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Filipe Vargas: “Temos que acreditar em nós e ter coragem de arriscar”

O ator, de 43 anos, trabalhou dez anos como ‘copy writer’ antes de tomar consciência de que ser ator não era só um sonho, mas também uma vocação.

Cláudia Alegria
24 de abril de 2016, 12:00

Diz que a característica que melhor o define é a curiosidade. Por isso devorou livros, revistas e programas de televisão dedicados à cultura enquanto não tinha idade suficiente para ir à descoberta do mundo pelo seu próprio pé. Natural das Caldas da Rainha, foi em Lisboa que concluiu a licenciatura em marketing e publicidade que lhe permitiu trabalhar, durante uma década, no mundo criativo das agências de publicidade. Aos 30 anos decide mudar de vida e, depois de ter passado por Moçambique e pela Índia, onde chega à conclusão de que não iria dedicar a sua carreira profissional a missões humanitárias nem à gestão de uma guest house, opta por tentar a sua sorte na área da representação. O tiro parece ter sido certeiro: Filipe Vargas garante ser feliz nesta profissão em que brilham os que conseguem dar vida e alma a personagens de histórias televisivas, teatrais ou cinematográficas. Aos 43 anos, o médico Inácio da novela da SIC Coração d’Ouro conversou com a CARAS sobre este seu percurso num dos jardins lisboetas onde gosta de passear com a sua companheira de quatro patas, Lola, que adotou há nove meses.
– Abandonou uma carreira de dez anos na publicidade para se entregar à representação. Sentiu que tinha terminado um ciclo?
Filipe Vargas –
Estava à pro­cura de alternativas. Tinha sempre uma voz que me dizia que queria mesmo era ser ator, mas sempre com a sensação de que isso era um sonho, uma coisa um bocado imatura, e que se calhar não tinha pernas para andar. Comecei por pedir informações de escolas em Londres e em Espanha e aproveitei as férias para fazer provas em duas delas, sem nunca ter feito nada em teatro e representação. Alguma coisa correu bem, porque acabei por entrar nas duas...
– Foi quando passou a ter certezas?
Sim, foi quando achei que, se calhar, tinha sido a decisão certa. Despedi-me quando voltei para Portugal e, um mês depois, já estava a estudar em Madrid.
– Foi um recomeço?
Foi. Quando vamos para o estrangeiro temos de criar a nossa network, um novo grupo de amigos, rotinas e hábitos diferentes... Eu passei de uma rotina diária a trabalhar numa agência de publicidade para um dia-a-dia a estudar numa escola de teatro. Foi uma espécie de restart daquilo que eu era e comecei a sentir-me mais eu próprio à medida que o tempo foi avançando.
– Já passaram oito anos. Ser ator é o trabalho da sua vida ou, daqui a uns anos, vai querer mudar novamente?
Tive a certeza absoluta que era o trabalho da minha vida. Quando estava indeciso entre ficar em Madrid ou regressar a Lisboa, fui escolhido no casting para a série Conta-me Como Foi. Foi das tais coisas: a vida conduz-nos, a decisão já estava tomada. Voltei para Portugal.
– Já participou em vários filmes, séries, novelas e peças de teatro. Não há preferências?
O mais importante é a nossa personagem, aquilo que temos que fazer com ela e como é que ela serve a história. O meio é completamente irrelevante. Podemos ter uma personagem extraordinária em televisão e uma bastante medíocre em cinema ou em teatro. O nosso trabalho é enriquecer as perso­nagens, como se fosse um esqueleto em que nós criamos a carne, os músculos, e isso acho que é uma obrigação de qualquer ator: dar uma mais-valia a um papel qualquer que te dão.
– “Aprende-se a viver com menos coisas mas fazendo aquilo que se quer.” Passou a ser este o seu lema de vida?
Sim. Quando fui estudar para Madrid tinha algumas poupan­ças, por isso me permiti fazê-lo, mas, a determinada altura, as poupanças acabaram e comecei a viver outro dia-a-dia, não só na forma como o ocupava. Aqui, tinha casa própria, ganhava bem e viajava. Em Madrid passei a dividir a casa com mais umas quantas pessoas e tinha muito menos dinheiro. Chegámos a dividir um frango por quatro. Isso, para mim, nunca foi um sacrifício, mas foi, de facto, uma mudança radical de estilo de vida. Tive de encontrar várias maneiras de arranjar dinheiro: fiz traduções, dei aulas de português, trabalhei em restaurantes e bares. A lição que trazes disto é que, de facto, não precisas de muita coisa para ser feliz. O mais importante é estares a fazer aquilo que queres. É melhor teres uma casa do que não teres. É melhor teres um carro do que não teres. Mas isso nunca pode ser o teu lema de vida. O teu lema tem de ser encontrar aquilo que é o teu objetivo e a tua vocação e, se tudo correr bem, é isso que te vai alimen­tar e dar-te conforto até ao resto da vida.
– Parece que gosta de se deixar guiar mais pela emoção do que pela razão?
Sim. Quando decidi mudar de vida, imensa gente elogiou a minha coragem e eu, honestamente, nunca pensei nisso dessa forma. Era a única coisa que eu podia fazer, não havia um plano B. Era aquilo ou não era nada. Acho que, se tivesse pensado demasiado em tudo aquilo de que teria que abdicar e nos riscos enormes que corria, teria equacionado a hipótese de isto poder não dar certo. Mas nunca pus a hipótese de não arranjar trabalho, de isto não funcionar. Se calhar, foi uma grande inconsciência, mas é a maneira como levo a vida. Há coisas que têm de ser por instinto, temos de acreditar em nós e ter a coragem de arriscar. E aí a razão muitas vezes só complica. O coração e o instinto são normalmente as melhores armas para nos guiar. Se começamos a ra­cionalizar muito, permanecemos sempre numa zona segura e, por vezes, é bom ter medo, acordar a meio da noite com suores frios por não saber se vamos ter trabalho quando temos contas para pagar. Faz-nos ir à luta.
– E se lhe pedíssemos para se definir enquanto ser humano...
A característica que melhor me define é a curiosidade e espero que nunca desapareça. Tenho uma enorme curiosidade por tudo e por todas as pessoas, com quem podemos aprender muito e constantemente até ao final da vida. Depois, acho que estamos nesta vida para ser felizes, portanto, acho que devemos tentar procurar pessoas, situações, ocupações que contribuam para a nossa felicidade. E felicidade não tem a ver com estar a rir o tempo todo, tem a ver com realização pessoal. Acho que esse é o meu lema de vida: tentar realizar-me pessoalmente e ser cada vez mais aquilo que acho que sou.

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