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Valéria Carvalho garante: “Portugal tem bom coração”

Valéria prepara-se para estrear na Fundação Portuguesa das Comunicações, onde foi fotografada pela CARAS, uma peça na qual partilha o palco com o filho, João Pedro Carvalho Lima, de 20 anos.

Rita Ferro
27 de março de 2016, 14:00

Valéria Carvalho é uma actriz e cantora brasileira. Vive connosco há 24 anos e ficou conhecida do grande público graças ao seu trabalho na série Não Há Pai, da SIC, interpretando a hilariante Juraci... Seguiu-se cinema, novelas, séries e talk shows, mas foi graças ao seu trabalho no teatro, e ao êxito formidável dos seus espectáculos, que ganhou a atenção e a admiração dos meios culturais: Chico em Pessoa (2012), em torno da obra de Pessoa e Buarque de Holanda, esteve presente na Casa Fernando Pessoa e em vários festivais; e Rui Veloso em Jeito de Bossa, apresentado no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra, agora em digressão nacional com salas esgotadas. Fascinada por Portugal, que ama tanto como ao filho português – João Pedro Carvalho Lima –, licenciado pela Escola Profissional de Teatro de Cascais, prepara-se para estrear com este a peça O Sofá, a Mamã e Eu, não sem antes convidar o talentosíssi­mo italiano Lamberto Car­rozzi para encená-la. A estreia será no Festival AmoTeatro, na Ilha da Madeira, e, em Lisboa, escolheu a Fundação Portuguesa das Comunicações para a apresentar. É bonita, inteligente e nada vaidosa, apesar dos cuidados da produção, e tem 47 anos, parecendo, no máximo, 35.
– Onde nasceu? Fale-nos das suas origens, da sua infância...
– Nasci em Minas Gerais, numa cidadezinha chamada Formiga, [risos] onde só havia um cinema que, por sorte minha, pertencia ao meu avô paterno. Cresci entre o universo mágico do cinema e as montanhas da fazenda da minha avó materna. Num ambiente seguro, no seio de uma família unida e numerosa. Nunca me esquecerei duma viagem que fizemos ao estado do Espírito Santo para conhe­cermos o mar, eu tinha sete anos. Alugámos um autocarro e fomos todos, os meus pais, a minha avó já velhinha, todos os tios, primos... Ficam para sempre no meu coração as peripécias desta viagem de três dias e o silêncio absoluto no momento em que, de mãos dadas, vimos o oceano pela primeira vez...
– Que a fez primeiro deixar o Brasil e depois escolher Por­tugal para viver?
– Soube desde pequena que iria sair do Brasil. Queria conhecer o mundo ‘lá fora’ e sobretudo queria conhecer-me a mim própria. Outro factor importante era a situação económica do Brasil naquela altura, com uma inflação que chegou a 300 por cento ao mês! Era mais fácil ser independente na Euro­pa... Quando o Collor de Mello ganhou as eleições para presidente, desanimei, fiz uma mochila cheia de sonhos e parti. Na altura, vim com um amigo, também bailarino, que tinha uma amiga em Portugal... e viemos parar ao Porto, no final de 1990. Lembro-me com muito carinho dessa época: a novidade, a aventu­ra e a sensação de liberdade...
– Veio para ficar ou planeia um dia regressar ao Brasil?
– Adoro ir aonde o meu trabalho me leva. Mas a minha casa é em Portu­gal. E não há lugar melhor que a nossa casa, não é verdade?
– Tem sido um longo percurso. Quais as maiores dificuldades que encontrou?
– Conquistar o meu equilí­brio para conseguir viver longe da minha família. Neste sentido tive e tenho muita sorte. Tenho amigos aqui para a vida... Sem amigos não dá! Encontrei sempre pessoas maravilhosas no meu caminho. Portugal tem um bom coração. Tive sorte.
– Sabemos do impacto que Portugal lhe causou, mal desembarcou no Porto. Quer contar esse episódio?
– Sim, curiosamente estava acontecendo um show do Rui Veloso no centro da cidade, e lembro-me de pensar: nós temos o Caetano, eles têm o Rui, também Veloso... me apaixonei imediatamente por tudo e o Rui foi a minha porta de entrada para conhecer a música portuguesa...
– Foi por isso que ficou tão próxima do Rui?
– A obra do Rui marcou todo meu percurso de vida aqui... Como actriz, o seu trabalho sempre me fascinou... O Rui é uma espécie de compositor encenador, ele cria um cenário musical para as letras... Depois de fazer o espectáculo Chico em Pessoa, não resisti em fazer o Rui Veloso, em Jeito de Bossa.
– Mas agora vive em Lisboa. Lisboa tem sido sua amiga?
– Eu amo Lisboa, até hoje, passados 24 anos, me delicio sempre com este ponto de encontro ancestral, onde encontramos de tudo, do fado à morna... Mas também amo Sintra, onde descobri a música tradicio­nal portuguesa de qualidade atra­vés da Real Cia... Os cantares alentejanos (vivi dois anos em Évora), a Madeira e os Açores (para mim, dos lugares mais incríveis do mundo), a Serra do Açor, onde passei este ano o verão... Sem falar do Norte, que conheci de “pé a pé” quando fiz o inesquecível Caminho de Santiago...
– Foi sempre bem acolhida e respeitada ou sofreu discriminações no meio artístico?
– Fui sempre acolhida com muito carinho e uma certa curiosidade, tanto é que fiquei... Nunca encarei qualquer acontecimento menos agradável como discriminação. Se alguém tenta descarregar as suas próprias frustrações em nós, o problema é delas e não nosso. A minha alma não tem forma, cor ou nacionalidade, é livre, infinita e muito menos tem idade.
– Canta, dança, interpreta, escreve, compõe – quem, na família, lhe transmitiu uma tal diversidade de dotes?
– Penso que foi a educação que tive. Os meus pais não eram artistas, mas nunca me reprimiram, deixaram-me fazer o que queria... Aos 15 anos entrei para o corpo de baile de uma companhia de dança contemporânea profissional. Tive uma mãe presente, que me deixava brincar, e um pai que trazia cultura para dentro de casa. Eu cresci ouvindo Chico Buarque, Villa Lobos e Tom Jobim. Ele fazia parte de um círculo de leitores e todos os meses cada um de nós – somos quatro irmãos – escolhíamos um livro, depois trocávamos e conversávamos horas sobre eles. Também almoçávamos juntos todos os dias a comida maravilhosa da minha mãe, e à sobremesa tínhamos sempre conversas inspiradoras que me faziam sonhar... Ríamos muito juntos. Tive mesmo muita sorte com os meus pais, não há um dia em que não me lembre deles. Partiram muito cedo...
– Fale-nos desta peça que vai fazer com o seu filho João. Será a estreia dele no palco?
– O meu filho, agora com 20 anos, já conta com duas peças profissionais no seu currículo de actor, além de ter sido um dos protagonistas de uma série televisiva aos 12 anos... Também está ligado à música e já compôs a banda sonora para duas peças de teatro. Desde criança co­meçou a frequentar workshops e oficinas de teatro.
– Dê-nos um lamiré da peça...
– É uma comédia, linda e emocionante, fazemos papéis de mãe e filho, uma ficção que aborda vários temas do quoti­diano e as dificuldades inerentes a todas as relações, mas tudo de uma maneira bastante cómica e divertida, até algo despojada.
– À distância, como vê o Bra­sil? Até que ponto os problemas sociais que se observam no seu país a ferem ou atingem?
– Eu cresci num país com problemas, nunca, enquanto lá vivi, ouvi dizer que estava tudo bem, muito pelo contrário, era a loucura total... Não vivo obcecada com as notícias
de lá. Gosto de saber, mas é aqui que vivo.
– Ensine-me o segredo para parecer menos dez anos.
– Hoje em dia já ninguém me tira o Holmes Place de Cascais, onde tenho um pouco de tudo, as minhas caminhadas no ‘paredão’ e, sempre que posso, sair para dançar ao som
da música cabo-verdiana [risos].
– Sabemo-la mística e com um pendor espiritual orientalista muito forte. Qual a sua fé, o seu credo?
– A fé é uma conquista diária. É um trabalho de direccionar a mente, o corpo e o espírito para o bem. A gratidão nos faz entrar em contacto com o bem. Nenhum dogma para mim tem valor se não estiver baseado no amor. É para isto que estamos aqui. Para aprendermos a amar. A nós próprios, aos outros e ao mundo.
Nota: por vontade da autora, este texto não segue as regras do novo acordo ortográfico.

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