas do programa em que, ao lado de Ivone Silva, formava a dupla Os Agostinhos, dois bêbados que tinham sempre uma desculpa para beber uma pinga. O Padre Pimentinha foi uma das figuras mais populares do programa. Na estação pública fez ainda rir com Camilo, o Pendura e No Tal Hospital. Foi ator principal também de séries como Camilo & Filho, Lda. – que lhe valeu um Globo de Ouro para Melhor Programa de Ficção e Comédia referente a 1995 –, Camilo em Sarilhos, Camilo na Prisão e Camilo, o Presidente, exibidas na SIC. O palco e os ecrãs foi dividindo com grandes talentos nacionais. Vasco Santana, Herman José, Vítor de Sousa, Beatriz Costa, Maria Emília Correia, Nuno Melo, Raul Solnado e Ribeirinho foram alguns deles.
Ao cinema chegou com O Ladrão de Quem Se Fala (1969), de Henrique Campos, e Ao Que Nós Chegámos (1995), de Varela Silva. Camilo é ainda autor do livro As Regras da Minha Vida.
Em 2011 abandonou definitivamente a televisão e no início de 2015, depois de ter estado um mês internado no Hospital de Cascais, afetado por dois tumores malignos (da próstata e dos intestinos), decidiu não voltar a pisar os palcos. “Estou com força, mas a fazer tudo com muita calma. (...) Pensei que não ia resistir, foi muito difícil, acho que ninguém consegue imaginar. (...) Já não vou fazer mais nada, não quero. O público merece todo o meu respeito e eu tenho a certeza de que já não darei o mesmo rendimento que dava anteriormente. Nas condições em que estou, entrava, batiam palmas e eu saía... Assim não. Tenho saudades, é certo, mas não vou fazer mais nada.”

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