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Sandra Barata Belo assegura: “Não nasci para ser estrela”

Protagonista da novela ‘Rainha das Flores’, que estreou no dia 9 de maio na SIC, a atriz faz questão de viver longe dos holofotes, não se deixando deslumbrar pela fama.

Marta Mesquita
10 de junho de 2016, 14:00

Sandra Barata Belo, de 37 anos, chega ao local desta produção e passa desper­cebida. “Pois, agora estou loura”, diz, divertida, justificando o facto de não ter sido logo identificada pela equipa. Esta mudança radical deve-se ao papel que interpreta em Rainha das Flores, da SIC. Nesta trama, a atriz interpreta um dos papéis mais desafiantes da sua carreira, uma vez que dá vida a Rosa, uma mulher que sofre de amnésia retrógrada e que tenta reencontrar-se no meio de uma angústia profunda. Tal como a sua personagem, Sandra procura olhar para dentro ao mesmo tempo que experien­cia o mundo, transportando esse leque de emoções para os papéis que interpreta ou para as peças que leva à cena com a sua produtora, a Beladona.
Apesar de não gostar de falar sobre si, dando apenas protagonismo ao seu trabalho, nesta conversa a atriz desvendou um pouco do seu universo emocional, revelando o que faz de si uma mulher mais serena e, como admite, “de bem com a vida.”
– Fazer uma protagonista é uma grande responsabilidade...
Sandra Barata Belo – Sim, e um grande desafio. Já não faço uma protagonista há vários anos, mas sinto que todos os papéis que tenho interpretado me deram mais experiência. Além disso, a SIC e a SP Televisão têm-me atribuído personagens interessantes. Um bom ator é sempre um ator mais velho. Na nossa profissão, quanto mais experiência de vida temos, maior é o nosso leque de personagens. Experienciar diferentes situações e emoções é uma mais-valia.
– Como é que se preparou para um papel tão particular?
– Pesquisei muito, li imenso. Há dias filmei a cena em que acordo no hospital, já com a amnésia. Dei por mim a pensar: “Nunca passei por isto na minha vida.” E é complicado. O que tenho feito é usar a angústia de pensar que um dia poderei acordar e não me lembrar de nada. É al­go desarmante. Também gostei muito de falar com um neuro­psicólogo do Hospital Júlio de Matos. No caso da minha personagem, ela tem uma amnésia retrógrada de 15 anos e tentei perceber de que forma isso afeta o léxico, os gostos, a forma como se quer vestir... Basicamente, as pessoas que passam por isto só não se lembram das coisas que lhes acontecerem, mas continuam a ser quem são. A maturidade mantém-se a mesma. O conselho que ele me deu foi que preservasse este meu lado curioso.
– E essa angústia de que fala tem-na desgastado enquanto pessoa?
– Não. Claro que chego a casa muitas vezes cansada, sem vontade de ouvir ninguém, mas não fico muito presa àquela história. Tenho coisas que me ajudam a libertar dessa tensão, como correr e fazer exercício físico. Chegar ao fim do dia e ir correr um bocadinho ajuda-me. Também gosto de cozinhar. Fazer sopa, por exemplo, é algo que me acalma.
– Por causa deste papel teve de ficar loura. Gosta da sua nova imagem?
– Gosto. O ser loura mostra-me um outro lado de mim, o que é giro. Não tenho medo da mudan­ça e é algo que me ajuda na construção da personagem.
– A sua personagem fica sem passado e agarra-se ao futuro. A Sandra é uma mulher presa ao passado ou virada para o futuro?
– Como boa portuguesa, sou nostálgica. Acho que o passado serve sempre de âncora. Gosto de me lembrar de onde venho. Também gosto de olhar para o passado para perceber como me transformei. Hoje sou uma mulher mais madura. O passado é o álbum da nossa vida. Claro que há coisas que preferia não ter feito, mas faz parte. Há sempre arrependimentos. Contudo, uma das minhas lutas é viver no presente, sem me preocupar muito com o futuro ou com o passado.
– E o que é que essa retrospetiva lhe mostra? Conhece bem a mulher e a atriz que é hoje?
– Sim. Sou uma mulher de bem com a vida, tranquila com as minhas conquistas. Gosto de viver com calma e de desfrutar da minha casa. Gosto muito desse meu refúgio. Não preciso de muitas coisas materiais para ter prazer e gosto de estar rodeada das pessoas que gostam de mim.
– Mas depois tem um lado mediático que tem de conciliar com esses refúgios...
– Pois, esse lado mais mediático é o meu calcanhar de Aquiles... Gosto do meu trabalho, gosto de criar e de falar sobre tudo isso. Tenho até uma urgência em partilhar coisas que sinto e de transformar isso num processo artístico. Agora, não gosto de falar sobre mim, até porque sou só mais uma pessoa que chora, que ri, que tem medos e sonhos... Não tem interesse nenhum falar sobre mim.
– A sua profissão é egocên­trica e, em muitos casos, esse lado mediático ajuda a alimentar e a trabalhar o ego...
– Acho que um ator deve ter ego. Contudo, não acho que o ego deva imperar. Gerir egos é a coisa mais difícil de fazer em equipa... Por isso é que gosto de estar em casa [Risos]!
– Mas isso é inevitável, porque não vai fazer monólogos a vida toda...
– Sim, claro, e sou uma pessoa que se dá bem com todos. Mas a fama não me deslumbra nada. Sempre disse que não nasci para ser estrela e sim para fazer aquilo de que gosto. E é por aí que tento levar a minha vida. Sou uma pessoa pouco materialista e esse mediatismo não me fascina.
– Pelo que diz, parece ser uma pessoa muito terra-a-terra. É mesmo assim ou são os sonhos que comandam as suas decisões?
– Sou muito sonhadora! Não posso perder o sonho e a curiosidade! Seria a minha morte. A capacidade de sonhar, de ter fé e de ser curiosa é o que me mantém. Mas também sou terra-a-terra, até porque é este o chão que pisamos. Vivemos num mundo que tem chão e céu e tento encontrar o equilíbrio entre ambos.
– Tem a ambição de trabalhar no estrangeiro?
– Não. Houve uma altura em que pensei na internacionalização, mas achei que seria complicado. Há mulheres bonitas e com talento em todo o lado. Achei que seria um grande esforço ir para algum lado e começar tudo do zero. Sou atriz, mas também tenho os meus projetos de encenação e há coisas que faz sentido serem mostradas aqui. Um artista fala sempre da sua realidade, do seu contexto e da sua cultura, por isso é mais fácil fazê-lo aqui.
– No meio dessa dedicação ao trabalho, há espaço para projetos pessoais? Já pensa em constituir a sua própria família?
– Às vezes sinto vontade de ser mãe, outras não. É uma vontade que vai e vem. Acho que é algo que tem de ser muito pensado.
– Mas está apaixonada?
– Estou apaixonada pela vida!
– Para terminar, está em excelente forma física. É importan­te ter um corpo trabalhado?
– É muito importante estar em forma e sentir-me ágil. Sem­pre gostei de exercício físico. Gosto de correr, de fazer crossfit, é algo que me desafia constantemente. Mas não sou uma pessoa de competir com os outros, só o faço comigo. É a fazer exercício que resolvo os meus conflitos e angústias.

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