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Ana Sofia Martins: “Não me dou muito tempo para pensar nas coisas”

Demos um salto a Verona, Itália, com a manequim e atriz, que se mostrou imune aos efeitos da fama.

Ana Oliveira
28 de maio de 2016, 14:00

A fama não lhe subiu à cabeça, deu-lhe antes a noção realista de que é efémera e fútil na sua essência. Ana Sofia Martins, 29 anos, uma longa e sólida carreira na moda, alguma experiência como apresentadora de televisão, uma primeira abordagem à representação, e logo como protagonista, na novela da TVI A Única Mulher. Enquanto cresceu, não teve a vida facilitada: educada numa família de acolhimento, conheceu as vicissitudes de viver num bairro problemático. As dificuldades deram-lhe resiliência, perseverança e uma relação muito próxima com os irmãos, Cátia, agora com 31 anos, cobradora de profissão, e Sandro, com 25, ator. Com eles partilha as suas vitórias e recebe a dedicação: se antes era a irmã que a ajudava a decorar os textos da novela, agora é Sandro. “Às vezes chego a casa e ele está lá, a organizar-me os textos, a sublinhá-los e arrumá-los num dossiê. Poupa-me muito tempo e dá-me anos de vida. E eu tento retribuir, sobretudo com jantaradas lá em casa, que é o que eles gostam”, conta-nos, satisfeita, durante esta visita a Verona, Itália, onde esteve a convite da Calzedonia, da qual é embaixadora, para assistir ao desfile da coleção de verão.
A simpatia e genuinidade que a caracterizam ficou logo evidente na viagem: no avião seguiam as colaboradoras da marca em Portugal que foram escolhidas para acompanhar o evento e nunca se esquivou a um sorriso ou uma fotografia de grupo. Retribuíram-lhe na viagem de regresso, cantando a música de Anselmo Ralph que acompanha a sua personagem na novela, a sofrida Mara. Uma experiência que sabia, à partida, ser emocionalmente muito exigente, pelo que tem mantido um coach (treinador) que lhe permite evoluir como atriz e a ajuda a separar a personagem de si própria.
– Há pouco, enquanto fotografávamos, comentou que quis aprender a chorar para ser mais convincente.
Ana Sofia – Sim, não gosto de usar soro fisiológico, porque não vem de dentro, é falso
– Mas representar é falso...
– É, mas tem de vir de um sítio de verdade. Temos de acreditar naquilo, de estar ali e ser aquilo. Por isso tenho um coach, que ajuda a explorar memórias. E é bom ter alguém que nos ajuda a sair de nós e a voltar.
– Para não ir para casa em depressão.
– Já senti muitas dores da Mara que não desejo a ninguém. Levei o meu tempo a perceber que essas dores não eram minhas.
– Isto é uma primeira experiência. Planeia fazer formação para explorar a representação?
– Sim, sem dúvida. Neste momento, a prioridade é a novela, e estar ali 12 horas todos os dias é uma grande escola. Tenho colegas fantásticos que todos os dias me dão ideias sobre o que poderia limar, ou sobre outras formas de como fazer, e tenho de destacar a Mina Andala, com quem costumo juntar-me em minha casa para trabalhar as cenas. Para mim, a Mina é uma das melhores atrizes portuguesas e é um desperdício não agarrarem nela mais vezes. Mas pelo menos esta novela veio dar uma oportunidade a atores africanos.
– Apesar da abertura, o meio ainda não é assim tão ver­sátil.
– Pois não.
– Também se nota na moda?
– Agora já não tanto. De repente é super fashion... O que me assusta na representação é que seja só uma moda usar atores africanos, ou indianos, ou o que quer que seja. Quero que seja uma coisa que vem para ficar. Na moda acontece isso, agora é tendência. E esta novela foi muito importante noutro aspeto: para mostrar às meninas que não são loiras e de olhos azuis que também há espaço para elas. Cada vez que ando na rua e vejo mini Maras, com o cabelo como o meu, fico tão contente! Elas saltam-me para o colo.
– Mas há outros padrões que se mantêm, co­mo o de estar em forma. Dá muito trabalho estar em forma? Vê-se que é metódica.
– Sou metódica e às vezes chata. Mas posso fazer intervalos, sobretudo na rotina física. Quando era só modelo tinha muitas regras. Eu gosto muito de comer e não me controlava muito nesse sentido, mas depois passava uma hora e meia no ginásio, porque tinha tempo para isso. Mas agora não! Para mim, uma hora e meia é para estudar 30 cenas. Como é que se faz? Eu sabia que ia ter esta sessão fotográfica, e há duas semanas tive uma sessão fotográfica em biquíni, e há uma coisa que faço antes de sessões fotográficas importantes: um detox de líquidos. Estou três dias a líquidos, com sumos super nutritivos que compro de acordo com as indicações de uma nutricionista que me avalia. Pensei que desta vez o meu corpo não iria reagir como é suposto, mas enganei-me. Tenho uma genética boa, mas não é tudo. Também fico flácida, mas cuido-me. Faço, por exemplo, um tratamento na Clínica Milénio que é carboxiterapia. Dói um bocadinho e custa dinheiro! Mas se posso, porque não fazer?
– É mais compensador trabalhar na moda, na apresentação ou na representação? Ou o melhor é ir variando?
– Depende das situações. A representação recompensa em termos de notoriedade. A moda traz disciplina, que aplicamos no resto da nossa vida e pode ser muito bom se trabalhares com os clientes certos, mas pode durar só uma temporada...
– E o melhor objetivo é ver isto como uma maratona e não uma prova de velocidade.
– Exatamente. O melhor é saber gerir a carreira e estar ro­deada das pessoas certas. Um mau agente vai querer que faças tudo numa temporada, um bom, vai querer que trabalhes ao longo de dez, vinte, trinta anos.
– Como é que fica o plano pessoal? A certa altura quererá ter filhos, por exemplo...
– Quando chegar o momento certo, saberei.
– E nessa altura pensará em fazer um intervalo no trabalho?
– Eu não consigo pensar em fazer intervalos, isso começa a atrofiar-me o cérebro. Não me consigo imaginar sem trabalhar.
– Mas um filho seria certamente muito difícil de conjugar com horários de gravação.
– Eu não sei como é que as mi­nhas colegas fazem. Admiro-as, acho que são supermulheres, mas neste momento acho que isso não é para mim. Gosto de fazer bem, e depressa e bem não há quem. Portanto, quando chegar a altura para ter filhos, que não é para já, por muito que adore crianças – ou algumas crianças [risos] –, nessa altura logo se fala no assunto. Nem casamento, nem nada. Quem é que tem tempo para isso?
– Sim, já percebi por outras entrevistas que a Ana Sofia e o Tomás [Barroso, basquete­bolista] não têm propriamente interesse em oficializar a relação.
– Não, de todo. Vivemos juntos, mais oficial do que isso é impossível.
– E conseguem manter algumas rotinas? Os horários do Tomás devem ser exigentes...
– Ainda são piores que os meus. Tem treinos bidiários, às seis da tarde ainda vai para a fa­culdade, de onde sai às dez ou às onze... Vamo-nos encontrando ocasionalmente lá em casa [risos].
– E têm vontade de estabelecer rotinas quando podem?
– Não, de todo. Quando podemos, aproveitamos para sair do nosso círculo, de Lisboa... Mas eu gosto da nossa vida assim, porque me aborreço facilmente.
– Para quem está habituado a ter dias todos diferentes, a rotina pode tornar-se aborrecida.
– Sim, acho que se eu tivesse uma relação com rotinas, facilmente me aborreceria. Talvez mais para a frente, quando houver filhos, mas agora ainda não.
– Avaliando o seu percurso, vê-se que tomou as rédeas da sua vida e que sempre resistiu ao papel de vítima, escolhendo a autoestima.
– Sim, mas isso dá trabalho e é cansativo. Não é algo que saia naturalmente, é algo que treinas na tua personalidade.
– E haverá um certo otimismo intrínseco que nem todos têm, alguma vontade de fazer tudo para que a vida corra bem.
– Sim, acho que tenho muito essa vontade. Quando tens o mundo a ruir à tua volta e decides que queres ir pelo caminho certo, vais.
– E foi sempre óbvio qual era o caminho certo?
– Foi, porque me saiu em piloto automático. Não me dou muito tempo para pensar nas coisas.
– Mas no início da carreira na moda, por exemplo, quando esteve uns anos fora, sozinha, pode­ria ter sido difícil fazer a escolha certa...
– Mas eu gosto de estar sozinha, com os meus pensamentos, esse tempo faz-me bem.
– Há a ideia de que no meio há muitas solicitações, festas.
– Mas tu podes ir às festas, tens é de saber manter-te fiel às tuas opções. Por isso é que eu digo que é cansativo. E quando tens um foco, segues esse caminho e é para ali que vais.
– E aqui estão os frutos dessa perseverança.
– Sim. Sinto que, a nível de notoriedade, tive de esperar 12, 13 anos da minha carreira para chegar onde estou, mas nunca tive ânsias de chegar mais depressa, porque entretanto houve pessoas que chegaram e desapareceram. E eu estou cá.
– Sente-se feliz com isso, por saber que trabalhou e foi bem sucedida no esforço.
– Sim, precisamente. Sinto que mereço tudo aquilo que tenho. Sem falsas modéstias.
– Até porque não é o mesmo que dizer: sou melhor que os outros.
– Não, não, trabalhei para cá chegar. E tenho uma equipa em quem confio e quem trabalha comigo sabe que pode confiar.

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