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Yolanda Lobo rendida à neta, Matilde: “Uma avó é um aquário de amor”

A ex-manequim, de 59 anos, sente-se radiante na sua estreia como avó, papel que tenciona viver intensamente, como nos disse, com Matilde ao colo.

Cláudia Alegria
20 de março de 2016, 12:00

Com uma voz doce e enternecida e os olhos a brilhar, Yolanda Lobo tenta pôr em palavras aquilo que sente no fundo do seu coração. A ternura com que fala do seu papel de avó – no qual se estreou a 28 de setembro do ano passado, quando a sua filha, Inês, de 28 anos, foi mãe de Matilde –, revela a intensidade com que assumiu a responsabilidade de tentar transmitir à neta o melhor de si, sempre com muito amor.
– Tinha expressado a vontade de assistir ao parto da Matilde. Conseguiu fazê-lo?
Yolanda Lobo –
Não consegui, foi desumano! Acho que o aconchego da família é cada vez mais importante e adequado nos tempos de hoje e, nessa noite, não me deixaram ver nem a Matilde nem a minha filha. Só precisava de dar um abraço à minha filha, porque sei avaliar o momento de felicidade que ela estava a passar e queria partilhá-lo. Tinha passado pelo milagre de dar vida a um ser humano, de sentir um bebé a sair do corpo dela, e era importante tê-la abraçado no minuto seguinte. Expliquei-o à enfermeira, mas, infelizmente, respondeu-me que teria todo o tempo do mundo para o fazer. No dia seguinte, fui a primeira a entrar à hora da visita, e desatámos a chorar de felicidade e de cumplicidade nos braços uma da outra. Foi um esvaziar de amor. De tal maneira que a senhora que estava na cama ao lado achou que tinha acontecido alguma coisa à Matilde, porque chorávamos copiosamente, mas era um choro de alegria, de cumplicidade, de afeto.
– Passaram quatro meses e meio. Comemoram cada nova etapa de vida da Matilde?
– Vou sempre dar um beijinho à minha neta quando ela celebra mais um mês de vida, mas não sou o tipo de mãe que se impõe na casa dos filhos. Eu fiz a minha vida e agora eles têm de fazer a deles. Se me chamarem, fico enternecida, comovida, e vou a correr, mas nunca apareço sem perguntar se posso e nunca me imponho.
– E têm pedido o seu apoio, a sua presença, de forma regular?
– Sim, e estamos cada vez mais unidos. A Inês sente-se segura, porque me viu tratar do irmão mais novo, o António Maria [de 21, nascido do seu casamento, entretanto terminado, com o antigo jornalista da RTP Carlos Noivo], assimilou tudo e agora está a fazer o mesmo com a filha. Ela diz, por exemplo, que, contrariando o que muitas mães defendiam, dei muito colo ao meu filho e não o deixava chorar só porque ‘lhe fazia bem’. Eu dizia sempre que ele teria muitos motivos ao longo da vida para chorar: mal entrasse na escola iria começar a enfrentar problemas, desilusões, brigas, crueldades e saudades da mãe, portanto, queria que tivesse todo o amor possível enquanto estivesse comigo. O amor a menos é crime, o amor a mais molda seres humanos doces que, futuramente, saberão dar amor à família. Portanto, nada é em exagero, nem os beijos repenicados e lambuzados nem os abraços.
– Que valores gostaria de lhe transmitir?
– Respeito, integridade, educação, a troca de sorrisos com desconhecidos. Acho que temos de espalhar o que o nosso coração tem de bom com quem nos cruzamos e trabalhamos, valorizando sempre o lado bom das coisas e das pessoas.
– Isso é uma aprendizagem ou é inato?
– Acho que aprendi. Porque sofri tanto, passei por tantas dificuldades na minha vida... [emociona-se]. Passei por tanta desilusão que tive de aprender a ser feliz com as sobras que a vida me deixou. Por exemplo, quando vivia em Moçambique, fazia tudo e mais alguma coisa e, de repente, fiquei gravemente doente do coração. Durante dois anos inteiros, dos 13 aos 15 anos, não saí da cama. Nos cinco anos seguintes tive de reaprender a andar, a falar, a subir e descer escadas, a conseguir ir até à praia sem me cansar... Tudo me estava vedado, até dançar. O médico dizia-me que nunca mais ia ter uma vida normal, que não poderia ter filhos, e tinha de me habituar a esse destino. Felizmente, um médico da África do Sul inventou um comprimido que tomei durante quase dez anos e que me foi aliviando essa pressão.
– Que doença era essa?
– Um vírus que se tinha alojaaddo no coração e que não deixava bombear bem o sangue. Aos 18 anos vim a Portugal para fazer um tratamento no Hospital de Santa Maria e lembro-me de que chorei copiosamente na primeira vez que voltei a dançar, porque achava que nunca mais o iria fazer. E cada conquista que ia sendo feita, como subir escadas sem me cansar, eram pequenas vitórias de que fui usufruindo como medalhas. Desde então, tento aproveitar a vida e ver sempre as coisas pelo seu lado positivo.
– Aos 59 anos, parece ser uma avó cheia de energia e vontade de acompanhar o crescimento dos netos...
– É muito bom, é verdade. Penso que o meu papel não será o de educadora, mas o de lhes deixar memórias, como a minha mãe deixou aos netos. A minha sobrinha e os meus filhos emocionam-se imenso quando falam da minha mãe, lembram-se, por exemplo, do cheiro da comida da avó. E eu gostaria que, um dia, a minha neta dissesse isto. Uma avó é, de facto, uma referência, pode ser aquele aquário de amor onde filhos e netos vão buscar conforto quando têm problemas. E essa responsabilidade de deixar uma memória de coisas boas é muito grande. Sei que há pessoas que não querem ser avós, porque acham que é símbolo de envelhecimento. Eu acho que é símbolo de crescimento, é um prémio que me é devido porque criei filhos que me querem ter por perto como avó. Vou fazer 60 anos em setembro e tenho como objetivo começar a ter um luxo que raramente tive: tempo. Tempo para ir almoçar com a minha filha, para um fim de tarde a beber um copo de vinho enquanto leio um livro na praia, para brincar com a Matilde e ir com ela ao cinema... É um aconchego que acho importante manter, porque na vida tudo se vai afastando: trabalhos, pessoas de quem gostamos e que desaparecem... Poder correr para o abraço do núcleo familiar, que é o aconchego quando tudo corre mal, é inigualável. Se eu for esse colo para a minha neta, então tudo compensou.

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