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Wendy Holden e Hana Moran revelam os ‘milagres’ do Holocausto

No livro ‘Os Bebés de Auschwitz’, Wendy Holden (à esq.) conta a história de sobrevivência de três mulheres e dos seus filhos, nascidos naquele campo de concentração. Hana Moran (à dir.) foi um desses bebés.

Marta Mesquita
21 de maio de 2016, 16:00

Em 1944, em pleno Holocausto, Priska, Rachel e Anka foram enviadas para Auschwitz. Em comum, estas três mulheres tinham um segredo: estavam grávidas. Ao longo dos meses, os seus corpos esqueléticos conseguiram esconder as vidas que abrigavam e, em condições desumanas, os três bebés nasceram no campo de concentração – todos com menos de um quilo e meio – e sobreviveram. Semanas mais tarde, em maio de 1945, os prisioneiros de Auschwitz foram libertados pelas tropas aliadas. A guerra terminara e as suas vidas recomeçavam.
Hana Moran, que está prestes a completar 71 anos, era um desses bebés cujos nascimentos estão descritos no livro Os Bebés de Auschwitz, da jornalista e escritora inglesa Wendy Holden. De passagem por Portugal para promoverem a obra, Hana e a biógrafa conversaram com a CARAS e revelaram como a coragem daquelas três mães tem inspirado as suas vidas.
– Como foi para a Wendy escrever sobre uma realidade tão dura, mas, ao mesmo tempo, tão extraordinária, pelos exemplos de sobrevivência que retrata?
Wendy Holden Foi muito exigente! Comecei pelo final feliz, porque primeiro conheci os bebés que sobreviveram... Sabia que eles tinham vidas cheias de significado, que se tinham casado, formado as suas famílias e aproveitado bem o dom da vida que receberam. Em todo o percurso que estas mães fizeram com os seus bebés há extraordinários exemplos de bondade e de generosidade das pessoas que os ajudaram. Foram todos estes exemplos que me deram coragem para escrever sobre estas coisas tão terríveis que ocorreram durante o Holocausto.
Hana, como é que as circunstâncias tão particulares do seu nascimento [em cima de uma tábua, na fábrica de munições de Freiberg, na Alemanha, para onde a mãe foi levada depois de ter estado em Auschwitz] moldaram a sua personalidade e determinaram o seu percurso?
Hana Moran Em primeiro lugar, o facto de ter conseguido nascer naquelas circunstâncias fez com que me sentisse obrigada a ter uma boa vida e a dar de volta o que recebi. Esse sentido de missão sempre foi o mais importante para mim. Eu sobrevivi, ao contrário de muitas outras pessoas, como o meu pai e outros familiares. Por isso, sempre senti que, de alguma maneira, tinha de estar à altura das vidas que eles tiveram. E isso é uma grande responsabilidade.
– Sente, portanto, que tem um legado para preservar...
– Sim, sinto precisamente isso. E esse legado traduz-se em deixá-los orgulhosos onde eles estiverem. Sempre senti que tinha de deixar a minha mãe orgulhosa e que tinha de tornar a sua vida numa boa experiência depois de tudo aquilo por que passou. Não podia ser a típica adolescente, tinha de a fazer feliz.
Wendy – Também os outros dois bebés [Mark Olsky, filho de Rachel, e Eva Clarke, filha de Anka] sentem que têm esse legado. Sentem que têm de ter um propósito na sua vida e fazer coisas importantes e úteis. Todos querem fazer mais e melhor. E penso que herdaram isso dos pais.
– De tudo o que a sua mãe lhe contou sobre o Holocausto, o que mais a marcou?
Hana – Penso que foi o facto de ela ter sido capaz de continuar a ver a bondade nas pessoas. Ela sofreu muito, quase morreu, mas nunca perdeu a sua humanidade nem a capacidade de a reco­nhecer nos outros. E ensinou-me isto. A minha mãe e eu tínhamos uma ótima relação, de uma grande simbiose.
Wendy – E o mesmo aconteceu com as outras mães. Nenhuma ficou amargurada ou rancorosa. Elas sempre sentiram que tinham de ser um exemplo para os filhos.
– Estas histórias de coragem também tiveram a capacidade de mudar a sua vida, Wendy?
– Sim. Este livro trouxe-me uma nova perspetiva sobre a minha vida, nunca mais tive coragem de me queixar de nada! Se estou cansada ou se me dói a cabeça, paro e penso no que estas mulheres passaram sem nunca desistirem.
– O Holocausto aconteceu há mais de 70 anos. Consegue fazer algum paralelismo com os conflitos xenófobos e religiosos que acontecem nos nossos dias?
– Sim, sem qualquer dúvida. Nunca foi tão importante falar sobre o Holocausto, precisamente pelos genocídios e conflitos que vivemos. O Holocausto foi uma lição que não aprendemos, e a prova disso é a maneira como estamos a lidar com os refugia­dos, por exemplo. Ninguém atravessa o mar num barco com uma criança porque quer, e sim porque não tem mais nenhum sítio para onde ir. Temos a obrigação legal e moral de lhes providenciar uma vida melhor.

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