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Aniela e André Jordan: A dedicação à família e a vontade de fazer sempre mais e melhor

Com quatro filhos e oito netos, o empresário André Jordan, de 82 anos, é um homem completamente dedicado à família. A irmã Aniela, produtora, também encontra na família – tem duas filhas e já pensa em netos – o seu porto de abrigo.

Vanessa Bento
2 de julho de 2016, 18:00

Portugal entra na vida de André Jordan aos seis anos, quando fugiu com a família da Polónia, país natal, para escapar ao terror nazi. Esta condição marcou-lhe o caminho, mas nem por isso o tornou amargurado. Depois, veio o Brasil e foi aí que viu a família aumentar, com o nascimento da irmã Aniela. Hoje têm uma cumplicidade e um orgulho mútuo bonito de se ver. Com uma vontade enorme de fazer sempre mais e melhor, André Jordan tornou-se um dos maiores empresários do nosso país e Aniela é produtora de musicais – produziu o musical que abriu todos os dias do Rock in Rio em Lisboa – e responsável pela chegada deste género de teatro ao Brasil. Mas é na família que encontram o seu principal pilar.
– Hoje é um nome incontornável do turismo em Portugal, mas a sua vida não se fez apenas de sucessos...
André Jordan – Se formos falar dos pontos baixos da minha vida, não temos tempo suficiente... O ser humano tem uma grande capacidade de superação do sofrimento. Conheci, por força da minha origem, muitas pessoas que sobreviveram ao Holocausto. E essas pessoas recuperaram. Não todas! Há aqueles que se deixam quebrar e há os que ficaram lá. Há pouco tempo vi um documentário de uma pianista austríaca que, com 104 anos, tocava todos os dias, das dez da manhã à hora de almoço, e as pessoas juntavam-se na rua para a ouvir. E ela era uma sobrevivente do Holocausto. Morreu o ano passado, com 106 anos. E ela sempre explicou que a sobrevivência dependia da atitude. Que mesmo ao ver os mortos ao seu redor, nunca pensou que seria um deles. Não me quero comparar com essas heroínas, mas realmente já passei por coisas difíceis. Só quem não faz nada é que não passa por dificuldades!
– São essas experiências que fazem de si o homem que é hoje...
– Sim. Estarmos abertos aos outros, a aprender com eles, é o que permite atingir objetivos.
– A Polónia, Portugal e o Brasil fazem parte da vossa história de vida. São os países que vos definem enquanto pessoas?
Aniela Jordan – Eu só vivi em Portugal três anos, em criança, por isso o Brasil está mais vincado em mim. Mas adorei morar aqui.
André – Também vivi nos EUA, país que teve grande influência sobre mim em dois aspetos: no profissional, na forma de organizar e planear as coisas; e na parte política, porque fui estudante no pós-guerra, a época do Roosevelt, da justiça social, do desenvolvimento. E esses valores sociais-democratas formaram-me. Nunca mudei de posição. Mas vou-lhe contar uma coisa curiosa: no ano passado, voltei pela primeira vez à Polónia. E descobri que grande parte das características da minha maneira de ser são polacas.
– Então esse regresso à Polónia foi um reencontro consigo mesmo?
– Sim, para minha grande surpresa, encontrei-me ali.
– Como é que foi para a Aniela crescer tendo o André como irmão mais velho?
Aniela – Os meus pais, quando se casaram, já tinham filhos adultos e, na verdade, os meus irmãos são um pouco meus pais. Sobretudo o André e a Dalal [Achcar], minha irmã por parte de mãe. Foi um pouco minha mãe. E mentora: é bailarina e coreó­grafa e comecei por aí.
– Não deve ter sido fácil quebrar os estereótipos sociais e seguir a vertente artística.
– A minha irmã já tinha desbravado esse caminho, mas nós as duas não fomos o sonho da minha mãe. [risos]
André – Não foram o sonho, mas acabaram por ser o grande orgulho!
Aniela – Na verdade fui criada para casar com um príncipe, mas não aconteceu, não me encaixei nesse modelo. Fui para o lado artístico e depois a minha mãe começou a ter muito orgulho das façanhas das filhas. Mas no começo foi um pouco difícil.
– Nota-se que é muito cúmplice do seu irmão...
– Muito! E quando venho a Portugal, conversamos sem parar, a tentar recuperar o tempo que não passamos juntos.
André – É uma afinidade absolutamente natural, sempre foi. Entendemo-nos muito bem. Tenho a sorte de ser irmão, pai, amigo.
– E de que forma é que olham para o futuro?
– O futuro é todos os dias. Amanhã já é futuro. Vou fazer 83 anos e quero ficar ativo enquanto for possível. Vou vivendo a vida até poder. Ocupo-me de muitas coisas além do trabalho, principalmente na cultura, nas artes e na educação. E tenho uma atividade que é cada vez mais valiosa: a amizade. Tenho muitos amigos, cultivo-os todos. E tenho a sorte de ter conseguido realizar algumas coisas e de ter sobrevivido para vê-las.
– No meio disso tudo, tem tempo para ser avô?
– Tenho, claro. Tenho tempo para tudo. Passo muito tempo com os meus netos, porque eles são uma delícia insuperável. E é uma deslealdade para com os pais, porque o avô não castiga, o avô está presente e é só mimo. Se algum dia tiver que parar, os netos compensam. O Vinícius [de Moraes] dizia que os netos são os filhos com açúcar e é verdade. Quando os meus filhos eram pequenos, estava no início da minha carreira e não dei toda a atenção que eles precisavam e que eu gostava de dar. Os netos, posso acompanhá-los de outra maneira.

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