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Prince: Como todos os génios, partiu cedo demais

“A vida é apenas uma festa, e as festas não foram feitas para durar.” (Prince, na letra da canção ‘1999’)

CARAS
30 de abril de 2016, 15:53

Tenham eles 30, 60 ou 90 anos, os génios morrem sempre cedo demais. Os que estão do lado do bem, naturalmente, os outros dispensam-se. Daí que, apesar do substantivo génio ter várias entradas no dicionário, as que nos interessam aqui sejam as que se referem àqueles que têm aptidões naturais invulgares, extraordinárias, que se manifestam na criação de obras originais, talentosas, sublimes. Àqueles que têm a capacidade de transcender a simples condição humana e contribuir para tornar as vidas dos comuns mortais mais ricas e belas. Gostasse-se, ou não, da sua música, da sua excentricidade, do seu visual estudadamente andrógino ou da ousadia com que explorava a sexualidade em letras e coreografias, Prince fazia parte desse raros seres. Porque num corpo franzino de apenas 1,58m reuniu uma lista imensa de dons inatos: a poderosa e versátil voz de falsete, a capacidade de contagiar multidões com as suas performances enérgicas e visual­mente elaboradas, o prodígio como multi-instrumentista (no seu primeiro disco, For You, tocou 27 instrumentos), a densidade emocional como poeta, a criatividade como compositor que nunca negou as raízes afro-americanas em abordagens com a sua marca muito própria de soul, funk, jazz ou R&B, mas que também viajou por sonoridades menos associadas aos negros, como a pop, a new wave ou a música sintética.
A tudo o que já foi dito, Prince Rogers Nelson – encontrado morto no passado dia 21 de abril, aos 57 anos, num elevador da sua casa de Paisley Park, em Chanhassen, perto da sua cida­de natal, Minneapolis –, juntou muitas outras qualidades. Como o espírito livre e rebelde demonstrado logo ao assinar o seu primeiro grande contrato, com a Warner, em 1978, para a edição de três álbuns: recusando deixar-se prostituir pelas editoras discográficas, exigiu total liberdade criativa e a propriedade integral dos direitos de autor. Teve, igualmente, a coragem de assumir publicamente muitos dos seus ideais e princípios de vida, por exemplo quando revelou que se tornara testemunha de Jeová, e a humildade de não se considerar alguém superior. Achava-se, tão só, um instrumento de Deus. Tam­bém não deixou que o sucesso lhe subisse à cabeça, mostrando-se sereno, discreto e afável nas poucas entrevistas televisivas que dava. Acima de tudo, nunca perdeu a generosidade, fazendo doações milionárias para causas em que acreditava. Entre elas, as que apostavam nas crianças e jovens desfavorecidos.
“I never meant to cause you any sorrow/I never meant to cause you any pain/I only wanted one time to see you laughing/I only wanted to see you laughing in the purple rain (Eu nunca quis causar-te qualquer sofrimento/Eu nunca quis causar-te qualquer dor/Eu só queria ver-te sorrir uma vez/Eu só queria ver-te a sorrir sob a chuva púrpura).” Assim começa Purple Rain, tema título do álbum lançado em 1984 e que foi banda sonora de um filme homónimo protagonizado pelo próprio Prince. Com 13 milhões de cópias vendidas nos EUA e, entre outros prémios, um Óscar de Melhor Canção Original e dois Grammy, esta canção, gravada com a sua banda de então, The Revolution, afirmaria definitiva­mente o músico.
Saída, dir-se-ia, diretamente do coração para as cordas da guitarra, que divide em absoluto o protagonismo com a letra tocante e a voz envolvente e sensual do cantor, Purple Rain ficará na história como uma das baladas mais tocadas de sempre. Em contrapartida, outro tema do álbum, Darling Nikki, daria origem à cria­ção do Parents Music Resource Center, associação de pais que conseguiu que os discos com letras de conteúdo sexualmente explícito passassem a exibir a etiqueta Parental Advisory: Explicit Lyrics, e ficou no primeiro lugar de uma lista de canções que em 85 foram intituladas nos EUA como Filthy Fifteen (as 15 mais ‘porcas’).
Apesar de ter gravado mais umas quantas baladas, entre elas I Would Die 4 You (84), The Most Beautiful Girl in the World (95) ou The Greatest Romance Ever Sold (1999), o grande trunfo de Prince – ou dos seus alter-egos, entre eles The Artist Formerly Called Prince (o artista ante­riormente conhecido como Prince), como lhe chamaram os jornalistas em 1993, quando, zangado com a Warner, passou a dar-se a conhecer através de um símbolo impronunciável – foi, inegavelmente, o groove enérgico, contagiante, hiper sexy, de centenas de temas que constam dos seus 39 álbuns de estúdio, gravados com as bandas The Revolution e The New Power Generation ou a solo. Dessa lista imensa destacamos apenas alguns dos maiores sucessos: I Wanna Be Your Lover (79), 1999 (82), Little Red Corvette (82), Delirious (83), When Doves Cry (84), Kiss (86), Sign o’ the Times (87), Gett Off (91), Cream (91), Diamonds and Pearls (91), Call My Name (2004). E, sabe-se, no espólio que deixa há muitíssimos mais títulos por gravar do que aqueles que viram a luz do dia.
Apesar de ser frequentador regular de festas e eventos so­ciais, Prince alimentou um quase contraditório low profile no que dizia respeito à sua vida pessoal. Nascido a 7 de junho de 1958, em Minneapolis, do casamento da cantora de jazz Matti Della Shaw e do pianista e compositor John Lewis Nelson (que adotou o nome artístico de Prince Rogers e o transmitiu ao filho no batismo, como prova de tudo o que lhe desejava de bom), Prince Rogers Nelson vestia-se, não só em palco, mas em quase todas as ocasiões, de uma forma tão efeminada – usando invariavelmente botas de salto alto para disfarçar a sua baixa estatura – que nunca ficou totalmente claro se não seria bissexual.
No entanto, nunca se lhe conheceram relações com homens, e, em contrapartida, a lista de mulheres com quem terá tido romances é extensíssima, incluindo celebridades como Kim Basinger, Madonna, Vanity, Carmen Electra ou Sherilyn Fenn. Além disso, em 85 esteve noivo da cantora Susannah Melvoin e em 96, aos 37 anos, casou-se com a exótica Mayte Garcia, 22 anos mais nova e bailarina e membro do coro que o acompanhava. Com Mayte, de quem se divorciou em 99, teve o seu único filho, Boy George, que nasceu a 16 de outubro de 96 e morreu uma semana depois, vítima de uma deficiência congénita, síndrome de Pfeiffer. O músico não escondeu que esta foi uma perda traumática (talvez até a responsável pela sua aproximação à religião), mas em 2001 refez a sua vida amorosa casando-se com a não menos exótica Manuela Testolini. O casamento durou apenas cinco anos.
Recentemente, Prince anunciara que ia escrever as suas memórias. Nelas teria, talvez, levantado um pouco o véu sobre a sua faceta mais íntima. A sua morte, uma semana depois de o seu jato privado ter feito uma aterragem de emergência no Illinois, quando regressava a casa depois de um concerto em Atlanta, supostamente devido a uma gripe, impede em definitivo essa descoberta. Ironicamente, já depois disso, na noite de 16 de abril, o músico esteve numa festa no seu estúdio de gravação e, assegurando que se sentia bem, disse aos presentes: “Esperem alguns dias antes de gastarem as vossas orações.” Uma frase quase profética, pois morreu cinco dias depois, de causas que só os resultados da autópsia confirmarão, apesar de correrem rumores de eventual overdose.
Horas depois da sua morte, milhares de fãs saíram às ruas em Minneapolis e celebraram-no como ele mais teria gostado: a dançar a sua música pela noite fora. Afinal, como dizia na letra de 1999, “a vida é uma festa, e as festas não foram feitas para durar”. Que é o mesmo que dizer, há que as aproveitar enquanto duram!

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