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Catarina Furtado alerta para causas solidárias

“Quando se salva uma rapariga, é um mundo que se salva”, assegurou Catarina Furtado à CARAS no regresso de uma viagem ao Gana, de onde veio com energias renovadas para apoiar as causas que defendem e promovem os direitos humanos.

CARAS
28 de fevereiro de 2016, 14:00

Dois dias depois de ter regressado do Gana, onde participou na 7.ª Conferência África sobre Saúde Sexual e Direitos, Catarina Furtado contou à CARAS aquilo que viu e não esquece, revelando ainda como estas viagens a mudam.
– Neste trabalho de campo no Gana, o que viu e não esquece?
Catarina Furtado – Vi e ouvi jovens com idades entre os dez e os 17 anos a falarem com uma consciência desarmante sobre a dura realidade da gravidez adolescente e precoce. Assisti ao lançamento da Campanha da União Africana Contra o Casamento Infantil e foi comovente ver tantas pessoas de quadrantes tão diferentes, tendo em conta todas as questões culturais, a marcarem a sua posição. Isto quer dizer que é possível fazermos muito mais e melhor para defender e promover os direitos humanos. Vim com a minha energia reforçada para estas causas. Quando se salva uma rapariga, é um mundo que se salva.
– O que é que fala mais nestas viagens? O coração ou a razão?
– Tenho uma necessidade grande de aprender o mais que posso para poder contextualizar tudo. Nessas alturas, tento usar a razão. Ao longo destes 15 anos enquanto embaixadora do UNFPA [Fundo das Nações Unidas para a População], o que percebi é que o mais impor­tante é saber ouvir e observar. Entender as realidades dos outros como se de uma folha em branco se trate, para depois fazer perguntas e a juntar peças. É um grande erro olhar para os outros à luz da nossa realidade. Corremos o risco de ser paternalistas. Os direitos humanos uniformizam-nos mas não podemos ter a pretensão de achar que conhecemos as necessidades dos outros. O que me chama o coração é quando vejo, por exemplo, com os meus próprios olhos, para lá das estatísticas, que todos os dias morrem 800 mulheres por causas evitáveis relacionadas com a gravidez e o parto; que 140 milhões de meninas e mulheres são sujeitas a uma mutilação genital feminina; e que uma em cada três mulheres no mundo é vítima de violência.
– Regressa destas viagens uma pessoa diferente?
– Volto sempre muito acrescentada, às vezes mais indignada porque também venho mais in­formada, mas sempre com mais vontade de me agarrar as estas causas e de fazer a minha parte, ainda que seja pequena. Não aguentava ter uma carreira como a que tenho centrada apenas em mim, no sucesso dos meus projetos e da minha imagem. Sei que isso jamais representaria a minha felicidade. No presente, e olhando no futuro para o passado, quero saber e sentir que contribuí para tornar a vida de alguém mais digna.
– Estas missões são uma inspiração para a sua vida quotidiana?
– Claro que são. A criação da associação Corações com Coroa, há quatro anos, é o resultado de todas estas experiências humanas: as pessoas incríveis que tenho conhecido, desde profissionais que fazem o seu melhor em condições terríveis para endireitar o mundo, até às que sobrevivem em situações de grande desigualdade que nos deviam inquietar a todos.
– Depois destas viagens, como é que se sente quando volta a entrar em casa?
– Uma privilegiada, sempre com mais convicção para utilizar esse privilégio também em prol dos outros. E com vontade de unir mais sinergias. Nada se consegue sozinho e estar atento aos outros é também uma opção e uma vontade que deve ser promovida dentro de nós.
– Como explica aos seus fi­lhos as suas missões?
– Antes de partir estudo sempre com eles um bocadinho o país para onde vou. E depois, como escrevo sempre muito nos meus blocos e tiro dezenas de fotografias, vou acompanhando as fotografias com histórias reais. Muitas vezes tenho que adaptá-las quando as realidades são duras demais. Mas, de uma maneira geral, conto quase tudo porque acho, sinceramente, que eles não podem viver alienados destes contextos para não correrem o risco de um dia serem adultos sem uma noção clara do mundo que os rodeia e sem um espírito ativo de solidariedade e de vontade de fazer a sua parte na construção de um mundo mais justo, igualitário e saudável.
– A solidariedade também muda quem a pratica?
– Quando vem do coração, acho mesmo que sim. Quando é imposta, tenho dúvidas.

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