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Júlia Pinheiro: "Pela primeira vez em muitos anos, estou de bem com a vida”

A apresentadora, de 53 anos, revela ter passado por momentos muito difíceis ao longo da última década, em que teve de enfrentar a morte do pai e a anorexia nervosa que atingiu as suas duas filhas.

Cláudia Alegria
28 de maio de 2016, 10:00

Acorda às cinco da manhã para cumprir um plano de exercício físico ao lado da sua personal trainer antes de entrar em direto na SIC, onde há cinco anos apresenta o programa Queridas Manhãs. Assim que sai do ar, Júlia Pinheiro tem à sua espera algumas horas de trabalho relacionadas com os cargos de direção que ocupa no grupo Impresa e, apesar de todos os minutos da sua agenda semanal estarem preenchidos, ainda aproveita a hora de almoço para se dedicar ao seu mais recente desafio: Júlia – De Bem Com a Vida, uma revista digital, em formato de aplicação para smartphone ou tablet, e ao site Julia.pt, onde se pretende dar a conhecer um pouco melhor através da partilha de assuntos e interesses que vão para além daqueles que aborda no programa diário.
– Parece que a sua mãe foi a grande responsável por esta sua aventura nas novas tecnologias?
Júlia Pinheiro –
Exatamente. A minha mãe, que praticamente não conseguia ligar um computador, surpreendeu-me um dia ao comprar um iPad. Quando dei por mim, já tinha criado uma conta no Facebook através da qual falava todos os dias com os netos. A minha mãe, que agora tem 76 anos, sempre foi uma mulher ativa. Foi empresária, tinha muitos interesses, mas, quando se reformou, acabou por se fechar um bocadinho. E de re­pente começa a mostrar-se muito informada sobre uma série de acontecimentos culturais... Foi ela, de facto, a responsável por me alertar que as pessoas estão sempre a tempo de mudar prioridades e adquirir novos hábitos. A verdade é que o mundo está todo a virar para esta autoestrada, que é a área digital, e eu não posso ficar parada no tempo. Por isso, lembrei-me de criar um projeto em que conseguisse dar um bocadinho mais de mim.
– Já houve quem dissesse que, em frente às câmaras de televisão, não se mostra por inteiro. Que Júlia gostaria que o público passasse a conhecer um bocadinho melhor?
Aquela que é menos histriónica, por exemplo. Estou há muito tempo na televisão, já passei por muitos registos diferentes, mas as pessoas parecem esquecer-se disso. A única ideia que têm de mim é a da pessoa que fala alto na televisão, que passa a manhã a dizer disparates com o Jota [João Paulo Rodrigues]. Gostava que conhecessem um bocadinho a outra Júlia, a que é absolutamente fascinada com a criação, em qualquer vertente, que se interessa por causas como a violência contra os idosos, mulheres e crianças, e sobretudo a Júlia que é mãe de adultos. Hoje, grande parte das temáticas abordadas, em revistas ou blogues, estão sempre focadas na primeira e na segunda infância dos filhos, e ninguém fala sobre a dificuldade que é ter filhos adultos. Ter filhos adultos é um bruxedo, porque não deixamos de ser mães, mas as escolhas deles já não são as nossas. Tentamos ajudar mas nem sempre somos compreendidos e as ansiedades e as dores de­les projetam-se com igual intensidade e com o mesmo nível de carinho e de preocupação como quando tinham uma constipação. Há um lado menos romântico da maternidade que é pouco tratado e eu queria muito mostrar a minha solidariedade com os pais que têm filhos com problemas que podem ser de vária ordem. Eu tenho uma luta em casa, que é conhecida, a anorexia nervosa, mas outros pais lidam com outro tipo de adições. Revejo-me na dor imensa desses pais que é quererem ajudar e não saberem. Queremos mostrar-lhes o caminho mas não podemos, porque eles têm de chegar lá sozinhos, têm de crescer e estruturar-se em si próprios. Outra das minhas grandes preocupações tem a ver com a minha mãe
e com a minha idade, os 50, que é tramada...
– Em que se assume o papel de cuidador?
Sim, em que passamos a ser pais dos nossos pais. De repente vemo-los a envelhecer, eles que eram imortais, e a deixar de andar com a mesma vitalidade e energia para se passarem a apoiar constantemente em nós para dar um passo. É um susto apercebermo-nos
disto, e nesse dia crescemos.
– Somos obrigados a crescer?
Ou isso. Comigo aconteceu quando o meu pai adoeceu e tive de tomar conta da minha mãe. Embora a minha mãe seja autónoma e completamente senhora do seu nariz e da sua vida, é emocionalmente dependente de mim. Isso cria uma erosão nas nossas vidas, nas nossas preocupações, na nossa disponibi­lidade, e isso não é falado.
– Estar de bem com a vida para si é...?
Neste momento é ter a capacidade de ainda estar bem o suficiente, no sentido em que estou focada nas minhas preocupações e projetos profissionais, tenho objetivos e, pela primeira vez em muito anos – desde a doença das minhas filhas à morte do meu pai –, tenho algum tempo para me projetar. Estou de bem com a vida por isso. Acho que os 50 são uma idade maravilhosa. Aos 40, estava um bocadinho desatenta, ainda estava a pensar ter um filho, por exemplo.
– Gostaria de ter tido outro filho?
Aos 40, sim. Mas ainda bem que não tive porque, com tudo o que passámos na família nestes últimos anos, teria sido muito pesado para ele. Não teria sido justo. Portanto, a natureza é sábia. Os 50 são, de facto, uma idade muito engraçada para as mulheres. Podemos dizer coisas que não podíamos dizer antes, temos certezas e vivências que não tínhamos, e isso dá-nos uma maturidade e uma capacidade de leitura das coisas muito engraçada. Eu sinto-me a rainha do mundo! É uma idade em que não há, que se saiba, ameaças de saúde, e estou a fazer coisas de que gosto muito. Estou na televisão, que adoro, tenho este projeto digi­tal, consegui escrever mais um romance e, se tudo correr bem, ainda publico outro este ano, estou ligada ao publishing da Impresa. Ou seja, estou em vários núcleos, sou responsável por várias equipas, e isso dá-me um sentimento de valorização. Trabalho horrores, sim, mas esta é a derradeira etapa da minha vida em que vou poder fazê-lo. Se calhar, daqui a sete ou oito anos não aguento trabalhar tanto. Para já, trabalho 12 horas por dia com uma gana e um desassossego tremendos. Portanto, é um momento bom, estou de bem com a vida.
– Se, tal como diz, a anorexia lhe tirou a paz de espírito e a tranquilidade, como é que consegue fazer tudo isto e mais alguma coisa?
Acho que nós, profissionais que trabalhamos no espetáculo do entretenimento, acabamos por desenvolver uma espécie de músculo que está ligado diretamente à adrenalina que nos dá uma espécie de chuto. Quando chega o momento, o foco é tão intenso que tudo o que nos entristece e nos deixa abalados e sem foco desaparece. Tive dias muito difíceis, mas mesmo assim consegui ir trabalhar, fazer os meus programas, muito ajudada, claro, pelos meus colegas, a quem tenho de agradecer publicamente. Tudo aquilo que pude fazer nos últimos 11 anos foi porque fui altamente protegida e acarinhada pelos meus colegas de equipa, quer na TVI quer na SIC, que não se pouparam a esforços para me ajudar. Isto estabelece vínculos de amizade, de respeito, e qualquer uma destas pessoas pode estar do outro lado do mundo, que eu vou ajudar, porque foram efetivamente meus amigos.
– Quando se aceitam novos desafios, que consomem muito do seu tempo, não se têm que deixar para trás outras coisas? As 12 horas de trabalho são suficientes?
Sou muito organizada sendo desorganizada, ou seja, funciono bem no caos. Tenho uma grande vantagem: grande parte do meu trabalho é absolutamente rotinada ao segundo, que é a que está ligada ao programa da manhã, em que só tenho que planear e coordenar os conteúdos. Depois, o que tem a ver com o di­gital faço na minha hora de almoço. A maior parte das pessoas vai almoçar com calma, vai dar uma volta, eu normalmente estou a fazer reuniões, a fotografar, a fazer entrevistas, a planificar, a ler ou fazer documentos.
– O que gosta de fazer quando tem tempo ao fim de semana?
Raramente vou a festas, não faço aquilo que se chama vida social. Isso erradiquei há muito tempo na minha vida porque não só, como diz o meu amigo Goucha, encontramos as pessoas que já entrevistámos nos programas, mas porque o tempo que me resta é meu e para os meus. Portanto, ao fim de semana caio para o lado, estou completamente em casulo. Saio pouco, viajo pouco, porque necessito de silêncio e tranquilidade, e os aeroportos chateiam-me. Portanto, tenho os meus refúgios, enfio-me neles, leio, como e durmo.
– Com partilha familiar?
O marido sempre presente. O Rui [Pêgo] é um cúmplice fantástico. Acho, inclusivamente, que ele tem uma péssima vida, porque creio que gostaria imenso de ir jantar fora com os amigos e de viajar mais, e eu sou um bocadinho a empata, porque estou tão cansada que não consigo. Costumo dizer que não sou uma turista mas sim uma viajante. Se me levarem três meses para um sítio, excelente, mas ter uma semana para ir ao paraíso e voltar dei­xa-me irritada, porque são poucos os dias que, de facto, aproveitamos.
– “As minhas falhas levaram ao meu sucesso”, lê-se no seu site. Quais falhas?
Não ser estrondosamente bonita nem ter uma boa voz. Se eu fosse muito bonita, se calhar tinha-me focado em defender a minha beleza e a fazer dela a minha principal ferramenta profissional, porque a beleza facilita muito na área da comunicação. Sou o triunfo da mulher comum, sou igual a 500 mil mulheres portuguesas, não tenho nenhum atributo particular. Bom... talvez um bom par de pernas! Por isso, fui planeando e delineando a minha carreira de modo a que, no dia em que me disserem que estou com as bochechas nos joelhos, cheia de rugas, e que
já não consigo apresentar um programa de televisão, tenha um lugar atrás das câmaras. As minhas falhas orientaram-me nesse sentido. A voz foi outra das minhas falhas, mas a verdade é que graças a ela fiz centenas de trabalhos de locução. Tive uma carreira absolutamente brilhante na área da publicidade durante quatro ou cinco anos porque tinha uma voz que ninguém tinha.
– Continua a fazer exercício físico todas as manhãs. Correr deixou de ser um sacrifício para se tornar um prazer?
Ainda não é um prazer, mas é um objetivo que tem de ser cumprido quase todos os dias. Corro porque me dá algum bem-estar, embora implique sacrifício, mas por uma questão de mobilidade futura. Quero continuar com energia e a mexer-me muito bem, não quero chegar aos 60 ou 70 a arrastar os pés.
– O seu filho diz que é destemida, o seu marido diz que é incisiva e determinada. Revê-se nestas qualidades?
Sim. Podiam dizer que sou querida, mas enfim...
– Em casa, a última palavra é sua?
Eu não mando nada lá em casa!
– O seu marido diz o mesmo, que não manda nada lá em casa...
O Rui é o grande timoneiro. Eu só posso viver como vivo porque tenho um grande homem comigo, um parceiro absoluto que me ajuda imenso, em tudo.
– O que é que a tira do sério?
De verdade? Detesto a deslealdade, a pequena mentira, o pequeno poder... Tudo o que é poucochinho irrita-me. Gosto de coisas grandes, de grandes amizades, grandes amores, grandes objetivos, grandes desígnios. Não tenho um conflito por causa de coisas sem importância. Acho que o tempo é demasiado importante para o desperdiçarmos com coisas que não são substantivas. O que me deixa zangada é a deslealdade e a falta de carácter. Não suporto pessoas com espinha de alforreca. Do ponto de vista positivo, tira-me do sério tudo o que tenha a ver com a inteligência, o humor, a graça, uma certa componente de delírio e capacidade para sair fora da caixa.
– Que defeito é mais fácil de perdoar?
Eu não faço juízos. Tenho uma enorme capacidade de tolerância em relação aos outros e jamais faço um juízo sobre as motivações.
– Porque também não gosta que lho façam?
Detesto. Não me conhecem de lado nenhum, não têm que o fazer. Perdoo todos os defeitos menos a falta de carácter, a mentira, e a falta de inteligência.
– Tem algum lema de vida?
Há dois pensamentos que repito frequentemente. Um, de Ortega y Gasset: “O homem é o homem e a sua circunstância.” Conforme as circunstâncias, assim nos vamos moldando. O outro pensamento é de Lampedusa: “É preciso que alguma coisa mude, para que tudo fique na mesma”, e isto é uma verdade absoluta tanto nas organizações como na vida.
– Mas as mudanças são importantes na vida das pessoas?
As mudanças têm de ser feitas para cres­cermos. Não devem é ser mudanças radicais, daquelas que nos levam para a frente em determinado sentido e que, depois, acabam por nos fragilizar. Essas são perigosas. Devemos evitar o perigo.

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